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sábado, 12 de julho de 2014
Imediatamente embora pouco a pouco #42
«Por quanto mais tempo poderei ser um muro contra o vento?
Por quanto mais tempo
Poderei suavemente obscurecer o sol com a palma da minha mão?
Interceptar as setas azuis da lua fria?
As vozes da solidão, as vozes da amargura
Agarram-se às minhas costas infatigavelmente.
Como poderá acalmá-las esta canção de embalar?
Por quanto mais tempo poderei ser um muro em redor da minha terra verde
Por quanto mais tempo poderão as minhas mãos
Proteger esta ferida, e as minhas palavras
Pássaros luminosos no céu, consolando, consolando?
É tremendo
Ser exposta: como se o meu coração
Pusesse uma máscara e penetrasse no mundo.»
Sylvia Plath, “Três Mulheres - Poema a Três Vozes”, Relógio D’Água, 2004
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segunda-feira, 16 de junho de 2014
Imediatamente embora pouco a pouco #41
«Aprendo a ver. Não sei por que motivo, tudo penetra em mim mais profundamente e não se imobiliza no ponto em que se costumava extinguir. Tenho uma interioridade que desconhecia. Tudo agora para aí se encaminha. Não sei o que aí se passa.
Quando hoje estava a escrever uma carta apercebi-me de que estou aqui apenas há três semanas. Três semanas em qualquer outro lugar, no campo, por exemplo, seriam como um só dia, aqui são anos. Também já não quero voltar a escrever cartas. Para que hei-de dizer a alguém que me estou a transformar? Se me estou a transformar, já não sou aquele que fui, e sou diferente do que era até aqui, por isso é óbvio que não conheço ninguém. E é impossível escrever a pessoas desconhecidas, a pessoas que não me conhecem.»
Rainer Maria Rilke, "As Anotações de Malte Laurids Brigge", Relógio D'Água, 2003
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quarta-feira, 14 de maio de 2014
Imediatamente embora pouco a pouco #40
«A vida em si, cada momento da vida, cada gota sua, aqui, neste instante, agora, ao Sol, era suficiente. Demasiado, até.»
Virgínia Woolf, "Mrs. Dalloway", Livros do Brasil, 1954
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sexta-feira, 2 de maio de 2014
Imediatamente embora pouco a pouco #39
«deve estar na longa lista mas não de verbos, pois não indicará ação, não estará no ato, mas em substantivos concretos, enumerados devagar, sílaba a sílaba, coisa dormida esperando reconhecimento, deve estar lá antes de nós, não poderia se alguma coisa que tenha acontecido por nossa causa ou que fosse inaugurada por nós»
Nuno Ramos, "Ó", Cotovia, 2010
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Imediatamente embora pouco a pouco #38
«É verdade que uma censura feita na hora certa pode, sob a sua influência, assustar uma consciência particularmente receptiva, provocando um arrependimento que suscita momentaneamente a boa resolução de frequentar o templo zelosamente. Mas com a passagem do tempo ei-nos de novo os pecadores de outrora. Assim, o arrependimento impele-nos a fazer a penitência, enquanto o aborrecimento da penitência nos arrasta para o pecado. É essa a sorte deplorável daqueles que, descontentes com os seus actos, mesmo se com isso não fazem mais do que obedecer ao espírito da época, não conseguem todavia emendar-se. Não têm força para nadarem contra a corrente, tal não têm a coragem nem a liberdade de espírito para se deixarem levar, de consciência tranquila, ao sabor das ondas do tempo.»
Max Stirner, “Textos Dispersos”, Vega, 2003
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Imediatamente embora pouco a pouco #37
«No momento em que se pode fazer cinema, já não se pode fazer o cinema que nos deu vontade de o fazer»
Jean-Luc Godard, "Nouvelle Vague", Cinemateca Portuguesa, 1999
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #36
«Poderá alguém não saber nenhum segredo da vida, e viver?
- Tu podes morrer a qualquer momento - diria eu ao homem que olha sempre para o nariz ao encarar os outros, ou a esse que enfia os olhos nas unhas quando se sente só.
Quem não saiba nenhum segredo da vida, não tem amparo. Cai, mal o empurre um vento um pouco forte, varrendo-o o mar pelo convés.
Quando encontro quem nem sequer conhece um segredinho da vida, desespero-o, e depois fico a saber que a febre o foi comendo como um leão. Foi todo ele, seguramente, pastos de chamas.
Não saber, por exemplo, que devemos ver tudo quanto temos em redor, os talheres e os pratos, ao comermos; não saber o que cada qual deve colher dentre o que colhe, e a isso deve dedicar-se com afã durante o dia; desprezar tudo, pensar apenas na ambição, gastar o tempo olhando os fios de fumo etc. são coisas sumamente perigosas e desleais. Tudo isso e o resto que for da mesma laia tornam o homem perigoso.
É preciso estarmos no segredo de que há realidade debaixo dos divãs, de que tem personalidade o homem guiando o carro que se some entre os mais carros; de que as roupas estão ao serviço da nossa realidade, e que sem a sua realidade rapidamente nós desapareceríamos. Até ao relógio devemos estar agradecidos.
Pode andar sossegado todo aquele que possua muitos simples segredos da vida, porque à sua volta muita gente há-de morrer antes de a vez lhe tocar a ele.»
Ramon Gómez de la Serna, "O Médico Inverosímil", Antígona, 1998
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sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #35
«Ficaram a entreolhar-se, como se cada um quisesse sorver com os olhos e guardar para sempre a imagem do outro. Havia coisas que ele precisava de lhe dizer antes de se despedirem, mas não podia dizê-las naquele lugar de recordações luminosas, de modo que deu meia volta, seguindo-a em silêncio até ao trenó.»
Edith Wharton, "Ethan Frome", Relógio d'Água, 1994
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #34
«Na maioria dos casos, a condição primordial da felicidade não consiste, decerto, em resolver as contradições, mas sim em fazê-las desaparecer, da mesma forma que se fecham os espaços nas longas avenidas. Assim como as relações visíveis se deslocam perante os nossos olhos, de maneira a formar-se uma imagem aparente em que as coisas mais próximas, iminentes, parecem grandes, mas em que, mais longe, até as coisas enormes se afiguram pequenas e o todo, enfim, se arredonda e aperfeiçoa completamente, assim também as relações invisíveis se deslocam mercê da inteligência e do sentimento, de modo a formarem inconscientemente qualquer coisa no interior da qual nos sentimos à vontade.»
Robert Musil, “O Homem Sem Qualidades - Vol. II”, Livros do Brasil, 1985
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quinta-feira, 13 de junho de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #33
«A curiosidade dos homens investiga o passado
E o futuro e agarra-se a essa dimensão. Mas apreender
O ponto de intersecção do intemporal
Com o tempo, é ocupação de santo -
Nem é tarefa, mas antes algo dado
E recebido, na morte em amor de uma vida inteira,
Arrebatamento, humidade e entrega de si.
Para a maioria de nós há apenas o negligenciado,
Momento, o momento dentro e fora do tempo,
O assomo de descuido, perdidos num feixe de luz de Sol,
O tomilho bravo que não se vê, ou o relâmpago de Inverno
Ou a queda-d'água, ou a música ouvida tão profundamente
Que não é de todo ouvida, mas tu és a música
Enquanto a música perdura. Isto são apenas indícios e suspeitas,
Indícios seguidos de suspeitas; e o resto
É prece, observância, disciplina, pensamento e acto.
O pressentimento meio suspeito, a dádiva meio entendida,
é a Encarnação.»
T. S. Eliot, "Quatro Quartetos", Relógio D`Água, 2004
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terça-feira, 28 de maio de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #32
«- Bartleby - disse eu entrando no escritório de rosto calmo mas severo. - Estou seriamente desgostoso. Estou penalizado, Bartleby. Pensava melhor coisa de si. Imaginava-o com modos de cavalheiro, e que em qualquer dilema delicado lhe bastaria uma leve sugestão - em resumo, uma assumpção. Mas parece-me que estou enganado. Por que motivo - acrescentei, sobressaltando-me ao de leve - nem sequer tocou ainda naquele dinheiro - e apontava para onde este estava, exactamente onde eu o deixara na tarde anterior.
Nada respondeu.
- Vai ou não deixar-me? - perguntei-lhe então num acesso de súbita fúria, avançando para ele.
- Preferiria de não o deixar - retorquiu, acentuando delicadamente o não.»
Herman Melville, "Bartleby", Assírio & Alvim, 1988
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domingo, 12 de maio de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #31
Wolfram von Eschenbach, "Parsival", Vega, 2010
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segunda-feira, 1 de abril de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #30
«Há mil maneiras de matar o tempo e todas são diferentes, mas todas se equivalem, mil maneiras de não esperar nada, mil jogos que podes inventar e abandonar imediatamente.
Tens tudo a aprender, tudo o que não se aprende: a solidão, a indiferença, a paciência, o silêncio. Tens de te desabituar a tudo: de ir ao encontro daqueles com quem durante tanto tempo te cruzaste, de tomar as tuas refeições, os teus cafés no lugar que todos os dias outros reservaram para ti, que por vezes defenderam para ti, de andar por aí na cumplicidade insípida das amizades que vão sobrevivendo, no rancor oportunista e cobarde das ligações que se vão desfazendo.»
Georges Perec, "Um Homem que dorme", Editorial Presença, 1991
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domingo, 24 de março de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #29
«Em mim é muito forte a disposição para não me sentir no meu lugar. Sempre foi para mim uma experiência especialmente agradável o não estar onde estivesse. Quando viajo, logo o gosto antecipado de partir daqui me faz feliz. Isto é, evidentemente, um trauma infantil pela falta de desejo de vir ao mundo. O mundo no qual nasci e a figura com a qual vim ao mundo deixam-me profundamente insatisfeito. Não gosto do meu aspecto e não me identifico com ele. Ainda me lembro que, quando vi pela primeira vez a minha imagem ao espelho, gemi literalmente de dor: não podia conceber que eu era esse. Esse é o desejo de sair do meu corpo, das minhas coisas, da minha casa...
Não me sinto em casa em lado nenhum, sinto-me sempre em estado de trânsito. De um homem assim costumava dizer-se: ele não está bem em nenhum lado.»
Ilya Kabakov em conversa com Boris Groys
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #28
«Há uma palavra, uma única, da qual não se sabe ao certo se alguma vez atravessou a barreira que separa o silêncio do som. Já que, por muito longa e irreprimivelmente que se tenha falado, a barreira entre o silêncio e o som não deixou nunca de existir, eriçando-se até levar aquele que fala à beira do paroxismo. A incontinência da fala há-de ter nesse intransponível obstáculo a sua origem. E o transbordamento do falar adquire então um caráter de fenômeno cósmico: catarata, erupção vulcânica. E a palavra em que em si mesma é unidade, conjunção milagrosa da “fysis”, do sentido que abrange e reúne os sentidos, sopro vivificante, fogo impalpável e luz da inteligência, cai desastrosa, mais infeliz que a pedra que acabará de rolar alguma vez, ao encontrar o mínimo albergue para o seu peso.
A palavra escondida, oculta sozinha no silêncio, pode surgir sustendo sem o dar a entender um longo discurso, um poema e mesmo um texto filosófico, anonimamente, orientando o sentido, transformando o encadeamento lógico em cadência; abrindo espaços de silêncios que não podem encher-se, reveladores. Já que o que há de revelador numa fala provém dessa palavra intacta que não se anuncia, nem se enuncia a si mesma, invisível à maneira de um cristal, por tanta nitidez e inexistência. Engendradora de musicalidade e de abismos de silêncio, a palavra que não é conceito porque é ela que faz conceber, a fonte do conceber que está propriamente para lá daquilo a que se chama pensar. Pois ela, esta palavra é pensamento que se sustém a si mesmo, reflexo enfim no simplesmente humano da língua de fogo que abriu àqueles sobre quem se pousou o sentido e conhecimento das línguas todas. Não se dá a ver. Abre os olhos da inteligência para que veja ou vislumbre alguma coisa. E não se apresenta a si mesma porque, se o fizesse, acabaria com a relatividade da linguagem e com o seu tempo. E talvez seja ela a que um dia chegará.»
Maria Zambrano, "Clareiras do Bosque", Relógio D`Água, 1995
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #27
«Teremos dias nos quais pertenceremos uma à outra; mas, gradualmente, a minha consciência vai começar a limitar-me - as cartas não respondidas, as coisas por fazer. E, aos poucos, vou tornar-me outra vez profissional, estarei no palco ou diante de uma câmara, ou em reuniões, e pensarei nela, lá em casa, a quem eu pareço sempre faltar, porque não consigo encontrar nenhuma solução para combinar a sua infância com a minha vida de mulher adulta.
Como as outras pessoas conseguem, nos livros, e eu acho que outras mulheres acabam por conseguir, em suas casas.»
Liv Ullmann, "Mutações", Nova Nórdica, 1984
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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Imediatamente embora pouco a pouco #26
«Da excitação, a garganta ficara-lhe tão seca que bateu palmas e pediu outra bebida. "Meu Deus", continuou depois de humedecido o palato, "e a pensar que um homem poder armar tais ratoeiras a si próprio! Hoje muito feliz, amanhã miserável. Que idiota! Que grande idiota me saí! Bem", raciocinou com outra lucidez, "uma coisa compreendo agora - a minha felicidade era real mas sem fundamento. Preciso de a reconquistar, desta vez com toda a honestidade. E agarrar-me a ela com ambas as mãos, como se fosse um jóia. Aprender a ser feliz por mim próprio, Augusto, como palhaço que sou."»
Henry Miller, "O Sorriso aos Pés da Escada", Edições Asa, 2000
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terça-feira, 20 de novembro de 2012
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Imediatamente embora pouco a pouco #24
«Renovar as sensações, quer dizer, procurar a pura impressão actual, colocar a alma em face do mundo, com o possível mínimo de memória e utilitário interesse, é um dever de todo o que quer conhecer os inícios da Beleza, e até do que pretende ser leal para com a Realidade.
(...) Sim. Não é mau desmontar, de vez em quando, os nossos mecanismos de conhecer e sentir.
Quem sabe à custa de quantos inconscientes desprezos da sensibilidade eles foram construídos!»
Leonardo Coimbra, "A Alegria, a Dor e a Graça", Grupo de Investigação de Pensamento Português CFUL, 2012
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quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Imediatamente embora pouco a pouco #23
«A vida é tão cruel que um minuto antes de matar uma criança um homem feliz ainda é feliz; que um minutos antes de gritar de horror, uma mulher pode fechar os olhos e sonhar com o mar; que durante o último minuto de vida de uma criança os pais dessa criança podem estar numa cozinha à espera que o filho lhes traga açúcar, enquanto falam dos dentes brancos dele e de um passeio de barco; e a própria criança, pelo seu lado, pode fechar um portão e começar a atravessar a estrada, trazendo na mão direita alguns torrões de açúcar embrulhados em papel branco e, durante esse último minuto, só ver um longo rio cintilante, grandes peixes e um barco grande com os seus remos silenciosos.»
Stig Dagerman, "Jogos da Noite", Antígona, 1992
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