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sábado, 31 de maio de 2014

Toda a humilhação leva à morte #25



«A arte tem de parar de cada vez um momento para descansar. Para esta aventura, é preciso uma geografia, uma viagem através de diferentes territórios... Temos de descansar um pouco para humanizar.»

Enzo Cucchi

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Toda a humilhação leva à morte #24



«O deserto cresce: ai de quem abriga desertos!
A pedra range na pedra, o deserto oprime e sufoca.
A tremenda morte olha, com parda ardência
e mastiga, – o seu mastigar é a sua vida...

Não esqueças, homem, requeimado pela volúpia: tu – és a pedra, o deserto, és a morte...» 

Friedrich Nietzsche, “Ditirambos de Diónisos”, Guimarães Editores, 1993

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Toda a humilhação leva à morte #23


«Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia a meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir é — crede-me bem — para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas — onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza.»

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego", Relógio D'Água, 2008

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Toda a humilhação leva à morte #22


    «Por felicidade, contudo, o que é o ser? - Não há senão maneiras de ser, sucessivas. Há tantas quanto objectos. 
Tantas quantos os batimentos de pálpebras.
      Tanto quanto, tornando-se nosso regime, um objecto nos concerne, também o nosso olhar o cerca, o discerne. 
Trata-se, graças aos deuses, de uma "discrição" recíproca; e o artista acerta logo no alvo.
      Sim, só o artista, então, sabe como fazer.
      Deixa do olhar, atira ao alvo.
      O objecto, é certo, acusa o golpe.
      A verdade afasta-se em voo, indemne.
      A metamorfose aconteceu.» 
    
Francis Ponge, "Alguns poemas", Edições Cotovia, 1996

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Toda a humilhação leva à morte #21


«O desnudar erótico é igual à condenação à morte, na medida em que ela inaugura um estado de comunicação, de perda de identidade e de fusão.»

Jean Baudrillard

sexta-feira, 29 de março de 2013

Toda a humilhação leva à morte #20


«A felicidade é uma característica da vida que exige o desaparecimento da vida para existir. Se a felicidade é uma qualidade global do homem, então é necessário esperar que a vida desse homem se cumpra com a morte.»

Roberto Calasso, "As Núpcias de Cadmo e Harmonia", Cotovia, 1998

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Toda a humilhação leva à morte #19


«Há que enfrentar esta aversão. Pode-se defender hoje em dia o conector ou a moda consiste nos brancos. A regra parece ser o texto esfarrapado. Pelo menos na arte moderna o efeito de descontínuo substituí o efeito de ligação. Aliás, o próprio procedimento parece contraditório. Para começar, o fragmento coloca uma dupla dificuldade que não é confortável ultrapassar: a sua insistência satura a atenção, a multiplicidade adoça o efeito que a sua brevidade aguça.»

Pascal Quignard, "Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos", Deriva, 2009

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Toda a humilhação leva à morte #18


«Se considerarmos que o palco só difere da vida real pela falta da quarta parede, pelas mudanças de cenário e pela linguagem teatral dos intérpretes, o cinema afasta-se muito da vida. A posição do espectador muda constantemente, dado que o consideramos sempre do ponto de vista da câmara.» 

Rudolf Arnheim, "A Arte do Cinema", Edições 70, 1989

domingo, 23 de dezembro de 2012

Toda a humilhação leva à morte #17


«A solidão da obra – a obra de arte, a obra literária – desvenda-nos uma solidão mais essencial. Exclui o isolamento complacente do individualismo, ignora a busca da diferença; não se dissipa o fato de sustentar uma relação viril numa tarefa que cobre toda a extensão dominada do dia. Aquele que escreve a obra é apartado, aquele que a escreveu é dispensado. Aquele que é dispensado, por outro lado, ignora-o. Essa ignorância preserva-o, diverte-o, na medida em que o autoriza a perseverar.»

Maurice Blanchot, "O espaço literário", Rocco, 1987

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Toda a humilhação leva à morte #16


«Bom bebedor bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor

Que faz que a mulher ande à gandaia
E a filha seja pior
E a puta da neta levante a saia
Até ao quintal do prior?
O vinho é o mesmo e da mesma cor
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor»

Fernando Pessoa, "Fausto - Tragédia Subjectiva", Presença, 1988

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Toda a humilhação leva à morte #14


«É difícil percorrer o fio de uma navalha; tão penoso, dizem os sábios, como o caminho da Salvação.»

Katha-Upanishad

terça-feira, 17 de abril de 2012

Toda a humilhação leva à morte #13



«Tenho seis meses por minha conta. Ninguém deve saber de mim durante este período de tempo. Ou bem que terei de criado algo de Verdadeiro, ou então acabarei com tudo. Talvez não com a existência, mas sem dúvida com a Arte. Portanto, sem esta não há verdadeira vida para mim. Daí o perigo.»

Hermann Ungar, "Meninos e Assassinos", & Etc, 1990   

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Toda a humilhação leva à morte #12


«Aquele homem tinha medo de quem batia à porta, mas também de quem telefonava ou o fixava da janela do edifício em frente. E por isso, resolveu pintar as paredes do quarto de riscas brancas e azuis, de forma a  assemelhar-se ao tecido do seu pijama. Logo que ouvia o rumor de passos suspeitos, ao longo da escada, corria a vestir o pijama e colava-se de rosto contra o muro. Por vezes era a sua mulher a procurá-lo ou a entrar em casa. Chamava-o. Mas estava tão camuflado que o quarto parecia vazio.»

Tonino Guerra, "Histórias para uma noite de calmaria", Assírio & Alvim, 2002

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Toda a humilhação leva à morte #11



«Na verdade, por minúscula que seja, uma obra de arte acrescenta ao que já é qualquer coisa que não estava lá. O que não deveria normalmente acontecer causa embaraço. Mesmo uma tradição que reaparece pode ser intrusa e por assim dizer perturbadora. Um segundo ponto torna a arte embaraçosa: não só aumenta o que é imprevisível, como odeia a morte. Os artistas são assassinos da morte. Neste sentido, é normal serem castigados pelos que tem como profissão tanto administrá-la, como aumentá-la.»

Pascal Quignard, "As Sombras Errantes", Gótica, 2003

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Toda a humilhação leva à morte #10



«És um ocioso, um sonâmbulo, um indolente. As definições variam conforme as horas, os dias, mas o sentido permanece mais o menos claro: sentes-te pouco disposto a viver, a agir, a modificar; queres apenas esperar e esquecer.»

Georges Perec, "Um Homem que Dorme", Editorial Presença, 1991

quinta-feira, 25 de março de 2010

Toda a humilhação leva à morte #9



«Não penetrais suficientemente na intimidade da forma, não a perseguis com suficiente amor e perseverança nos seus desvios e nas suas fugas. A beleza é uma coisa severa e difícil, de modo nenhum se deixa atingir assim: é preciso esperar as suas horas, espiá-la, apertá-la e enlaçá-la estreitamente para a forçar a dar-se.»

Honoré de Balzac, "A Obra Prima Desconhecida", Edições Vendaval, 2002

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Toda a humilhação leva à morte #8



«É na sua arte que o artista encontra, pela imaginação, um feliz compromisso com tudo quanto o feriu na vida quotidiana, e não para escapar ao seu destino, como faz o homem vulgar, mas para realizá-lo da forma mais adequada e completa que lhe for possível. Senão, porque nos havíamos de ferir uns aos outros?»

Lawrence Durrell, "Justine", Editora Ulisseia, 2004

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Toda a humilhação leva à morte #7



«A virtualização, de maneira geral, é uma guerra contra a fragilidade, a dor, a usura. Em busca da segurança e do controlo, perseguimos o virtual porque nos leva a regiões ontológicas que os perigos vulgares já não atingem. A arte questiona esta tendência e virtualiza, assim, a virtualização, porque procura, a partir do mesmo momento, uma saída do aqui e do agora, e a sua exaltação sensual. Ela retoma a tentativa de evasão. Ela ata e desata a energia afectiva que nos faz superar o caos. Em ultima instância, ao denunciar o motor da virtualização, ela problematiza o esforço incansável, por vezes fecundo e sempre votado ao fracasso, que empreendemos para escapar à morte.»

Pierre Lévy

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Toda a humilhação leva à morte #6



«O escultor vê-se primeiramente defrontado com o bloco bruto, a matéria pura, que encerra em si todas as possibilidades. Esta responde ao escopro, o escopro pode destruir ou libertar dela água da vida, poder espiritual. Isso pertence ao indeterminado, mesmo para o mestre; não depende totalmente da sua vontade.
O indefinido, o indeterminado, mesmo na invenção, não é o inverídico.»

Ernst Junger, "Eumeswil", Editora Ulisseia, 2006