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sábado, 28 de junho de 2014

o poeta sabe menos que o poema #19



«Deixa
lentamente
que a tarde finde
verás depois ou entretanto
depende
que o que deixas acabar
não é mais do que a parte que a ti
te pertence.

Ali,
onde tu vês o que não existe
saberás, se te perderes um pouco,
que esse céu que o teu olhar
tantas vezes fingiu
fingiu uma vida inteira.

Depois, quando regressares,
e não souberes quem és,
isto é, quando te perderes de vez,
e tiveres aprendido por duas vezes
tudo o que há para aprender nesta vida
é possível que eu queira, se é que isto existe,
morrer contigo, morrer melhor.

Mas como te percebo,
eu próprio nunca abri os olhos
nunca me perdi antes
nunca me achei em nenhum céu.
Nunca, sequer, me levei de uma cor à outra.
A noite escura nunca me levou ao lugar que eu queria.

Morri apenas.
Demorei uma vida a morrer.
Como desejei.
Aos poucos,
ou de uma vez só,
como a tristeza quis.» 

António Quadros Ferro "Um Pouco de Morte", Edição do autor, 2009

terça-feira, 6 de maio de 2014

o poeta sabe menos que o poema #18

























«Desprende-a de ti, põe-na no mundo com todo o poderio
que guarda dentro. Fá-la girar no mundo, girar
por obra do fôlego
como se fosses tu, girar com os poros à luz num equilíbrio 
perigoso
 –  flor com umbigo» 

Herberto Helder, "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim, 2001


terça-feira, 15 de abril de 2014

o poeta sabe menos que o poema #17



«E ele é o olho louco da quarta pessoa do singular
da qual ninguém fala
e ele é a voz da quarta pessoa do singular
pela qual ninguém fala
e que todavia existe»

Lawrence Ferlinghetti


sexta-feira, 21 de março de 2014

o poeta sabe menos que o poema #16

 


«Escrevo como um profissional, à linha, as palavras pouco importam, são ambíguas e inúteis. As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer.»

Luiz Pacheco, "Exercícios de Estilo", Editorial Estampa, 1999

domingo, 9 de março de 2014

o poeta sabe menos que o poema #15



«O mundo moderno 
A velocidade nada pode
O mundo moderno
Os lugares afastados ficam demasiado longe 
E no fim da viagem é terrível um homem
       com uma mulher...
  
"Diz-me, Blaise, estamos muito longe de Montmartre?"

Tenho pena tenho pena vem vou-te contar uma história
Vem para a minha casa
Vem para o meu peito
Vou contar-te uma história...

Vem! Vem!»

Blaise Cendrars, "Poesia em Viagem", Assírio & Alvim, 2005

sábado, 8 de fevereiro de 2014

o poeta sabe menos que o poema #14



Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros, “Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros”, Planeta do Brasil, 2010

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

o poeta sabe menos que o poema #13



Vou-te dar um presente
eu gosto de presentes
é uma caixa de jóias
é tão bonita
dentro está um anel com uma pedra preciosa
porque é tão grande?
toma
porque é tão grande?
toma
cuidado
dentro está um anel com uma pedra preciosa
mas talvez nunca o chegues a pôr no dedo
na caixa está uma serpente
para pegares no anel tens de abrir a caixa
se abrires a caixa a serpente pode picar-te o dedo
e tu podes morrer
se não abrires a caixa

Adília Lopes, "Obra", Mariposa Azual, 2000

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #12


Enquanto lá fora avança do mar a fortalecida
onda que, de amores e desejos, nas palpitações
de um fugaz instante, tudo fará esquecer.

Paulo Teixeira, "Conhecimento do Apocalipse", & etc., 1988

sábado, 23 de novembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #11


«Amanhã é quinta-feira.
Se o mundo cumprir com suas obrigações,
depois de amanhã será sexta.
Se não, talvez mesmo domingo
e nunca ninguém saberá
onde se extraviou nossa vida.» 

Piotr Sommer

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #10


«Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça» 

Mário Cesariny, “Pena Capital”, Assírio & Alvim, 2004

sábado, 5 de outubro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #9

«O Poeta empresta todos os materiais, menos as imagens»

Novalis, "Fragmentos de Novalis", Assírio & Alvim, 2000

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #8


De Escuridão em Escuridão

Abriste os olhos – vejo a minha escuridão viver.
Vejo-a até ao fundo:
também aí é minha e vive.  

Poderá isso transpor? E transpondo acordar?
De quem é a luz que se atrela aos meus passos
para encontrar um barqueiro?  

Paul Celan, Sete Rosa Mais Tarde, Cotovia, 1993

sábado, 7 de setembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #7


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo, "Homem de Palavra(s)", Presença, 1997 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

o poeta sabe menos que o poema #6


«Deve haver, no mais pequeno poema de um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero.
A novidade, em si mesma, nada significa, se não houver nela uma relação com o que a precedeu. Nem, propriamente, há novidade sem que haja essa relação. Saibamos distinguir o novo do estranho, o que, conhecendo o conhecido, o transforma e varia, e o que aparece de fora, sem conhecimento de coisa nenhuma. Entre os escritores que descendem com novidade da velha stirpe e os que aparecem por novos por pertencer a uma estirpe incógnita há a mesma diferença que há entre o homem que nos dá uma sensação de novidade por frases novas que diz e o que nos dá uma sensação de novidade, por, falando mal nossa língua, nos dizer estropiadamente qualquer frase dela.»

Fernando Pessoa, "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação", Ática, 1996

quinta-feira, 27 de junho de 2013

o poeta sabe menos que o poema #5


A ilha onde tudo fica claro.

Aqui é possível ter pé nas razões.

Caminhos que a servem só os de ir.

Vergam-se os arbustos pesados de respostas.

Aqui vai crescendo a árvore do Bom Senso
de ramos eternamente desenredados.

A fulminantemente simples árvore da Compreensão 
junto à nascente do Aí Então É Isso.

Quanto mais longe no bosque, mais amplamente se abre o 
Vale da Clarividência.

Se alguma dúvida há, o vento a dissipa.

Sem ser chamado o eco leva a voz
e de bom grado desvenda os enigmas do mundo.

Ao lado direito a gruta onde o sentido descansa.

À esquerda fica o lago da Profunda Convicção.
A verdade desprende-se do fundo e vem levemente flutuar à superfície.

Sobranceira ao vale a Certeza Inabalável 
de cujo cume se estende a Vera Essência.  

Wislawa Szymborska, "Paisagem com Grão de Areia", Relógio D`Água, 1998

terça-feira, 4 de junho de 2013

o poeta sabe menos que o poema #4


nem todos os homens que
saem de minha casa saem de minha cama
nem todos aqueles que
saem da minha cama saem de dentro de mim
nem todos os que
saem de dentro de mim chegaram sequer a lá entrar
não, nada é tão líquido assim 

Bénédicte Houart, "Vida: Variações", Cotovia, 2008

sexta-feira, 24 de maio de 2013

o poeta sabe menos que o poema #3


Compreendo que se adorem as mulheres,
se lhes beije e acaricie a beleza

- pessoal - em outro corpo como o seu.
Pois é seu corpo incrível maravilha
cuja demonstração aturde o ar.

Um corpo de mulher é uma paisagem
que seduz olhar, suspende o ânimo
e dá ânsias de percorrer a quem contempla.

Ondulações suaves. Firmes cumes
em túrgidas colinas levantados.
Azulados arroios quase ocultos
sob a polida pele onde decorrem.

Caminhos e azinhagas atraentes.
Tímidos brejos. E outros cimos ainda
a alcançar, com curvas de delícia
e grutas que as próprias mãos vão cativar.

É grato percorrer seu doce corpo.
Sentir o seu tépido clima. E com os lábios
saborear as sensações que dele emanam.

É lógico que se amem as mulheres.
Estranho é o contrário. Até o vê-las
fazer amor é agradável.

É um céu seu corpo. O céu humano.
Fora eu mulher e lésbica seria.

J. M. Fonollosa, "Cidade do Homem: New York", Antígona, 1993

domingo, 7 de abril de 2013

o poeta sabe menos que o poema #2


Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita

Daniel Faria, "Poesia", Quasi Edições, 2003 

sexta-feira, 22 de março de 2013

o poeta sabe menos que o poema #1

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder, "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim, 2001