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domingo, 25 de maio de 2014

Chefe, precisamos de mentiras novas #27




«A ameaça hoje não é a passividade, mas a pseudo-actividade, a premência de "sermos activos", de "participarmos", de mascararmos o nada do que se move. As pessoas intervêm a todo o momento, estão sempre a "fazer alguma coisa"; os universitários participam em debates sem sentido, e assim por diante. O que é verdadeiramente difícil é darmos um passo atrás, abstermo-nos. Os que estão no poder preferem muitas vezes até mesmo uma participação crítica, um diálogo, ao silêncio: implicar-nos no "diálogo", de modo a assegurarem-se de que a nossa ameaçadora passividade foi quebrada. (...) Por vezes, não fazer nada é a coisa mais violenta que temos a fazer.» 

Slavoj Žižek, "Violência", Relógio D’Água, 2009

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Chefe, precisamos de mentiras novas #26




«Concepção científica do acaso: cada atitude, gesto, sonho (pessoais), são envolvidos pelo esquema mecânico imediato, este por um esquema maior (e mais longínquo) etc. De salto para salto, não há análise possível (senão parcelar e confusa). Fútil (sobretudo) debater as possibilidades, a própria existência, do grande operário que ordena (ou alimenta as ordens doutro) este esquema. E o outro às ordens de quem?
Por similitude, o carácter transforma-se num hábito, numa engrenagem. Livre arbítrio? Imaginação? Actos absorvidos em cadeias de actos, postos ao serviço de quê? Há, no entanto, certa aresta quase visível do problema: julga que progresso e acasos se confundem (nela). Como finalidade, não; apenas porque o mecanismo histórico é assim, e a sua natureza intrinsecamente moral (apesar de tanta circunstância perversa). Quanto ao resto, quem quiser perder tempo...» 

Carlos de Oliveira, "Finisterra",  Sá da Costa, 1984
  

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Chefe, precisamos de mentiras novas #25



«Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.»

Jorge de Sena, "Poesia 2. Fidelidade, Metamorfoses, seguidas de Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena, Arte de música", Moraes Editores, 1978


terça-feira, 8 de abril de 2014

Chefe, precisamos de mentiras novas #24



«Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.» 

Alexandra Lucas Coelho, prémio APE, 2014

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #22


«Ainda quero acreditar que possa haver música
no coração misterioso deste país.
Os mudos falarão e os paralíticos 
marcharão um dia ao sabor do tambor

E veremos cair da fronte do Filho do Homem
a coroa de sangue, símbolo da dor
e desta vez o Homem cantará em voz alta como
se a vida fosse bela e o espinheiro estivesse em flor.» 

Louis Aragon

sábado, 28 de setembro de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #21


«Chega o momento em que a vida de cada homem é uma derrota assumida. É uma verdade que todos sabemos.»
  
Marguerite Yourcenar

terça-feira, 2 de julho de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #20


«Toda a gente passou horas em que andou desencontrado, como à espera do comboio na paragem do autocarro»

Sérgio Godinho, "Lá em Baixo", Campolide, 1979

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #19


«avanço lesto por entre a multidão insane presa de ecrãs de teelvisão alarmes soam em todo o quarteirão disparos, gritos, lançando a confusão é guerra sem quartel de empresas rivais na busca do controlo de mercados locais ou então... ou então... encena-se um directo para a teelvisão sirenes passam em grande aceleração olhando para ecrãs de teelvisão o caso surge com outra dimensão imagens com voz servindo de guião é guerra sem quartel de empresas rivais na busca do controlo de mercados locais ou então... ou então... encena-se um directo para a teelvisão»

Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro, "Em Directo (Para a Teelvisão)", Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável, 1998

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #17


«Tenho um sentido muito forte de responsabilidade perante o mundo, de não poder viver apenas para minha própria satisfação, de só o facto de estar no mundo me dar uma obrigação de fazer tudo ao meu alcance para tornar o mundo um local melhor onde se viver, por pequena que seja a escala em posso actuar» 
Henry Spira

 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #16


«Ao todo, foram cinco anos, cinco anos de extrema exigência tanto pessoal como política em que tive o privilégio de ser chamado a lutar na primeira linha. Cinco anos em que dei pelo meu país tudo aquilo que as minhas capacidades permitiam. Cinco anos que foram, ao mesmo tempo, uma longa aprendizagem e uma dura lição de vida.» 

Miguel Relvas, "Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares", XIX Governo Constitucional de Portugal, 2013

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #15


«Se me dissessem: faltam-te vinte anos de vida, que queres fazer das vinte e quatro horas de cada um desses dias que vais viver? Respondia: dêem-me duas horas de vida activa e vinte e duas horas de sonho, com a condição de que me possa lembrar dele - porque o sonho só existe através da memória, que o acaricia.» 

Luis Buñuel, "O Meu Último Suspiro", Fenda Edições, 2006

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #13


«Não faz mal, não faz mal, 
disse para mim, não faz mal.» 

Venedikt Erofeev

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Chefe, precisamos de mentiras novas #12


«Só há quatro maneiras de um grupo dominante perder o poder. Ou é vencido do exterior, ou governa de modo tão pouco eficiente que as massas acabam na revolta, ou permite que se forme uma classe Média forte e descontente, ou perde a confiança em si próprio e a vontade de governar. Causas que não agem isoladamente e, regra geral, todas as quatro se conjugam em maior ou menor escala. uma classe dominante capaz de se defender contra todas elas permaneceria eternamente no poder. Em última análise, o factor determinante reside na atitude mental da própria classe dominante.» 

George Orwell, "1984", Antígona, 2007   

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Chefe, precisamos de mentiras novas #11


«Devemos distinguir entre aquilo que sabemos e aquilo de que estamos convencidos. Entre o que se sabe e o que é assimilado pela convicção existe a mesma diferença que entre a criança adoptada e a verdadeira. A convicção é um acto espiritual que se concretiza na obscuridade - uma insinuação secreta e um consenso muito fundo, não se encontra subordinado à vontade.»

Ernst Jünger, "O Coração Aventuroso", Cotovia, 1991 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Chefe, precisamos de mentiras novas #10


«Se o desejo produz, produz real. Se o desejo é produtor, só o pode ser a realidade e da realidade. O desejo é esse conjunto de sínteses passivas que maquinam os objectos parciais, os fluxos e os corpos, e que funcionam como unidades de produção. O real resulta disso, é o resultado das sínteses passivas do desejo como autoprodução do inconsciente. Ao desejo não falta nada, não lhe falta o seu objecto. É antes o sujeito que falta ao desejo, ou o desejo que não tem sujeito fixo; é sempre a repressão que cria o sujeito fixo. O desejo e o seu objecto são uma só e mesma coisa: a máquina, enquanto máquina de máquina. O desejo é máquina, o objecto do desejo é também máquina conectada, de modo que o produto é extraído do produzir, e qualquer coisa no produto se afasta do produzir, que vai dar ao sujeito nómada e vagabundo um resto.»

Gilles Deleuze e Félix Guattari, "Anti-Édipo — Capitalismo e Esquizofrenia", Assírio & Alvim, 1996

sábado, 15 de setembro de 2012

Chefe, precisamos de mentiras novas #9

«Todo o saber humano (se, na opinião de Sócrates, houver quem saiba) se reduz hoje ao acerto de uma sábia eleição. Pouco ou nada se inventa, e no que mais importa se há de ter por suspeitosa qualquer novidade.»


«Escolhem sempre o pior; pagam-se do menos acertado, gostam do menos plausível, com nota dos judiciosos e desprezo dos demais. Tudo lhes sai de modo infeliz, e não só não conseguem aplauso, como nem sequer agrado.»

Baltasar Gracián, "O Discreto", frenesi, 2005