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domingo, 22 de setembro de 2013
K, o elemento estranho da tabela literária #8
«O meu avô costumava dizer: "A vida é espantosamente curta. Olhando para trás, a vida parece-me tão escorçada que não consigo perceber como um jovem pode decidir cavalgar até à aldeia mais próxima sem ter medo - já para não falar dos acidentes - de que mesmo a duração de uma vida normal e feliz seja demasiado curta em relação ao tempo necessário a tal viagem."»
Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004
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quarta-feira, 3 de julho de 2013
K, o elemento estranho da tabela literária #7
1913
14 de Agosto.O coito considerado como castigo da felicidade de viver em conjunto. Viver no maior ascetismo possível, mais asceticamente que um celibatário, é para mim a única possibilidade de suportar o casamento. Mas ela?
E apesar de tudo, mesmo se tivéssemos, F. e eu, direitos absolutamente iguais, esperanças e possibilidades idênticas, não me casaria. Contudo, este beco sem saída para o qual empurrei lentamente o seu destino torna-me o casamento uma obrigação que decerto inelutável, mas sem limites. É esse o efeito de não sei que lei secreta das relações humanas.
Franz Kafka, "Antologia de Páginas Íntimas", Guimarães Editores, 1997
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quarta-feira, 20 de março de 2013
K, o elemento estranho da tabela literária #6
«Não sou pontual, porque não sinto os sofrimentos da espera. Espero que nem um boi. Porque se eu sinto uma finalidade na minha existência actual, mesmo que seja muito incerta, sinto-me na minha fraqueza tão vaidoso que era capaz de aguentar tudo só para ter esta finalidade à minha frente. Mesmo se estivesse apaixonado, o que então não faria! Quanto tempo não esperei, há nos, debaixo das arcadas do Ring até M. passar, mesmo para a ver andar com o namorado. Tenho chegado atrasado a encontros em parte por descuido, em parte pela minha ignorância dos sofrimentos da espera, mas também em parte para obter novas e complicadas finalidades através de uma busca renovada e incerta da pessoa com quem tinha combinado o encontro, e assim conseguir a possibilidade de uma espera incerta e longa. Pelo facto de eu em criança ter um medo terrível de esperar por alguém, poderia concluir-se que estava destinado a qualquer coisa melhor e que previa o meu futuro.»
Franz Kafka, "Diários", Difel, 2001
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
K, o elemento estranho da tabela literária #5
«"Não sei", gritei eu sem ser ouvido por ninguém. "Não sei. Se ninguém vier, olha... Não fiz mal a ninguém, ninguém me fez mal a mim, mas também ninguém me vem ajudar. Um bando de gente nenhuma. Bem, não é verdade. Só que ninguém me vem ajudar - um bando de gente nenhuma, por outro lado, era óptimo. Adorava ir num passeio de gente nenhuma - e porque não? Num passeio às montanhas, como é obvio. Olha a gente nenhuma a acotovelar-se, com os braços levantados, os seus muitos pés caminham todos juntos! E vestidos a rigor, pois então! Lá seguimos alegremente, enquanto o vento vai soprando em volta e por entre as frestas que os nossos corpos desenham. As nossas gargantas exultam! Nem sei como não começamos a cantar!"»
Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004
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domingo, 2 de dezembro de 2012
K, o elemento estranho da tabela literária #4
«Eu era rígido e frio, eu era uma ponte, eu estava sobre uma ravina, Os meus dedos dos pés num lado, os meus dedos das mãos no outro, seguros com toda a força à terra solta. As bordas do meu casaco dançavam no vento a meu lado. Bem lá em baixo, revolteava o curso de água gelada. Nenhum turista se atrevia a vir cá acima, a ponte não vinha sequer em nenhum mapa. E assim eu ficava estendido e esperava. Uma vez lançada, nenhuma ponte, a menos que caia, deixa de ser ponte.
Certa tarde - a primeira ou a milésima, não sei - tinha as ideias em perpétua confusão e movimento... mas foi numa tarde de Verão, quando o troar da corrente se tornara mais profundo, que eu ouvi um passo humano! Na minha direcção, na minha! põe-te direita, ponte, preparem-se, vigas, para segurar o passageiro que vos foi confiado. Se os seus passos forem incertos, segurem-nos discretamente, mas se ele escorregar mostrem do que são feitos e, como um deus das montanhas, empurrem-no para terra.
Ele chegou, testou-me com a ponta de ferro do bordão e levantou-me as asas do casaco, pondo-as no sítio. Mergulhou depois a ponta do seu bordão no meu cabelo farto e deixou-se ficar por ali a olhar esgazeado em volta, por certo esquecido de mim. Foi então que - estando eu com ele em pensamentos, sobre montanhas e vales - saltou a pés juntos do meio do meu corpo. Fiquei a tremer de dor, sem perceber o que se tinha passado. Quem era ele? Uma criança? Um viajante? Um suicida? Voltei-me então para o ver. Onde é que já se viu uma ponte a voltar-se! Ainda não me tinha voltado completamente e já começava a cair, caí e, em poucos segundos, fui desfeito em pedaços pelas rochas duras que sempre me haviam olhado pacificamente, da corrente, lá em baixo.»
Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012
K, o elemento estranho da tabela literária #3
«Continuo a não compreender que todo aquele que seja capaz de escrever possa objectivar no seu sofrimento o sofrimento, a ponto de eu, por exemplo, na infelicidade, talvez ainda com a fronte a arder em infelicidade, me possa sentar e dizer a alguém por escrito: sou infeliz.»
Franza Kafka, "Diários", Difel, 2001
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sábado, 2 de junho de 2012
K, o elemento estranho da tabela literária #2
«Porque somos todos como troncos de árvore na neve. Estes, em aparência, estão apenas pousados, de tal forma que um pequeno empurrão seria suficiente para os fazer rolar. Mas não, é impossível, estão bem seguros ao solo. E até isso não passa de uma aparência.»
Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004
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quinta-feira, 14 de abril de 2011
K, o elemento estranho da tabela literária #1

Franz Kafka, "A Metamorfose", Quasi Edições, 2008
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