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domingo, 26 de janeiro de 2014

A revolução ficou atrás de nós #3




«A malta das praxes tem as suas hierarquias, veste-se a rigor, promove sociedades secretas com rituais mais ou menos obscuros, venera fardas e hinos, sob o olhar cúmplice e apaixonado de pais e professores orgulhosos. Têm as suas bandeiras, os seus símbolos. A academia aceita, desmistifica, moraliza eventuais atentados à dignidade humana, desinflaciona a dimensão grotesca e bruta da humilhação iniciática. Afinal, só é praxado quem quer e quem quer gosta, voluntaria-se se for preciso, está disposto a tudo para poder sentir-se parte integrante do grupo que há-de promovê-lo à condição de senhor perante futuros escravos. Assim se cresce e se faz homem e mulher quem nasça no mundo civilizado. É a tradição, palavra há muito utilizada para desculpabilizar e absolver todo o tido de atrocidades. O curioso disto está em constatar certo etnocentrismo encapuçado. As mesmas pessoas que vemos falar das praxes com orgulho ou simples desdramatização são capazes de apontar com a mais estúpida insensatez o fanatismo religioso islâmico, os rituais incivilizados da raça cigana, a violência genética dos pretos, numa prática do preconceito e do estereótipo cultural há muito enraizada na assoberbada nossa cultura.»

Henrique Fialho, "antologia do esquecimento",  já não há pachorra para gelatina de morango.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A revolução ficou atrás de nós #2


«No lugar onde caiu uma voz, onde faltou o sopro da respiração, um minúsculo sinal está suspenso, em cima. Sem outro suporte além deste, hesitante, o pensamento aventura-se»

Giorgio Agamben, "Ideia da prosa", Cotovia, 1999

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A revolução ficou atrás de nós #1


«Tomar consciência, e sempre de novo, de que estamos no fim da História, por forma que a maior parte das noções recebidas, a começar pelas da tradição revolucionária, devem ser reexaminadas e, tais quais, recusadas. Reconheçâmo-lo: Marx, Lénine, Bakunine, aproximaram-se e afastaram-se. Há um vazio absoluto atrás, como adiante de nós, e devemos pensar e agir sem assistência, sem outro apoio que não seja a radicalidade deste vazio. Ponhamos tudo em causa, incluindo as nossas certezas e esperanças verbais. A REVOLUÇÃO FICOU ATRÁS DE NÓS, objecto, já, de consumo e por vezes de gozo. Mas o que está diante de nós, e que será terrível, ainda não tem nome.»

Maurice Blanchot, Écrits Politiques 1953-1993, Paris, 2008 (Gallimard / Les Cahiers de la NRF), p. 204.

http://obeissancemorte.wordpress.com/2013/11/03/um-ensaio-de-antonio-bracinha-vieira-sobre-o-terror-do-capital-financeiro-a-biopolitica-e-o-futuro/