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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Teoria da Conspiração #50 (ou o Ponto Vazio da Jaula)



Não existe uma rigorosa distinção entre símbolo e alegoria, na medida em que a alegoria é a própria simbologia em decomposição, morta por hipertrofia. Todavia, nessa decomposição do símbolo liberta-se um poder imenso, o frio sentido algébrico, o que permite criar com soberano arbítrio as convenções, impor que qualquer coisa possa substituir qualquer outra coisa. «A alegoria seiscentista não é convenção da expressão, mas expressão da convenção»: assim se cria também o mito da escrita, perene festim de morte, entregue à «volúpia com que o significado domina, como um tenebroso sultão, no harém das coisas». A alegoria incontrolável, agora subtraída a uma ordem viva do sentido, mera obrigação de procurar imagens e de ir elaborando sempre o seu significado através de lacerações combinatórias, provoca acima de tudo o extravasar das próprias imagens: tal como os objectos invadem obsessivamente a cena do teatro barroco, até se converterem nos verdadeiros protagonistas, também as figuras irrompem como ameaças nos livros de emblemas, comemorando a cisão progrediente entre imagem e significado. Quem é que, ao abrir Emblematum Liber de Alciato e ao ver uma mão cortada com um olho na palma, pousada em pleno céu, numa paisagem campestre, poderá pensar na prudência, como pretendia o texto do emblema? Reconhecerá, pelo contrário, a vivisecção do corpo humano, uma muda alusão ao estado de natureza como obra de alvenaria e a insconsciente instauração do fragmento como categoria dominante do estético. Com a acumulação destes materiais prepara-se a ribalta do moderno. A história de então prefigura a verdadeira história dos nossos dias: aquelas imagens, então saídas para o mundo, como feras saídas da jaula, continuam a vaguear pelo mundo. Kafka descreveu-as: «Leopardos irrompem pelo templo e esvaziam os vasos dos sacrifícios; isso repete-se sempre; no fim, pode prever-se, e torna-se uma parte da cerimónia». Alegoricamente, o escritor é aquele que assiste a essa cena.

Roberto Calasso, "Os Quarenta e Nove Degraus", Cotovia, 1998

segunda-feira, 17 de março de 2014

Teoria da Conspiração #49 (ou o Coração é uma Máquina Cúmplice)


«Kurt vinha todas as semanas à cidade. Era engenheiro num matadouro. Este ficava na orla de uma aldeia, não muito longe da cidade. A cidade fica demasiado próxima, para eu morar na aldeia, dizia Kurt. Os autocarros andam ao contrário. De manhã, quando tenho de ir trabalhar para a aldeia, há um autocarro que vai da aldeia para a cidade. À tarde, depois do trabalho, há um autocarro que vai da cidade para a aldeia. Isto tem a sua razão de ser, eles não querem pessoas a trabalhar no matadouro, que possam ir diariamente à cidade. Só querem aldeões que raramente saiam da aldeia. A gente nova torna-se rapidamente cúmplice. Precisam apenas de alguns dias para, como os demais, emudecerem e tragarem sangue.»


«De manhã, quando vou para o matadouro, as crianças da aldeia vão para a escola, dizia Kurt. Não levam nem cadernos nem livros, só pedaços de giz. Enchem as paredes e as cercas de corações desenhados. São corações todos entrelaçados uns nos outros. Corações de bovinos e suínos, que mais havia de ser. Estas crianças já são cúmplices. Quando à noite as beijam, elas reconhecem pelo cheio o que os pais tragam sangue no matadouro e querem para lá ir.»  

Herta Müller, "A Terra das Ameixas Verdes", Difel, 2009

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Teoria da Conspiração #48 (ou a Purgação da Mora Incerta)



«- Recebe muito por este trabalho? - perguntou Jaimemorto.
 - Fornecem-me a barca - disse o homem - e pagam-me em vergonha e em oiro.
À palavra "vergonha", Jaimemorto instintivamente recuou e isso chateou-o.
 - Tenho uma casa - disse o homem que, reparando no gesto de Jaimemorto, sorria. - Dão-me de comer. Dão-me oiro. Muito oiro. Mas não tenho o direito de o gastar.  Ninguém me quer vender nada. Tenho uma casa e muito oiro, mas sou obrigado a digerir a vergonha da aldeia inteira. Pagam-me para  eu ter remorsos, em vez deles. De tudo o que de mal ou ímpio fazem. De todos os seus vícios. Dos seus crimes. Da feira dos velhos. dos animais torturados. Dos aprendizes. E do lixo.
Calou-se por uns momentos.»

Boris Vian, "O Arranca Corações", Editorial Estampa, 1970

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Teoria da Conspiração #47 (ou a Imaginação Pictórica da Língua)



«Imaginemos um povo de daltónicos, o que pode bem acontecer. Não teriam os mesmos conceitos de cor que nós. Supondo que falariam, por exemplo, alemão e teriam assim as palavras alemãs para as cores, usá-las-iam diferentemente de nós e aprenderiam a usá-las também de forma diferente. Ou se tivessem uma língua estrangeira, ser-nos-ia difícil traduzir as suas palavras de cor para as nossas.»

Ludwig Wittgenstein, "Anotações sobre As Cores", Edições 70, 1988

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Teoria da Conspiração #46 (ou a Subtil Cadeia das Formas)


«A Natureza é o veículo do pensamento, num grau simples, duplo e triplo.
1. As palavras são sinais de fenómenos naturais.
2. Os fenómenos naturais específicos são símbolos de fenómenos espirituais específicos.
3. A Natureza é símbolo do espírito.» 

Ralph Waldo Emerson, "A Natureza", Sinais de Fogo, 2001

sábado, 25 de maio de 2013

Teoria da Conspiração #45 (ou o Promontório Oculto dos Razoáveis)



«As paixões humanas não se detêm senão perante uma força moral que respeitem. Se toda a autoridade desse gênero faltar, reinará a lei do mais forte e, latente ou agudo, o estado de guerra será necessariamente crónico...» 

Emile Durkheim

terça-feira, 16 de abril de 2013

Teoria da Conspiração #44 (ou a Exigência dos Enredos Contemporâneos)


«O contacto íntimo com a palavra tornara-o exigente. O lugar-comum, esse oceano navegável dos outros, era interdito. Já que não podia ser original, porque o início é ainda um mito, seria lúcido. E esta palavra que o Poder continuamente repetia no seu íntimo - o Poder tomava para Milos a face das contestação metafísica - era um mata-borrão onde sentimentos, gestos, tudo era absorvido.»

Rui Nunes, "Os Deuses da Antevéspera", Parceria A. M. Pereira LDA., 1977   

quarta-feira, 27 de março de 2013

Teoria da Conspiração #43 (ou o Absorvente Convite dos Impulsos)


«Seria contrário à natureza conservadora das pulsões se o objectivo da vida fosse um estado que nunca tivesse sido alcançado antes. Tem de ser um estado anterior inicial que o vivente deixou uma vez e ao qual aspira a regressar acima de todos os desvios da evolução. Se pudéssemos supor, como experiência sem excepção, que todo o vivente morre por motivos internos, poderíamos, então, dizer: O objectivo de toda a vida é a morte, e indo mais atrás: o inanimado foi anterior ao animado.»

Sigmund Freud, "Para Além do Princípio do Prazer", Relógio D'Água, 2009

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Teoria da Conspiração #42 (ou o K-pop Style PSY)


«O homem é tão propenso a dedicar-se ao que há de mais vulgar, o espírito e os sentidos tornam-se tão facilmente insensíveis à impressões do belo e do perfeito que uma pessoa deveria por todos os meios manter em si a capacidade de as sentir. Pois ninguém pode passar inteiramente sem um tal prazer e só a falta de hábito de desfrutar algo bom leva muitas pessoas a encontrar prazer no que é tolo e de mau gosto, desde que seja, simplesmente, novidade.»

Goethe, "Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister", Relógio D'Água, 1998

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Teoria da Conspiração #41 (ou o monólogo íntimo de cada coisa)


«O que se passa com o falar e escrever é propriamente uma coisa maluca; o verdadeiro diálogo é um mero jogo de palavras. Só é de admirar o ridículo erro: que as pessoas julguem falar em intenção das coisas. Exatamente o específico da linguagem, que ela se aflige apenas consigo mesma, ninguém sabe. Por isso ela é um mistério tão prodigioso e fecundo – de que quando alguém fala apenas por falar pronuncia exatamente as verdades mais esplêndidas, mais originais. Mas se quiser falar de algo determinado, a linguagem caprichosa o faz dizer o que há de mais ridículo e arrevesado. Daí nasce também o ódio que tem tanta gente séria contra a linguagem. Notam sua petulância, mas não notam que o desprezível tagarelar é o lado infinitamente sério da linguagem. Se apenas se pudesse tornar compreensível às pessoas que com a linguagem se dá o mesmo que com as fómulas matemáticas – Elas constituem um mundo por si – Jogam apenas consigo mesmas, nada exprimem a não ser sua prodigiosa natureza, e justamente por isso são tão expressivas – justamente por isso espelha-se nelas o estranho jogo de proporções das coisas. Somente por sua liberdade, são membros da natureza e somente em seus livres movimentos a alma cósmica se exterioriza e faz delas um delicado metro e compêndio das coisas.»

Novalis, "Pólen", Iluminuras, 2009

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Teoria da Conspiração #40 (ou o universo que está em jogo)


«Há em mim qualquer coisa de fundamental que me impede de jogar, seja no que for; não é um raciocínio, ou, pelo menos, eu não o sinto como tal; é um impulso, um instinto, uma estrutura e creio que poderíamos discutir indefinidamente sobre se essa estrutura é também uma estrutura do mundo ou se é apenas uma estrutura minha, particular; é, por exemplo, particular, no sentido de que você a não tem, ou ainda a não tem: você é ainda uma solução, não sei em que sistema cristalizará. Mas pode não ser uma estrutura particular minha no sentido de que adiro por aí às raízes do mundo; quer dizer: penso sempre, porque o mundo pensa, não jogo porque na essência do universo não há jogos. Mas então porque joga você? O não haver jogo essencial no universo não quer dizer que não haja jogos aparentes; estamos aqui como em física nas leis estatísticas, ou como nas simetrias dos cristais, apenas aparente, porque o átomo, base fundamental, é, por ser um fenómeno, assimétrico.»

Agostinho da Silva, "Textos e Ensaios Filosóficos I", Âncora Editora, 1999

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Teoria da Conspiração #39 (ou a reconstrução da natureza ontológica)


«Quanto mais a minha casa for a minha casa, mais poderei abrir a porta aos vizinhos, ou, só o que sabe e tem garantia do saber, se abre sem temor do saber do outro, porque não corre o risco de sufocar, porque está prevenido contra as hipóteses do pior colonialismo, o colonialismo mental.
O que ambiciona ser ele próprio, e não outro, terá a todo o momento de confluir no impróprio (ou não próprio) e a todo o momento desse impróprio efluir. A total individualidade do ser continuará insularizada, mesmo que participe na mais pura socialidade, enquanto a individualidade pensante for a que a si mesma se pensa, e aos outros em si, jamais renunciando ao princípio de autenticidade: ser existencialmente o retrato de ser mentalmente, na parte de ser que couber a cada um.»

Pinharanda Gomes, "Pensamento e Movimento", Lello & Irmão, 1974

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Teoria da Conspiração #38 (ou as Confissões à boca cheia)


«Bem vê, senhor, é melhor não contrariar as minhas ideias. Não o tolero. Aceito as suas, unicamente para lhe ser agradável. Guarde-as, rumine-as, digira-as e expulse-as se não lhe agradarem. De uma maneira geral, os homens julgam, desde há dois séculos e mesmo mais, que são os melhores do mundo. O non plus ultra. O.K. É lá com eles. Quanto a mim, estou convencido do contrário, pois somos todos filhos do animal pelo simples facto de sermos homens. Há muito tempo que o homem provou a sua domesticação da natureza à força de irritabilidade, de ingratidão, de instintos assassinos e de golpes, de golpes de cacete, de pedras, de fogo, de machetes e também de crimes impunes e da escravização dos outros. Qualquer homem, pelo simples facto de o ser, é filho da puta. Que os outros não pensem da mesma maneira, nem sequer o discuto. Para mim, o maior dos imbecis - por mais suiço que seja - é Jean Jacques Rousseau. Com as ideias que tenho qual é a admiração por eu ser um gajo porreiro? Que tenham morto o Senhor Jesus, em contrapartida, não é de admirar: não devia um tostão a ninguém.» 

Max Aub, "Crimes eXemplares", Antígona, 2001

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Teoria da Conspiração #37 (ou a Toccata and Fugue em si menor)


«Meia vida dos homens consiste em provas de fuga de si mesmos.
"Gostava de ser aquilo que não sou" é a nossa ideia secreta, mas fixa. Transmutação dos metais e transmutação dos valores são quimeras dos alquimistas e sofistas, porém a transmutação dos destinos é a vontade de todos. Fugir de nós mesmos, tornar-nos outros, evadir-nos.
Ninguém se trocaria por um dos seus semelhantes, mas todos se trocariam pelo seu sonho. Porque o homem quer conquistar, mas sem deixar de se possuir. Deseja a continuidade do seu eu e, juntamente a sua metamorfose - pretensão contraditória que constitui um dos episódios do eterno automatismo.
O homem ama-se e desama-se. Diante dos outros, mostra-se quase sempre satisfeito consigo - com medo de ser ultrapassado ou emulado -, mas quando está só com o seu eu, experimenta um tédio, uma repulsa, uma repugnância, que em regra se transformam em desejo de transformação. Nem todos são capazes de se contemplar sem adulação até às últimas raízes e reconhecer, ainda que no sigilo da alma, a sua miséria, mas quase todos têm a sua sensação e, com frequência, a certeza - o tédio de si pode notar-se mesmo sem as formas de juízo. E os outros instintos - soberba, gula do mais e do novo - ajudam a desejar a mudança. Existe com frequência em nós o narcisismo, mas o espelho é sempre colocado no passado e no futuro - no presente, nunca.»


Giovanni Papini, "Relatório Sobre os Homens", Livros do Brasil, 1986

domingo, 15 de julho de 2012

Teoria da Conspiração #36 (ou a construção do leitor sustentável)



«Já muitas vezes se tem falado dos abusos da Biblioteca. Devem-se, em parte, à insuficiência do pessoal e em parte, também, a velhas tradições que se vão perpetuando. De tudo quanto se disse, o mais verdadeiro é que grande parte do tempo e da canseira dos distintos eruditos que ali desempenham as pouco lucrativas funções de bibliotecários é gasta a dar aos seiscentos leitores quotidianos os livros vulgares que se podem encontrar em qualquer sala de leitura; - o que é tão prejudicial para estas, como para os editores e autores para quem, a partir desse momento, se torna inútil comprar ou alugar livros.
Também foi dito, e com razão, que um estabelecimento único no mundo, como este é, não deveria ser uma lareira pública, uma sala de asilo, - cujos hóspedes são, na sua maior parte, perigosos para a existência e a conservação dos livros. Toda essa serie de ociosos, burgueses reformados, de viúvos, de solicitadores sem cartório, de alunos que vêm copiar as suas versões, de velhos maníacos - como era o caso daquele pobre Carnaval que aparecia todos os dias com um fato vermelho, azul claro ou verde-alface, e um chapéu florido, - merece sem dúvida, consideração; mas não haverá outras bibliotecas, e mesmo bibliotecas especiais, que lhes sejam facultadas?...»
      
Gérard de Nerval, "As Filhas do Fogo", Editorial Estampa, 1972

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Teoria da Conspiração #35 (ou a ladeira do nosso contentamento)



«No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhosas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de acções sem elo em que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.»


Albert Camus, "O Mito de Sísifo", Livros do Brasil, 2005 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Teoria da Conspiração #34 (ou o desdobrado é antes do mais um dividido)


«Pouco ou muito, de tempos a tempos toda a pessoa sente um desejo de abandonar o seu “eu” (esse conjunto aproximativo), tentada por um outro “eu”. Máscaras, cerimónias e festas e jogos respondem a essa tentação sem a realizarem, detendo-se antes, realizando apenas uma macacada.
Sendo o problema primordial na vida o tomar a cargo o próprio ser, a personalidade de um indivíduo é constituída, não sem andar às apalpadelas, na primeira idade porque a mais cómoda no seu meio original, e é mantida, mais ou menos igual no decurso dos anos, por facilidade, como sendo a mais conveniente.
Esta formação a longo prazo tendo ganho em profundidade já não pode ser dividida apesar dos remorsos e da inapropriação, a menos que uma necessidade seja fortemente sentida, e em casos muito raros.»


Henri Michaux, "Uma via para a insubordinação", & Etc, 2008

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Teoria da Conspiração #33 (ou a Inocência que embala o Berço)


«Perante o mundo, o indiferente não é nem ignorante nem hostil. A tua intenção não é redescobrir as sãs alegrias do analfabetismo, mas, lendo, não conceder algum privilégio às tuas leituras. A tua intenção não é andares nu, é estares vestido sem que isso implique necessariamente requinte ou desleixo; a tua intenção não é deixares-te morrer de fome, mas apenas alimentar-te. Não que queiras exactamente levar a cabo essas acções com toda a inocência, porque a inocência é um termo muito forte: somente, simplesmente, se é que esse "simplesmente" pode ter algum sentido, deixá-las num terreno neutro, evidente, desprovido de qualquer valor, e não, de forma nenhuma, funcional, porque o funcional é o pior dos valores, o mais subtil, o mais comprometedor, mas patente, factual, irredutível; que não haja mais nada a dizer senão: lês, estás vestido, comes, dormes, andas, que sejam acções, gestos, mas não provas, não moedas de troca: o teu vestuário, a tua comida, as tuas leituras deixarão de falar por ti, deixarás de te armar em esperto com eles. Não lhes confiarás a esgotante, a impossível, a mortal tarefa de te representarem.»


Georges Perec, "Um Homem que dorme", Editorial Presença, 1991

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Teoria da Conspiração #32 (ou o Acabar a Corrida a Passo)


«Ainda não era o verdadeiro Homem, com dizia Klober, o Homem que quando se aproxima se aproxima para matar, mas havia já nele algo de muito significativo: qualquer aproximação a outra existência, não sendo ainda para a eliminar, era já, e desde há muito, para não amar. Posso aproximar-me com segurança, pensava Walser, naquele momento em que recordava de novo o beijo dado a Clairie, posso aproximar-me sem medo de qualquer pessoa porque sei que não a vou amar. Já estou preparado para não amar ninguém - e esta frase dita assim, para si próprio, era sentida como a sua grande arma em tempo de guerra, a grande defesa em relação à agressividade do século. Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade! E nesse momento, a caminhar em plena rua, desarmado, observando de cima os seus sapatos castanhos, velhos, sapatos irresponsáveis como troçava Klober, nesse momento Walser sentia-se tão seguro - e, ao mesmo tempo ameaçador - como se avançasse dentro de um tanque pela rua.»


Gonçalo M. Tavares, "A Máquina de Joseph Walser", Caminho, 2004

sábado, 31 de março de 2012

Teoria da Conspiração #31 (ou Como num Sono Acordado)



«O acordar privilegiado não tem que suceder forçosamente quando se dorme. Dado que sono e vigília não são duas partes da vida, que ela, a vida, não tem partes, mas lugares e rostos. E assim, do sono e de certos estados de vigília, pode-se acordar deste privilegiado modo que é o acordar sem imagem.
Acordar sem imagem sobretudo de si próprio, sem imagens algumas da realidade, é o privilégio deste instante que pode passar de maneira inapreensível, deixando, sem dúvida, a pegada; uma pegada inextinguível, mas que não se sabe decifrar, pois não houve conhecimento. E nem sequer um simples registo desse ter acordado para este nosso aqui, para este espaço-tempo onde a imagem nos assalta. O ter respirado somente numa solidão privilegiada nas margens da fonte da vida. Um instante de experiência preciosa da preexistência do amor: do amor que nos diz respeito e nos olha, que olha para nós.» 


Maria Zambrano, "Clareiras do Bosque", Relógio D'Água, 1995