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domingo, 29 de junho de 2014
O Homem é um grande faisão sobre a terra #7
«Achava-me de certo modo, um indivíduo sem culpas, conhecendo algumas leis seguras, amando lentamente a terra e as estações.»
Herberto Helder, "Apresentação do Rosto", Editora Ulisseia, 1968
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O Homem é um grande faisão sobre a terra
sexta-feira, 23 de maio de 2014
O Homem é um grande faisão sobre a terra #6
«Os
mutantes (mutants) parecem‑se com o
leitor e comigo e comportam‑se como eu e o leitor nos comportamos. A natureza
física dos mutantes não se distingue da nossa. Se o leitor abrisse o cérebro de
um mutante, chegaria à conclusão de que ele funciona exactamente do mesmo modo
que o seu cérebro ou o meu. Se o leitor picar um mutante, ele soltará um “Ai!”,
exactamente como eu ou o leitor.
Ao contrário dos mortos‑vivos, os mutantes têm
consciência. Há um fantasma dentro deles. Mas os acontecimentos que ocorrem no
fantasma do mutante não são como é de esperar. Um mutante que seja picado, por
exemplo, pode ter experiência de um acontecimento mental, como ouvir um dó
central de um clarinete. Também ele soltará um “Ai!”, pois, dado que o cérebro
dele funciona como o nosso e ele se comporta como nós, ser picado com um
alfinete inicia processos que causam modificações que levam por fim a que ele
solte um “Ai!”, tal como todos nós. Quando ele, neste caso, ouvir um dó central
de um clarinete, talvez sinta uma dor horrível, mas isso não fará mais do que
fazê‑lo sorrir beatificamente. Um mutante que veja um marco de correio vermelho
poderá vê‑lo como se fosse amarelo; um mutante que veja narcisos poderá vê-los como
se fossem azuis. Um acontecimento que ocorra na consciência de um mutante não
apresenta qualquer relação com os acontecimentos que ocorrem na mente do leitor
ou na minha. Ou, pelo menos, qualquer relação com os acontecimentos que ocorrem
na minha mente. Pois, uma vez que considerei a possibilidade dos mutantes, dou‑me
conta de que não posso estar realmente seguro acerca de si, leitor, nem de
qualquer outra pessoa. Talvez todas as outras pessoas, quando comparadas
comigo, sejam mutantes.»
Simon Blackburn, "Pense", Gradiva, 2001
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O Homem é um grande faisão sobre a terra
segunda-feira, 5 de maio de 2014
O Homem é um grande faisão sobre a terra #5
«Por um curto-circuito eléctrico incompreensível o electrocutado foi o funcionário que baixou a alavanca e não o criminoso que se encontrava sentado na cadeira.
Como não se conseguiu resolver a avaria, nas vezes seguintes o funcionário do governo sentava-se na cadeira eléctrica e era o criminoso que ficava encarregue de baixar a alavanca mortal.»
Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Brecht", Editorial Caminho, 2004
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O Homem é um grande faisão sobre a terra
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
O Homem é um grande faisão sobre a terra #4
«Encontrava-me de vigia no mastro de traquete e, com as espáduas apoiadas às enxárcias do sobre da proa, deixava-me embalar preguiçosamente naquela atmosfera encantada.
Antes de me abandonar porém um total esquecimento de tudo, tinha observado que os vigias do mastro grande e do mastro da gata dormitavam, de tal modo que, afinal de contas, nos balouçávamos todos três sem vida no estais e a cada oscilação correspondia um cabecear do timoneiro sonolento do timão. As vagas cabeceavam indolentes e, no meio do grande entorpecimento do mar, o Leste pendia a cabeça para o Oeste e, por cima de tudo, o próprio Sol dormia.
Subitamente, foi como se bolhas gigantescas me rebentassem debaixo das pálpebras. Agarrei-me às enxárcias com as mãos crispadas. Uma força qualquer invisível e amiga acabava de me salvar.»
Herman Melville, "Moby Dick", Relógio D'Água, 2007
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O Homem é um grande faisão sobre a terra
sábado, 14 de dezembro de 2013
O Homem é um grande faisão sobre a terra #3
«Uma mulher levanta o braço. Está no passeio. Não tem pressa, mas levanta o braço e acena com a mão. O táxi não pára. Está vazio, mas não pára.
A mulher veste calças elegantes, castanhas. Tem um lenço ao pescoço.
De novo, vemos a sua mão levantada a acenar. Outro táxi que não pára.
A mulher está a sorrir. É bonita. Levanta o braço de novo. Estamos sempre a vê-la, a ver o seu entusiasmo sorridente. Mas não, de novo o táxi não pára. Também vazio, mas não pára.
O plano agora abre-se mais. Vemos a mulher, sim, as suas calças elegantes castanhas. E, junto aos seus pés, um corpo inerte; provavelmente morto.»
Gonçalo M. Tavares, "Short Movies", Editorial Caminho, 2011
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sábado, 19 de outubro de 2013
O Homem é um grande faisão sobre a terra #2
Herbais, 14 de Dezembro de 1982
esta noite, sempre que acordava, ouvia uma frase que, finalmente, exprimia com clareza os meus sentimentos particulares: aparelhar as velas. E fazia a seguinte pergunta: se sou, por natureza, um nómada, por que planto árvores e arbustos mal chego a um lugar, e depois desejo levantá-los do jardim, para levar comigo quem tem raízes?
Maria Gabriela Llansol, "Um Falcão no Punho", Relógio D'Água, 1998
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quinta-feira, 10 de outubro de 2013
O Homem é um grande faisão sobre a terra #1
«Amalie lambeu o pulso. «A água da chuva é doce», disse ela. «O sal é o pranto da lágrima.»
O Homem é um grande faisão sobre a terra, Herta Müller, Cotovia, 1993.
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A Irmã,
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