Mostrar mensagens com a etiqueta a perfeição é uma dada forma de imperfeição. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a perfeição é uma dada forma de imperfeição. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de março de 2014

a perfeição é uma dada forma de imperfeição #9



«Muitas vezes, aceito o melhor quarto e durmo sob um dossel, outras durmo num palheiro. As pulgas não me incomodam e também não me queixo das sedas. Sou muito tolerante. Nada tenho de moralista. Sou demasiado consciente da  brevidade da vida e da sua complexidade, para me dedicar a traçar linhas de demarcação a tinta vermelha.» 

Virginia Woolf, "As Ondas", Relógio D’Água, 1988

quarta-feira, 5 de março de 2014

a perfeição é uma dada forma de imperfeição #8



«Enquanto assim estiveram davam-se todos à oração o mais do tempo, e a práticas espirituais. Faziam-se promessas de diferentes votos, quais neste conflitos da morte se soem fazer; pediam uns aos outros perdão, amigando-se todos os que estavam em ódio, e diferenças, que ainda em tão triste jornada não se falavam, porque tal é a fraqueza humana, que ainda à vista da morte não perde ponto em matéria de honra.»

Bernardo Gomes De Brito, "História Trágico-Marítima", Círculo De Leitores, 1994 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

a perfeição é uma dada forma de imperfeição #7


«Era uma vez três seres sob o signo do humano, de uma pureza dissoluta.
Não absoluta, porque o absoluto é vão.»
(M. G. Llansol, Caderno 1.15, 332 | 20.3.1984)


«Naturalmente, como a consciência estética apenas tem consciência de uma parte do que faz, o esforço para atingir a absoluta necessidade e, por essa via, a vanidade absoluta é, ele próprio, sempre vão.»
(Maurice Blanchot, Faux pas, 1943)

sábado, 18 de janeiro de 2014

a perfeição é uma dada forma de imperfeição #6



«Das pessoas elegantes espera-se que, na sua vida privada, estejam isentas da ânsia de benefícios que, pela sua posição, a elas afluem de um ou de outro modo, e do estólido enervamento nas circunstâncias mais imediatas, que a sua limitação cria. Delas se espera o gosto aventureiro pelas ideias, a soberania relativamente à situação dos interesses particulares, o refinamento das formas de reagir, e supõe-se que a sua sensibilidade é contrária, pelo menos em espírito, à brutalidade de que o seu próprio privilégio depende, ao passo que as vítimas dificilmente contam com a possibilidade de saber o que é que as converte em tais.»

Theodor W. Adorno, "Minima Moralia", Edições 70, 2001

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

a perfeição é uma dada forma de imperfeição #5


«O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
                                Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
                         Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisiveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente.. contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.»

T. S. Eliot, "Quatro Quartetos", Relógio D'Água, 2004

domingo, 29 de setembro de 2013