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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Perguntas Abandonadas #42



«Onde está pois o núcleo profundo e autónomo de que nenhum participa, que não foi gerado por nenhum outro e que se possa verdadeiramente chamar meu? Serei, na realidade um coágulo de dívidas, a molécula escrava de um corpo gigantesco? E a única coisa que acreditamos verdadeiramente nossa – o Eu – talvez seja como tudo o mais, um simples reflexo, uma alucinação do orgulho.»

Giovanni Papini, "Gog", Livros do Brasil, 1988

domingo, 18 de maio de 2014

Perguntas Abandonadas #41



«o atlas e o mapa-mundo, por sumptuosos que sejam, não deixam escapar lugares essenciais, constelações de pontas de cuja importância não revela da geografia real e referencial, mas da geografia pessoal e afectiva? Lugares cifrados, desconhecidos de todos, refugiados na memória, que assinalam a minha presença no mundo e cuja ausência no mapa me reduz a nada.» 

Christian Jacob

domingo, 11 de maio de 2014

Perguntas Abandonadas #40



«51. Mas porque te ris do pobre D. Quixote por amar a Dulcineia, que não existia? Mas todo o homem só ama a mulher que não existe. E bom é isso. Porque se ela existisse, o amor deixava de existir. Mesmo que ele a ame, como supõe. Porque todo o amor só existe nos intervalos da pessoa amada existir. Fora desses intervalos não existe. Porque só existe essa pessoa real. Como a nossa casa só existe talvez quando estamos fora dela. Ou qualquer coisa assim.»

Vergílio Ferreira, "Pensar"‎, Bertrand Editora, 1992 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Perguntas Abandonadas #39



Como lidar com algo que existe, mas que eu não reconheço?
E tu reconheces aquilo que És ou simplesmente existes? Reconheces a sociedade do espectáculo na qual estás inserido, ou simplesmente segues o padrão, com medo de ficares alienado e à margem? És ou Tens? Trabalhas a alma ou concentras a tua atenção em melhorares o papel que assumes no dia-a-dia?

Oliver Sacks, “O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu”, Relógio D'Água, 1990

terça-feira, 25 de março de 2014

Perguntas Abandonadas #38



 «- Tem-se a impressão de que cada vez que é levado a tomar uma posição, você retira-lhe a importância pela ironia ou pelo sarcasmo.
 - Sempre. Porque não acredito nela.
 - Mas em que acredita?
 - Em nada! A palavra "crença" é um erro também. É como a palavra "julgamento". São dados terríveis sobre os quais o mundo está baseado. Espero que, na Lua, não seja assim?
 - Todavia acredita em si?
 - Não.
 - Nem isso?
 - Não acredito na palavra "ser". O conceito ser é uma invenção humana.
 - Ama assim tanto as palavras?
 - Ah! Sim, as palavras poéticas.
 - Ser, é muito poético.
 - Não, nem por isso. É um conceito essencial que, na realidade, não existe, no qual não creio, mas muita gente crê ferrenhamente. Não se pode ter a ideia de não acreditar nas palavras "eu sou", não é?
 - Qual é a palavra mais poética?»  

Marcel Duchamp, “O Engenheiro do Tempo Perdido”, Assírio & Alvim, 2010

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Perguntas Abandonadas #37


«JULIETA
Dizei-me: como vieste até aqui e para quê? Os muro do jardim são altos e difíceis de escalar; e este lugar será a morte se algum dos meus parentes te descobre aqui.

ROMEU
Transpus este muros com as leves asas dos amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar; e o que o amor tem possibilidade de fazer ousa logo tentá-lo! Por isso mesmo, não são os teus parentes que me servirão de obstáculo.

JULIETA
Se eles te vêem, matar-te-ão.

ROMEU
Ai! Há mais perigos nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei couraçado contra a sua inimizade.

JULEITA
Por nada deste mundo eu quereria que te vissem aqui.

ROMEU
O manto da noite oculta-me aos olhos deles. Mas se tu me não amas, que importa que me encontrem? Seria melhor que o ódio deles pusesse fim à minha vida do que a morte tardasse faltando-me o teu amor.

JULIETA
Quem te ensinou este caminho?»

William Shakespeare, “Romeu e Julieta”, Publicações Europa-América, 2003  

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Perguntas Abandonadas #36



«Que outra realidade pode esperar-me
___ se não for a realidade
que eu já conheço, elevada
ao fulgor do desconhecido?» 

Maria Gabriela Llansol, Caderno 1.50, 23 de Abril 1998

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Perguntas Abandonadas #35


«Para onde irão depois as coisas que aprendi?
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feito daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?» 

Abgar Renault, "Obra Poética", Editora Record, 1990

domingo, 3 de novembro de 2013

Perguntas Abandonadas #34


«Pai, pai, aonde é que vais?
Oh!, não andes tão depressa.
Diz, diz, pai diz-me onde vais
Ou vou perder-me não tarda.»


William Blake, “Cantigas da Inocência e da Experiência”, Antígona, 2007

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Perguntas Abandonadas #33


«Vivo num constante estado de mutação, embora, lá no fundo de mim, eu seja uma "menina que se recusa a morrer".
Nós, que estamos vivos, neste momento, somos apenas uma parte infinitesimal de algo que existe há uma eternidade e continuará a existir, quando não houver mais nada servindo como prova da existência da Terra.
Entretanto, precisamos sentir e acreditar que somos tudo.
Esta é nossa responsabilidade – não apenas para connosco mesmos, mas para com tudo e todos com quem partilhamos nosso tempo de existência.
O que é mutação?
Algo que acontece dentro de mim? Ou algo que experimento em outras pessoas?
Talvez seja um impulso consciente ainda mais forte e, sendo assim, para onde conduz?
Para que estou me estou a esforçar?
Para me tornar o melhor ser humano possível? Ou a melhor artista? 
O que realmente desejo fazer com aquilo que alcancei?
O que farei com a mutação?
Talvez não seja tão importante saber. 
Talvez não seja tão importante chegar.» 

Liv Ullmann, "Mutações", Nova Nórdica, 1984

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Perguntas Abandonadas #32


«- Sabes o que acontece quando magoamos as pessoas? - disse Ammu. - Quando magoamos as pessoas, elas passam a gostar menos de nós. É isso que as palavras descuidadas fazem. Fazem as pessoas gostarem um pouco menos de nós.»

Arundhati Roy, "O Deus das Pequenas Coisas", Edições Asa, 1999

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Perguntas Abandonadas #31


«Estava aqui sentado e sabes o que cogitava para comigo? Se não tiver fé na vida, se perder a confiança na minha mulher amada, se perder a fé na ordem das coisas e se, pelo contrário, me convencer de que tudo é um caos desordenado, maldito e, talvez, diabólico, se me atingirem todos os horrores da desilusão humana, desejarei na mesma viver, e já que levei à boca esta taça, não a largarei até que beba a última gota! Aliás, aos trinta anos sou capaz de largar a taça, mesmo que não a tenha bebido até ao fim, e de me afastar... não sei para onde. Mas, até aos trinta, sei muito bem que a minha juventude vencerá tudo, vencerá qualquer desilusão, qualquer repugnancia pela vida. Tenho perguntado a mim mesmo muitas vezes: haverá no mundo um desespero que possa vencer em mim esta sede de vida, frenética e, talvez, indecente? Cheguei à conclusão de que, pelos vistos, não existe, pelo menos até aos tais trinta anos; e, ao chegar lá, repito, talvez já não anseie por nada, assim me parece.»

 Fiódor Dostoievski, "Os Irmãos Karamázov", Editorial Presença, 2002

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Perguntas Abandonadas #30





















Porque, se a vida é breve tantas cousas buscamos? Para 
quê terras alheias
Por outros sóis cadentes? Quem da pátria
Sai a si mesmo escapa?

Horácio - Odes, II, 16.
(trad. de Jorge de Sena) 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Perguntas Abandonadas #29


«- E as palavras, têm vida?
- Palavras para eles têm carne aflição pentelhos – e a cor do êxtase.»

Manoel de Barros, “O Guardador de Águas”, Ed. Civilização Brasileira, 1989

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Perguntas Abandonadas #28


«Então, dizem eles, o destino é eficaz até ao baptismo; depois já não dizem os astrólogos a verdade. Não só o banho nos liberta, mas também a gnose: Quem éramos? Em que é que nos convertemos? Para onde fomos atirados? Para onde nos apressamos? Do que é que estamos libertados? O que é o nascimento? O que é o renascimento?»

Tito Flávio Clemente (150-215)

sexta-feira, 15 de março de 2013

Perguntas Abandonadas #27


«Que é do mar se os rios se recusam?»

Stig Dagerman (1923–1954) 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Perguntas Abandonadas #26


«Queres, meu irmão, ir para a solidão? Queres procurar o caminho que leva a ti mesmo? Espera ainda um pouco e ouve.
"Aquele que procura, facilmente se transvia. Toda a solidão é um pecado" - assim fala a multidão, o rebanho; e tu pertenceste ao rebanho durante muito tempo.
Ainda durante muito tempo a voz do rebanho há-de falar no fundo de ti. E quando disseres: "Eu já tenho uma consciência como a vossa", isso será para ti uma queixa e uma dor.
Porque foi ainda esta consciência comum que produziu esta dor: a última centelha dessa consciência lança ainda um reflexo sobre a tristeza.
Mas queres seguir o caminho da tristeza, o caminho para ti mesmo? Então mostra-me se tens esse direito e essa força.
Acaso és força nova e direito novo? Primeiro movimento? Roda que gira por si mesma? Podes obrigar as estrelas a gravitar à tua volta?
Ai! vemos tantas ambições pelas alturas! Tantas contorções de ambiciosos! Mostra-me que não és um gozador nem um ambicioso.
Ai! Existem tantos pensamentos grandes que apenas fazem o mesmo que um fole: inchando aumentam o vazio.
Declaras-te livre? O que quero conhecer é o teu pensamento fundamental; não quero saber qual é o jugo que sacudiste.
Pertencerás tu aos que têm o direito de se subtrair ao jugo? Há quem perca o seu último valor no dia em que se liberta da sua sujeição.»

Friedrich Nietszche, "Assim Falava Zaratustra", Guimarães Editores, 1964

sábado, 15 de dezembro de 2012

Perguntas Abandonadas #25


Que posso conhecer? Que devo fazer? Que me cabe esperar? Que é o homem? 

Immanuel Kant (1724-1804)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

domingo, 21 de outubro de 2012

Perguntas Abandonadas #23


Mas o que dizer da epilepsia? Uma condenação baseada no exame fetal teria privado a humanidade de um Dostoievsky.

Hans Jonas (1903-1993)