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sexta-feira, 20 de junho de 2014
espécie de oração particular #37
«Estou bem. Devo mesmo dizer-te que sou feliz. A felicidade não está no que acontece mas no que acontece em nós desse acontecer. A felicidade tem que ver com o que nos falta ou não na vida que nos calhou. Devo dizer-te que me não falta nada, quase nada.»
Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990
quinta-feira, 24 de abril de 2014
espécie de oração particular #36
«Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?»
Fernando Pessoa, "Poesias de Álvaro de Campos", Ática, 1993
segunda-feira, 24 de março de 2014
espécie de oração particular #35
«Aquele que entreabre a boca
por um instante que seja,
esse estará talvez esquecido de
que o seu corpo é todo ele feito de aves,
árvores voadoras e constelações de fogo.
E que desta maneira e pouco a pouco
se esvaziará disso,
de tudo isso.»
Yves Namur, “Figuras do muito obscuro”, Cavalo de Ferro, 2005
domingo, 9 de fevereiro de 2014
espécie de oração particular #34
"O fim da minha respiração é começo da tua."
"Para si, se assim o deseja, não serei nada, ou apenas um sinal."
"A garra do leão rasga as entranhas da videira."
"O cor-de-rosa é melhor do que o negro, mas ambos se harmonizam."
"Frente ao mistério. Homem de pedra compreende-me."
"És o meu senhor. Não passo de um átomo que respira, ou expira, ao canto da tua boca. Quero palpar a serenidade de um dedo molhado de lágrimas."
"Porquê esta balança oscilante no negrume de um buraco cheio de bolas de carvão?"
"Não entorpecer as ideias com o peso dos sapatos."
"Sabia tudo, tanto procurei ler o meus rios de lágrimas"
André Breton, “Nadja”, Editorial Estampa, 1987
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
espécie de oração particular #33
«Mas sobreviver não é bom. Creia-me. Não se sobrevive por inteiro, e a parte de nós que sobra, estiola-se num não saber que fazer do tempo, que não flui, e da aridez da existência, que estanca. É um não saber o que fazer de si mesmo.»
Elisa Lispector, "Corpo a corpo", Edições Antares, 1983
sábado, 2 de novembro de 2013
espécie de oração particular #32
«DEUS, IRRITADO
Estou a arrepender-me de ter feito o homem na Terra. Tornou-se mais forte do que eu, e já não sei dirigir a multidão que formou, de loucos e estúpidos. Aménão, Egino, Paimão, Oriães, libertem-me deste fardo: precipitem-me aquele globo nos abismos! Que a maldição caia sobre a cabeça dos rebeldes! E na fronte do maldito planeta esperem uma forca, signo de crime, castigo e sofrimentos.»
August Strindberg, "Inferno", Assírio & Alvim, 1988
quarta-feira, 24 de julho de 2013
espécie de oração particular #31
«"Senhor, sem ti fico louco, e ainda mais louco contigo!" - Seria esse, na melhor das hipóteses, o resultado da reaproximação entre o falhado cá de baixo e o falhado lá de cima.»
E. M. Cioran, "Silogismos da Amargura", Letra Livre, 2009
domingo, 16 de junho de 2013
espécie de oração particular #30
«A busca activa é nociva, não apenas ao amor, mas também à inteligência, cujas leis imitam as do amor. É necessário esperar simplesmente que a solução de um problema de geometria, que o sentido de uma frase latina ou grega surjam no espírito. Por maioria de razão, também assim com uma nova verdade científica, com um verso belo. A busca conduz ao erro. É assim com toda a espécie de bem verdadeiro. O homem não deve fazer outra coisa senão esperar o bem e afastar o mal. No tumulto que constitui a condição humana, a virtude autêntica em todos os domínios é coisa negativa, pelo menos na aparência. Mas esta espera do bem e da verdade é algo mais intenso do que toda a busca.»
Simone Weil, "Espera de Deus", Assírio & Alvim, 2005
quarta-feira, 29 de maio de 2013
espécie de oração particular #29
Ó pudesse como os outros, criaturas destemidas, carpir o meu Destino,
Aproveitando a minha ocasião de lamentar. A pedra fica contente
Com um ódio formal e cai e cai; as plantas indignam-se
Com a sua dimensão única e duvidam apenas
Se a luz ou a escuridão declinam no pior sentido, e os exilados
Mais subtis que tenham todos os caminhos satisfazem-se
Em provar que nenhum conduz a um objectivo: porque deve o Homem aprender também
Que basta dar testemunho, porque até protestar é errado?
W.H. Auden, "O Massacre dos Inocentes", Assírio & Alvim, 1994
quarta-feira, 8 de maio de 2013
espécie de oração particular #28
«São tempos temíveis, meu Deus. Esta noite, pela primeira vez, passei-a deitada no escuro de olhos abertos e a arder, e muitas imagens de sofrimento humano desfilavam perante mim. Vou prometer-te uma coisa, Deus, só um a ninharia: não irei sobrecarregar o dia de hoje com igual número de preocupações em relação ao futuro, mas isso custa um certo exercício. Cada dia já tem a sua conta. Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares, apesar de eu não poder garantir nada com antecedência. Mas torna-se-me cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar e, ajudando-te, ajudamo-nos a nós próprios. E é esta a única coisa que podemos preservar nestes tempos e também a única que importa: uma parte de ti em nós, Deus. E talvez possamos ajudar a pôr-te a descoberto nos corações atormentados de outros. Sim, meu Deus, quanto ás circunstâncias pareces não ter lá grande influência sobre elas, “é evidente que fazem parte indissolúvel desta vida”. Também não te chamo à responsabilidade por isso; tu é que podes mais tarde chamar-nos à responsabilidade. E, quase a cada batida do coração, torna-se-me isto mais nítido: que tu não nos podes ajudar, que nós devemos ajudar-te e que a morada em nós onde tu resides tem de ser defendida até às últimas. Existem pessoas, a sério que é verdade, que no último momento põem aspiradores a salvo e garfos e colheres de prata em vez de ti, meu Deus. E há gente u quer salvar o corpinho no qual se acolhem somente mil medos e rancores. E dizem: “A mim não me lançam eles a garra.” E esquecem-se de que ninguém fica nas garras de ninguém, estiverem nos teus braços. Recomeço a ficar um bocadinho mais calma, Deus, por causas desta conversa contigo. Hei-de ter mais conversas contigo no futuro próximo e, deste modo, impedir que me fujas. Também hás-de viver tempos de maior privação em mim, meu Deus, não serás alimentado tão fortemente pela minha confiança, mas acredita que continuarei a trabalhar e a ser-te fiel e não te expulsarei do meu território.»
Etty Hillesum, "Diário 1941-1943", Assírio & Alvim, 2008
sexta-feira, 19 de abril de 2013
espécie de oração particular #27
Não quero morrer neste mundo belo,
Mas viver no coração dos homens,
E encontrar sepultura no bosque florido,
Salpicado de sol.
O jogo dos fracassos da vida como ondas
Com as suas lágrimas e sorrisos,
Unindo-se e separando-se!
Encandeando
Alegrias e tristezas do homem,
Quero construir sobre esta terra
A minha casa eterna.
Farei florescer novas flores e canções
Para que as reúnas, amanhecer e escuridão.
Colhe-as a sorrir...
E quando murcharem
Espalha-as.
Rabindranath Tagore, "Poesia", Assírio & Alvim, 2004
quarta-feira, 3 de abril de 2013
espécie de oração particular #26
«Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou;
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita,
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia;
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.»
Adélia Prado, "Bagagem", Livros Cotovia, 2002
segunda-feira, 18 de março de 2013
espécie de oração particular #25
«Homem e mulher, de vós brota a nação que há de vir, o clarão das vossas massas na árdua labuta; a ordem competitiva volta-se contra si própria, as aristocracias veem-se suplantadas; e, no meio da paralisia geral de uma sociedade enlouquecida, a vontade confederada lança-se em frente e age.»
James Joyce, "Retrato do Artista Quando Jovem", Relógio D`Água, 2012
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
espécie de oração particular #24
Nada nosso que estás no Nada
Seja Nada o teu nome
Venha a nós o Nada do Teu Reino
Seja claro o Nada da Tua Vontade
Assim na Terra como no Céu.
O Nada que nos alimenta nos dá hoje
Perdoa-nos sempre que não formos Nada
Como tentaremos perdoar a cada uma das Tuas criaturas
Não nos deixes incorrer em tentação
E livra-nos de não sermos o Teu Nada.
José Tolentino Mendonça, "Estado do Bosque", Assírio & Alvim, 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
espécie de oração particular #23
«Deixem-me! Deixem-me! Deixem-me só e livre com isto, deixem-me viver para isto! Deixem-me fechado a sete chaves com o sonho que me enche de ridículo, que não existe e é a razão da minha vida. Deixem-me ir para a cova agarrado a este nada imenso que me doirou as mãos e me deixou atónito. Só no fundo da cova é que estou bem, sós a sós, fechado com ele para sempre.»
Raul Brandão, "Húmus", Campo das Letras, 2000
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
espécie de oração particular #22

«Que quero, pois? – Inspirar-te o desejo de soltares amarras, de fugir do porto, de te aventurares – se pertences à espécie dos que vieram ao mundo para singrar no oceano da procura livre, entre as rajadas das opiniões, com o horizonte limpo a todos os rumos e aberto à audácia da investigação.»
António Sérgio, "Ensaios - tomo II", Publicações Europa-América, 1954
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
espécie de oração particular #21
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Obra Poética III", Editorial Caminho, 1991
sábado, 29 de setembro de 2012
espécie de oração particular #20
«Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Ninguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário
Cumpre alto. Sê teu filho.»
Fernando Pessoa, "Odes de Ricardo Reis", Ática, 1994
sexta-feira, 6 de julho de 2012
espécie de oração particular #19

«Ermo semeador da liberdade,
Saí sozinho, antes da estrela;
Com a mão límpida e sem pecado,
Nos sulcos da terra escravizados
Lancei o grão vivificante –
Pena perdida: perdi meu tempo,
Meus bons desígnios e meus cuidados…»
Aleksandr Púchkin, “O Cavaleiro de Bronze e outros poemas”, Assírio & Alvim, 1999
segunda-feira, 25 de junho de 2012
espécie de oração particular #18
«Aprende
A não esperar por ti pois não te encontrarás
No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida
E os oceanos depois devagar te rodearam
A isso chamaste Orpheu Eurydice -
Incessante intensa a lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontro do fracasso —.
Quem se lembra do fino escorrer da areia
[na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira rio
Em Junho»
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Musa", Editorial Caminho, 1994
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