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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

presente do indicativo


Prendo-te o rosto, o corpo arqueado sobre o instante, o dorso reflectido sobre o embuste da luz. Reorganizo-te o corpo, a sinalética desconhecida dos medos, traço-te a história. Nomeio-te na arquitectura frágil do meu dicionário privado, pouso-te sobre a mesa de cabeceira. Que talvez tenhas por nome apenas o que em mim tem nome. Madrugada a tempo de nunca se fazer alvorada, janela fronteiriça, chave pequena e olhar clandestino sobre esta longuíssima forma de fazer silêncio com as mãos. Fabrico fés, fabrico crenças e não há ninguém que saiba urdir as palavras, às costas dos meses, melhor que Novembro. O meu nome visto de baixo.
Beatriz Hierro Lopes
  

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

maiores que a meia-noite #1


«Despojada do seu morto, aquela rapariga de cabeça baixa parece segurar Deus. Creonte vê‑a surgir inteiramente rubra, como se os seus andrajos cobertos de sangue fossem uma bandeira. A cidade impiedosa ignora os crepúsculos: o dia escurece subitamente, como uma lâmpada fundida que já não dá luz: se o rei levantasse os olhos, os revérberos de Tebas ocultar‑lhe‑iam agora as leis inscritas no céu. Os homens estão sem destino, visto que o céu está sem astros. (...) Ela avança naquela noite fuzilada pelos faróis: os seus cabelos de louca, os seus farrapos de mendiga, as suas unhas de carregadora mostram até onde deve ir a caridade de uma irmã. Em pleno dia, ela era a água pura sobre as mãos sujas, a sombra no vazio do elmo, o lenço na boca dos defuntos.

Em plena noite, ela torna‑se um clarão. A sua devoção pelos olhos vazados de Édipo brilha sobre milhões de cegos: a sua paixão pelo irmão putrefacto reanima fora do tempo miríades de mortos. Não se pode matar a luz; pode‑se apenas sufocá‑la: tapa‑se com a peneira a agonia de Antígona. Creonte lança‑a para o esgoto, para as catacumbas. Ela regressa ao país das origens, dos tesouros, dos germes. Rejeita Ismena que não passa de uma irmã carnal; afasta em Hémon a cruel possibilidade de conceber vencedores. Parte em busca da sua estrela situada nos antípodas da razão humana, e à qual apenas pode chegar depois de passar pelo túmulo. 

(...) O profundo meio‑dia falava de fúria: a profunda meia‑noite fala de desespero. O tempo deixou de existir nesta Tebas privada de astros; os que dormem estendidos na escuridão absoluta já não vêem a sua consciência. Creonte, deitado na cama de Édipo, repousa sobre a dura almofada da Razão de Estado. (...) Bruscamente, no silêncio embrutecido da cidade que fermenta o seu crime, um rumor vindo do interior da terra anuncia‑se, aumenta, impõe‑se à insónia de Creonte, torna‑se o seu pesadelo.

Creonte levanta‑se, tacteia, encontra a porta dos subterrâneos de que apenas ele conhece a existência, distingue na argila do subsolo os passos do seu filho mais velho. Uma vaga fosforescência que emana de Antígona permite‑lhe reconhecer Hémon pendurado no pescoço daquela que grandiosamente se suicidou, arrastado pela oscilação daquele pêndulo que parece medir a amplitude da morte. Atados um ao outro como que para terem um peso maior, o seu lento vai‑e-vem enterra‑os cada vez mais em direcção à sepultura, e esse peso palpitante volta a pôr em movimento a maquinaria dos astros. O barulho revelador atravessa as calçadas, os ladrilhos de mármore, as paredes de argila endurecida, enche o ar ressequido com uma pulsação de artérias. Os adivinhos encostam ao chão a orelha, auscultam como médicos o peito da terra que caíra em letargia. O tempo retoma o seu curso sob o ruído do relógio de Deus. 

O pêndulo do mundo é o coração de Antígona.»

Marguerite Yourcenar,  “Antigone ou le Choix”. In Feux. [Paris]: Gallimard, D.L. 2007. p. 55‑61.
Trad. Manuel de Freitas

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

se os mortos falassem #1


«Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida.»

António Ramos Rosa, "Resumo: a poesia em 2012", edição DOCUMENTA, 2013.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O Homem é um grande faisão sobre a terra #1


«Amalie lambeu o pulso. «A água da chuva é doce», disse ela. «O sal é o pranto da lágrima.»

O Homem é um grande faisão sobre a terra, Herta Müller, Cotovia, 1993.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

a poesia não me interessa #47


«Deste lado da vida
são sete horas (vestidas
de preto, vermelho e medo)
da manhã de outro dia.
Mas a janela fechada dá
para a noite ancorada
de leve sobre as esperanças
azedas da cidade.

Conto um rio preso num poço,
dois comboios afogados na pressa,
meia dúzia de faróis
acesos em prédios
cuja felicidade parece sempre
proporcional à distância.

O vinil negro continua a rodar,
atiça os seus pássaros enferrujados
contra a lua atada
a uma das chaminés.
E a luz que nunca chega
traz as últimas notícias da guerrilha,
expõe o plástico roto nas armas
dos nossos heróis de ontem.

Abandono as saudades
pelos telhados, com
as patas embaciadas, os olhos
magros. Saio.
Recomeço a fazer horas para novos sonhos.» 

Inês Dias, "Um Raio Ardente e Paredes Frias", Averno 057, 2013

domingo, 29 de setembro de 2013

sábado, 21 de setembro de 2013

a poesia não me interessa #46


Tem o tempo todo.
Perdeu-o, nos dias de desejo, para o trabalho
e para outros assuntos,
e agora que o tem por inteiro caminha muito lento
e quando olha em redor procura olhos
que se lembrem dos seus antigos momentos de pressa.
Tem tempo. Caminha lentamente.
Antes a ambição fazia-o levantar-se,
agora, quase se podia jurar, ser o cachimbo que o mantém em pé, a
garrado ao ar como a nada.
Passa perto e olha para mim; acena a cabeça.
Servem-lhe os dias, pelo menos, para ser educado.
É velho. Atravessa, muito lento, o tempo e a terra,
e vai dizendo adeus às pessoas,
como se exercesse o privilégio de se despedir dos amigos
no seu próprio funeral.

Gonçalo M. Tavares, 1, Relógio D'Água, 2004

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

a poesia não me interessa #45


Entre as sombras daqueles galos e cães
dos quintais e currais de Sanaüja,
há um buraco de tempo perdido e chuva suja
que vê os meninos ir contra a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha
em noites de braseiro a escolher lentilhas
vejo os que me amavam.
Tão pobres que no fim daquela guerra
tiveram de vender a miserável
porção de vinha e o casarão gélido.
Ser velho é a guerra já ter acabado.
Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.

Joan Margarit, "Casa da Misericórdia", OVNI, 2009

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #8


De Escuridão em Escuridão

Abriste os olhos – vejo a minha escuridão viver.
Vejo-a até ao fundo:
também aí é minha e vive.  

Poderá isso transpor? E transpondo acordar?
De quem é a luz que se atrela aos meus passos
para encontrar um barqueiro?  

Paul Celan, Sete Rosa Mais Tarde, Cotovia, 1993

sábado, 14 de setembro de 2013

quem não conhece estas manhãs, dúvida.


«Quem não conhece estas manhãs, dúvida:
somos todos o passado clandestino dos felizes, quando o rio era um brilho entre salgueiros, um desvio incerto da infância.»

Rui Nunes, "Uma Viagem no Outono", Relógio d'Água, Junho de 2013.

domingo, 8 de setembro de 2013

da espera

Inta Ruka,
My Country People (2003)

«Vejo bem que é uma dor que vem de muito longe mas que já não sabes donde. Olho-te um momento sem muita piedade – porque havia eu de ter muita? A piedade é uma forma de expulsarmos a amargura de nós a ameaça de não querermos que o seja. Guardo para mim a piedade que era para ti como posso não ter ilusões? Ponho-te a mão na face.
Espera lá por mim.»
                                                                                  Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Quetzal, p. 196

« Espera lá por mim.
E foi só o que soube dizer. Deixei ficar ainda algum tempo a mão na tua testa. E a todo o momento esperei que me dissesses a última frase do teu entendimento. E sorri um pouco por dentro, porque na tua face tranquila, longe para sempre de tudo o que a agitou, era impossível que a dissesses. Dorme – disse-te ainda.»
                                                                                  
                                                                                   Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Quetzal, p.264

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

das magníficas inutilidades


«Mas também é certo que a beleza de um homem é a reprodução de um conjunto de verdades íntimas e práticas. Num rosto lê-se aquilo de que um homem é capaz. E que significa isso comparado com a magnífica inutilidade de um rosto de mulher?»
Albert Camus, A Morte Feliz.