sábado, 21 de setembro de 2013

a poesia não me interessa #46


Tem o tempo todo.
Perdeu-o, nos dias de desejo, para o trabalho
e para outros assuntos,
e agora que o tem por inteiro caminha muito lento
e quando olha em redor procura olhos
que se lembrem dos seus antigos momentos de pressa.
Tem tempo. Caminha lentamente.
Antes a ambição fazia-o levantar-se,
agora, quase se podia jurar, ser o cachimbo que o mantém em pé, a
garrado ao ar como a nada.
Passa perto e olha para mim; acena a cabeça.
Servem-lhe os dias, pelo menos, para ser educado.
É velho. Atravessa, muito lento, o tempo e a terra,
e vai dizendo adeus às pessoas,
como se exercesse o privilégio de se despedir dos amigos
no seu próprio funeral.

Gonçalo M. Tavares, 1, Relógio D'Água, 2004

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Retrato de Família #26


Thomas B. Karamazov (1931-1989)

«Estamos sempre a tentar fugir de nós próprios mas falhamos sempre a tentativa, estamos continuamente a bater com a cabeça porque não queremos ver que não é possível fugirmos de nós próprios, a não ser através da morte.»

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A vida não é um sonho #32


«Imagine-se um indivíduo por natureza e infortúnio propenso a um sombrio desalento, haverá tarefa mais apta a aumentar-lhe aquele, que o manuseio constante dessas cartas perdidas, preparando-as para as chamas? É que elas são queimadas, anualmente, às carradas. Por vezes, de entre as folhas dobradas, o pálido funcionário retira uma anel - o dedo ao qual se destinava talvez que apodreça já no túmulo; uma nota de banco enviada rapidamente, por caridade - aquele a quem ela iria socorrer, já não come nem tem fome; perdão para os que morreram sem a ter, a boa nova para quantos morreram opressos por fatais calamidades. Recados de vida, estas cartas correm para a morte.»

Herman Melville, "Bartleby", Assírio & Alvim, 1988

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

a poesia não me interessa #45


Entre as sombras daqueles galos e cães
dos quintais e currais de Sanaüja,
há um buraco de tempo perdido e chuva suja
que vê os meninos ir contra a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha
em noites de braseiro a escolher lentilhas
vejo os que me amavam.
Tão pobres que no fim daquela guerra
tiveram de vender a miserável
porção de vinha e o casarão gélido.
Ser velho é a guerra já ter acabado.
Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.

Joan Margarit, "Casa da Misericórdia", OVNI, 2009

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #8


De Escuridão em Escuridão

Abriste os olhos – vejo a minha escuridão viver.
Vejo-a até ao fundo:
também aí é minha e vive.  

Poderá isso transpor? E transpondo acordar?
De quem é a luz que se atrela aos meus passos
para encontrar um barqueiro?  

Paul Celan, Sete Rosa Mais Tarde, Cotovia, 1993

domingo, 15 de setembro de 2013

sempre sozinho


©Jarrold,Julian;2008

sábado, 14 de setembro de 2013

quem não conhece estas manhãs, dúvida.


«Quem não conhece estas manhãs, dúvida:
somos todos o passado clandestino dos felizes, quando o rio era um brilho entre salgueiros, um desvio incerto da infância.»

Rui Nunes, "Uma Viagem no Outono", Relógio d'Água, Junho de 2013.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Recomposições de Metades #3


«Agora as coisas mudaram muito.»

«Quando se deixa uma terra por outra, se vivemos com entendimento e força de alma, deixamos o nosso espectro um pouco por toda a parte. É como morrer de maneira incorrupta, mas com igual arranque de saudade.
O caminho que faço todos os dias percorri-o hoje com distracção novelesca; e o que eram encontros muitas vezes sem agrado - pobres ou jardineiros, ou gente de ambíguos afazeres e tristezas - tornou-se de repente, já no espírito da distância, figuras reparadas, profundas, merecidas.»

Agustina Bessa Luís, "Conversações com Dmitri e outras fantasias", Na Regra do Jogo, 1979

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Até hoje foi sempre futuro #10


«"Ah, se fosse novo outra vez!" Nunca ouves ninguém dizer: "Gostava de ter sessenta e cinco anos."
Sorriu.
"Sabes o que isso reflecte? Vidas insatisfeitas. Vidas incompletas. Vidas que não encontraram sentido nenhum. Porque se encontrares sentido na vida, não desejas voltar atrás. Queres ir para a frente. Queres ver mais, fazer mais. Estás mortinho para chegar aos sessenta e cinco.
"Ouve, tens que saber uma coisa. Todos os jovens têm que saber uma coisa. Se estiveres sempre a batalhar contra o envelhecimento, vais ser sempre infeliz, porque isso vai acontecer de qualquer maneira."
"E, Mitch?"
Baixou a voz.»


Mitch Albom, "Às Terças com Morrie", Sinais de Fogo, 2006 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Perguntas Abandonadas #32


«- Sabes o que acontece quando magoamos as pessoas? - disse Ammu. - Quando magoamos as pessoas, elas passam a gostar menos de nós. É isso que as palavras descuidadas fazem. Fazem as pessoas gostarem um pouco menos de nós.»

Arundhati Roy, "O Deus das Pequenas Coisas", Edições Asa, 1999

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

a temperatura do corpo #30


«o que os humanos mais amam não é susceptível de ser reconhecido.
O que reina é sempre o que se perdeu.
O que devora o homem é sempre o amor que sentiu quando ignorava a sua natureza. Esse amor é irreconhecível porque está imbuído de um mundo cujo reinado teve lugar antes da desunião do nascimento. Laço de antes da linguagem adquirida nos lábios daquela que deixa de estar unida e que já é a mãe que desfaz o laço. Unidade que diverge no acesso à luz para o olhar e pela transformação do corpo devida ao ar que se respira. Olhos que vêm e voz que clama dilacerando-se, dividindo a alma, destruindo a ressonância antiga, obscura.»

Pascal Quignard, "Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos", Edições Cotovia, 2002

domingo, 8 de setembro de 2013

da espera

Inta Ruka,
My Country People (2003)

«Vejo bem que é uma dor que vem de muito longe mas que já não sabes donde. Olho-te um momento sem muita piedade – porque havia eu de ter muita? A piedade é uma forma de expulsarmos a amargura de nós a ameaça de não querermos que o seja. Guardo para mim a piedade que era para ti como posso não ter ilusões? Ponho-te a mão na face.
Espera lá por mim.»
                                                                                  Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Quetzal, p. 196

« Espera lá por mim.
E foi só o que soube dizer. Deixei ficar ainda algum tempo a mão na tua testa. E a todo o momento esperei que me dissesses a última frase do teu entendimento. E sorri um pouco por dentro, porque na tua face tranquila, longe para sempre de tudo o que a agitou, era impossível que a dissesses. Dorme – disse-te ainda.»
                                                                                  
                                                                                   Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Quetzal, p.264

sábado, 7 de setembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #7


Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo, "Homem de Palavra(s)", Presença, 1997 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

diário dos mesmos pesares #31


«Olho a minha face no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. A minha carne pode ter medo; eu não.»

Jorge Luis Borge, "O Aleph", Editorial Estampa, 1988

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

ninguém é filho das ervas #22


«Uma caneta é uma coisa estúpida; consegue sujar tudo.»
Blaise  Cendrars

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

das magníficas inutilidades


«Mas também é certo que a beleza de um homem é a reprodução de um conjunto de verdades íntimas e práticas. Num rosto lê-se aquilo de que um homem é capaz. E que significa isso comparado com a magnífica inutilidade de um rosto de mulher?»
Albert Camus, A Morte Feliz.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

quero outra noite no fim do dia #19







«Um incandescente pulmão
espera no Norte pelo
cigarro do sol. O teu
rosto adormecido parece
uma mensagem. Mas quem
a envia? Muito caminhámos
lado a lado
no inclinado caminho dos anos.
Por fim as pedras tornaram-se
em escuridão, mas o rosto
de um homem é mais claro que
o seu pensamento, o seu nome
mais profundo que a escuridão
dos sentimentos onde
está fechado. Agora
a noite é insensível ao dia.
Agora o teu sono é todo o crepúsculo
que resta.»

Gösta Agren, "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro", Assírio & Alvim, 2001

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Orelhas de Elefante #38



"if you develop an ear for sounds that are musical it is like developing an ego: you begin to refuse sounds that are not musical and that way cut yourself off from a good deal of experience"
 john cage