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sexta-feira, 11 de julho de 2014
Até hoje foi sempre futuro #19
«O homem é um ser vivo monstruoso em cujo interior nós vivemos como as lombrigas na nossa barriga.
Não esqueçamos que existe uma infinidade de mundos e inúmeros planetas habitados.
As duas forças essenciais que movem a natureza são o calor e o frio.
Não se pode conceber uma matéria inanimada.
Mesmo os cadáveres são dotados de sensações e capazes de sentir as comoções da alma.
Não existem fenómenos sobrenaturais.
A magia da pura natureza é o único sacramento e o único segredo.
O poder só pode assentar no conhecimento, e o conhecimento apenas na percepção.
O estado é um ser vivo artificial, ou uma máquina feita de homens pelos homens.
Primeiro, é preciso destruir e exterminar, para depois construir e plantar.»
Hans Magnus Enzensberger, “Mausoléu”, Cotovia, 2004
terça-feira, 1 de julho de 2014
Até hoje foi sempre futuro #18
«Maioletto é uma aldeia desaparecida da face da terra uma noite em que chovia a cântaros e a montanha se rachou ao meio. Metade ainda está de pé, mas a outra, onde estavam as casas, os homens e os animais, ficou toda encerrada dentro das fendas.
Abaixo da grande fraga que restou, há um cemitério com cruzes deitadas na erva ou encostadas aos muros que fazem um quadrado.
Um rapaz e uma rapariga, que passeavam a ver as árvores floridas, chegaram ao meio daquele silêncio para tentar ler o que estava escrito nas grades. O tempo tinha devorado até as datas. Só ficaram cruzes ferrugentas, abandonadas pelos ossos e pelos nomes.
E eles escreveram qualquer coisa com um prego sobre aquela ferrugem, como se tivessem morrido lá dentro.»
Tonino Guerra, “O Livro das Igrejas Abandonadas”, Assírio & Alvim, 1997
sábado, 21 de junho de 2014
Até hoje foi sempre futuro #17
«Talvez seja das profissões de médico e de homem político que os perplexos entre os contemporâneos mais esperam. De ambas se exige hoje o impossível. Mas, na medida em que ambas cedem a estas falsas exigências, multiplicam o infortúnio.»
Karl Jaspers, “O médico na era da técnica”, Edições 70, 1998
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Até hoje foi sempre futuro #16
Uma docilidade demasiado grande dos
órgãos poria em perigo a existência
terrestre. O espírito, no seu estado
presente, faria dela um uso destruidor.
Novalis
sábado, 10 de maio de 2014
Até hoje foi sempre futuro #15
«Em lugares quase ermos ou habitados,
As pessoas que se cruzam desconhecem-se.
Umas por detrás das outras, surgem
Como cópias. Não são, infelizmente, cópias
Da noite. Mas se alguma delas inovar,
Seu destaque é único. Não se rejuvenesce
Porque o diverso é raro.»
Maria Gabriela Llansol, "O Começo de um Livro é Precioso", Assírio e Alvim, 2003
sábado, 21 de dezembro de 2013
Até hoje foi sempre futuro #14
«Não há, na verdade, muito a ganhar por perguntar, mais uma vez, qual a quilometragem até à lua ou qual é a fórmula para fazer ácido clorídrico. Nós sabemos as respostas.»
George Steiner, "Martin Heidegger", Relógio D`Água, 2013
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Até hoje foi sempre futuro #13
«Fomos os Portugueses intolerantes e fanáticos dos séculos XVI, XVII e XVIII: somos agora os Portugueses indiferentes do século XIX.»
«Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? Para entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós: memoremos piedosamente os actos deles: mas não os imitemos. Não sejamos, à luz do século XIX, espectros a que dá uma vida emprestada o espírito do século XVI. A esse espírito moral oponhamos francamente o espírito moderno.»
«Somos uma raça decaída por ter rejeitado o espírito moderno: regenerar-nos-emos abraçando francamente esse espírito. O seu nome é Revolução: revolução não quer dizer guerra, mas sim paz: não quer dizer licença, mas sim ordem, ordem verdadeira pela verdadeira liberdade. Longe de apelar para a insurreição, pretende preveni-la, torná-la impossível: só os seus inimigos, desesperando-a, a podem obrigar a lançar mãos das armas. Em si, é um verbo de paz, porque é o verbo humano por excelência.»
Antero de Quental, “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, Guimarães Editores, 2001
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
presente do indicativo
Prendo-te
o rosto, o corpo arqueado sobre o instante, o dorso reflectido sobre o
embuste da luz. Reorganizo-te o corpo, a sinalética desconhecida dos
medos, traço-te a história. Nomeio-te na arquitectura frágil do meu
dicionário privado, pouso-te sobre a mesa de cabeceira. Que talvez
tenhas por nome apenas o que em mim tem nome. Madrugada a tempo de nunca
se fazer alvorada, janela fronteiriça, chave pequena e olhar
clandestino sobre esta longuíssima forma de fazer silêncio com as mãos.
Fabrico fés, fabrico crenças e não há ninguém que saiba urdir as
palavras, às costas dos meses, melhor que Novembro. O meu nome visto de
baixo.
Beatriz Hierro Lopes
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Até hoje foi sempre futuro #11
«Perdemos a maior parte da nossa mocidade em actos desastrados. Era evidente que a minha amada viria a abandonar-me por completo e em breve. E eu não tinha ainda aprendido que existem duas humanidades muito diferentes, a dos ricos e a dos pobres. Foram-me precisos como a tantos outros os meus vinte anos e ainda a guerra, para aprender a manter-me de acordo com a minha categoria, a perguntar o preço das coisas e dos seres antes de lhes tocar, e sobretudo antes de me prender a eles.»
Céline, "Viagem ao Fim da Noite", Círculo de Leitores, 1989
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Até hoje foi sempre futuro #10
«"Ah, se fosse novo outra vez!" Nunca ouves ninguém dizer: "Gostava de ter sessenta e cinco anos."
Sorriu.
"Sabes o que isso reflecte? Vidas insatisfeitas. Vidas incompletas. Vidas que não encontraram sentido nenhum. Porque se encontrares sentido na vida, não desejas voltar atrás. Queres ir para a frente. Queres ver mais, fazer mais. Estás mortinho para chegar aos sessenta e cinco.
"Ouve, tens que saber uma coisa. Todos os jovens têm que saber uma coisa. Se estiveres sempre a batalhar contra o envelhecimento, vais ser sempre infeliz, porque isso vai acontecer de qualquer maneira."
"E, Mitch?"
Baixou a voz.»
Mitch Albom, "Às Terças com Morrie", Sinais de Fogo, 2006
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Até hoje foi sempre futuro #9
«Caminhávamos à beira-rio e éramos imensos. Gostava de saber agora bem o que éramos. Tínhamos a verdade toda porque não queríamos mais nada. E tínhamos a beleza porque estávamos contentes, mas não sabíamos bem de quê. Era um momento excessivo em que talvez Deus aparecesse. Era um desses instantes em que tudo oscila e é de mais e só é plausível matarmo-nos. Não havia em nós humanidade bastante, era plausível.»
Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990
sábado, 13 de julho de 2013
Até hoje foi sempre futuro #8
«Nem todos os livros são tão insípidos como os seus leitores. É provável que haja palavras endereçadas exactamente à nossa condição, as quais, se de facto pudéssemos ouvi-las e entendê-las, seriam mais salutares às nossas vidas que a própria manhã ou a Primavera, revelando-nos talvez uma face inédita das coisas.
Quantos homens não inauguraram uma nova etapa na vida a partir da leitura de um livro! Deve existir para nós o livro capaz de explicar os nossos mistérios e de revelar outros insuspeitados. As coisas que ora nos parecem inexprimíveis, podemos encontrá-las expressas algures.
As mesmas questões que nos inquietam, intrigam e confundem, foram postas por sua vez a todos os homens sábios; nenhuma foi omitida, e cada um deles respondeu de acordo com a sua capacidade, por meio de palavras ou da própria vida. De mais a mais, juntamente com a sabedoria aprendemos a liberalidade.»
Henry David Thoreau, "Walden ou a Vida Nos Bosques", Antígona, 1999
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Até hoje foi sempre futuro #7
«A questão de quem eu era consumia-me.
Convenci-me de que não chegaria a encontrar a imagem
da pessoa que eu
era: Os segundos passaram. O que em mim subiu à superfície
mergulhou e voltou a desaparecer. E no entanto senti que
o momento da minha primeira investidura
foi o momento em que comecei a representar-me -
o momento em que comecei a viver - gradualmente - segunda a
segundo - ininterruptamente - Oh, mente, que estás tu a fazer! -
queres ficar oculta ou queres ser vista? -
E o vestido - como te assenta bem! - iluminado
pelos olhos dos
outros,
a chorar -»
Jorie Graham, excerto de "Notas sobre a realidade do Self", em Materialism, 1993
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Até hoje foi sempre futuro #6
«O tempo está fora dos eixos: ó sorte malvada, ter nascido para o endireitar.»
William Shakespeare, "Hamlet", Editorial Presença, 2001
quarta-feira, 13 de março de 2013
Até hoje foi sempre futuro #5
Deus
«Não sei qual cabalista medieval disse que Deus ocupava todo o espaço; que depois se retirou de uma pequena porção do espaço. Então esse espaço começou a viver por conta própria e esse espaço é o universo, esse espaço somos nós, aqui. Isto é, Deus se distraiu um pouco de nós, não do todo, e somos esse sonho que está vivendo sua própria vida.»
Carlos R. Stortini, "Dicionário de Borges", Bertrand Brasil, 1990
domingo, 27 de janeiro de 2013
Até hoje foi sempre futuro #4

«O caso é que as nossas palavras já não correspondem ao que se passa no mundo. Quando as coisas faziam parte de um todo, sentíamo-nos confiantes de que as nossas palavras podiam exprimir essas coisas. Mas, pouco a pouco, essas coisas fragmentaram-se, espalharam-se, caíram num caos. E, contudo, as palavras permaneceram as mesmas. Não se adaptaram à nova realidade»
Paul Auster, "A Trilogia de Nova Iorque", Difusão Cultural, 1990
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Até hoje foi sempre futuro #3
«Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria -
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.
Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.
- Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, de grau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.»
Herberto Helder, "Ou O Poema Contínuo", Assírio & Alvim, 2004
sábado, 6 de outubro de 2012
Até hoje foi sempre futuro #2
«não me iludo, a minha vida é a lógica secreta de um caminho único, viagem para aqui, centro do corpo tracejado por deserções, centro do mundo, centro de todas as pátrias, aqui a recordação recorda-me, sou por enquanto o conhecedor solitário da minha história, outros, a partir do crime ainda não cometido, possuirão o meu nome, as minhas confidências, os medos da minha identidade. E encontrar-me-ão. Estarei aqui para me encontrarem. Me dizerem então como me chamo. E sou culpado. Submetido ao sossego linear dos factos.»
Rui Nunes, "Enredos", Edições Rolim, 1987
sábado, 8 de setembro de 2012
Até hoje foi sempre futuro #1
«No mundo nada se cria, tudo nasce e se transforma, é o que a imperatriz exprime, no seu dominio sobre o momento presente, do qual emanam passado e futuro. O que ela representa dá forma a ambos, porque o destino de hoje é ser simultaneamente ontem e amanhã. É inimiga das coisas fixas, para ela nada é, tudo está a ser, tudo está em trânsito e é transição. Não há saltos, mas sim continuidade: a filha que ocupa o trono da mãe, não o sendo, é a mesma que ela: tal como a metáfora, que também é e não o é mesmo. Assim a morte é um outro nascimento, e se deixarmos que seja a coisa a revelar a palavra (Górgias), não temos necessidade de explicar nada disso com antíteses. Como é possível ser antítese o que faz sentido? Até aparentemente o que o não faz. "Lembra-te, homem, que és pó, e em pó te hás-de tornar".»
Alberto Pimenta, "A Magia Que Tira os Pecados do Mundo", Cotovia, 1995
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