quarta-feira, 20 de junho de 2012
Imediatamente embora pouco a pouco #21
«"Então o que é que eu devo fazer?" perguntei ponderadamente.
"Deves aprender a esperar correctamente."
"E como é que isso se aprende?"
"Desprendendo-te a ti próprio, deixando para trás a ti e a tudo o que é teu, tão decididamente que nada mais reste de ti a não ser uma tensão sem nenhuma intenção."
"Então devo perder intenção - intencionalmente?" ouvi-me dizer.
"Até hoje nenhum aluno me fez essa pergunta, de modo que não sei a resposta correcta."
"E quando começamos com estes novos exercícios?"
"Espera até chegar o momento."»
Eugen Herrigel, "Zen e a arte do tiro com arco", Via Optima, 1987
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Imediatamente embora pouco a pouco
terça-feira, 19 de junho de 2012
o Mal-estar da Civilização #28
«Os moralistas teóricos chamam “boas” apenas às acções que são expressão de moções pulsionais boas, e negam o seu reconhecimento às demais. Mas a sociedade, guiada por propósitos práticos, não se preocupa com tal distinção; contenta-se com que um homem oriente o seu comportamento e as suas acções segundo as prescrições culturais, e não se interroga sobre os seus motivos.
Vimos que a coerção externa, exercida sobre o homem pela educação e pelo meio ambiente, suscita uma ulterior transformação da sua vida pulsional no sentido do bem, uma viragem do egoísmo para o altruísmo. Mas este não é o efeito necessário ou regular da coacção exterior. A educação e o ambiente não se limitam a oferecer prémios de amor, mas lidam também com prémios de outra natureza, com a recompensa e o castigo. Podem, pois, fazer que o indivíduo submetido à sua influência se resolva a agir bem, no sentido cultural, sem que nele tenha realizado um enobrecimento das pulsões, uma mutação das tendências egoístas em tendências sociais. O resultado será, no conjunto, o mesmo; só em circunstâncias especiais se tornará patente que um age sempre bem, porque a tal o forçam as suas inclinações pulsionais, mas o outro só é bom porque tal conduta cultural traz vantagens aos seus intentos egoístas, e só enquanto e na medida em que as procura. Nós, porém, com o nosso conhecimento superficial do indivíduo, não temos meio algum de distinguir os dois casos, e o nosso optimismo induzir-nos-á decerto a exagerar desmesuradamente o número dos homens transformados pela cultura.»
Albert Einstein, Sigmund Freud, "Porquê a Guerra? Reflexões sobre o destino do mundo", Edições 70, 1997
segunda-feira, 18 de junho de 2012
a temperatura do corpo #17
«Mostrar o potencial de felicidade presente na mais insignificante situação quotidiana e em qualquer forma de socialidade humana: essa é a eterna razão política da pornografia. Mas o seu conteúdo de verdade, que a coloca nos antípodas dos corpos nus que enchem a arte monumental do Fim-de-século, é que ela não eleva o quotidiano ao nível do céu eterno do prazer, mas exibe antes o irremediável carácter episódico de todo o prazer, a íntima digressão de todo o universal. Por isso, só na representação do prazer feminino, cuja expressão é visível apenas no rosto, ela esgota a sua intenção.»
Giorgio Agamben, "Ideia da prosa", Cotovia, 1999
domingo, 17 de junho de 2012
sábado, 16 de junho de 2012
Perguntas Abandonadas #20
o menino à professora de trabalhos manuais: senhora, este é o azul do céu? este papel de lustro?»
Rui Nunes
sexta-feira, 15 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Momento Pergaminho #10
quarta-feira, 13 de junho de 2012
terça-feira, 12 de junho de 2012
quero outra noite no fim do dia #9
- Atenção à mina! Atenção à mina!
O aviso não era despropositado pois alguns segundos depois uma explosão formidável dava-nos cabo dos ouvidos e um enorme molho de palha, jorrando da caverna, passava-nos por cima da cabeça para se esmagar no solo com um estrondo terrível.»
Benjamin Péret, "Morte aos Chuis e ao Campo da Honra", & Etc, 1977
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quero outra noite no fim do dia
segunda-feira, 11 de junho de 2012
espécie de oração particular #17
«— Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
E tu dirás está bem.»
Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990
domingo, 10 de junho de 2012
sábado, 9 de junho de 2012
ninguém é filho das ervas #4
«Estar à espera de se tornar planta, lembrar-se de ter sido animal, ter vindo de muito longe para esperar: tornar-se, isto é: adquirir o seu repouso.»
Maria Filomena Molder
sexta-feira, 8 de junho de 2012
diário dos mesmos pesares #16
«Cada homem é a medida do Universo.»
Teixeira de Pascoaes, "Aforismos", Assírio & Alvim, 1998
«Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Obra Poética I", Editorial Caminho, 1992
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Obra Poética I", Editorial Caminho, 1992
quinta-feira, 7 de junho de 2012
a temperatura do corpo #16
Na mesa ao lado,
um jardim de senhoras ao domingo,
associadas na ordem da má-língua
e do chá com limão,
num café de inverno, pela tarde.
um jardim de senhoras ao domingo,
associadas na ordem da má-língua
e do chá com limão,
num café de inverno, pela tarde.
Queixam-se deste tempo, bebem, fumam,
discutem seus segredos, concordam com sorrisos…
discutem seus segredos, concordam com sorrisos…
e de súbito param a olhar-te.
Despreocupada contas
― e no local a tua voz é como um sabre
que fere o inimigo ―
uma história de cama com detalhes hábeis,
uma maneira de sentir a vida
que penetra e dissolve
a luz de igreja,
a humilhação do frio nos joelhos,
os caixões fechados e as fotos do casamento.
― e no local a tua voz é como um sabre
que fere o inimigo ―
uma história de cama com detalhes hábeis,
uma maneira de sentir a vida
que penetra e dissolve
a luz de igreja,
a humilhação do frio nos joelhos,
os caixões fechados e as fotos do casamento.
Certo tipo de gente
sofre de invernia nos olhos,
conhece as geadas
que passam por baixo da porta,
uma porta de quarto,
ali onde a noite tem sempre
um cheiro a espera inútil,
e depois da espera aceitam-se as mentiras,
e a seguir o silêncio.
sofre de invernia nos olhos,
conhece as geadas
que passam por baixo da porta,
uma porta de quarto,
ali onde a noite tem sempre
um cheiro a espera inútil,
e depois da espera aceitam-se as mentiras,
e a seguir o silêncio.
Nada deixam os anos na mesa do lado,
senão um murmúrio que envelhece e uma sombra
que cruza os lábios como uma cicatriz,
um rancor na epiderme da consciência.
senão um murmúrio que envelhece e uma sombra
que cruza os lábios como uma cicatriz,
um rancor na epiderme da consciência.
A tua voz é alta e jovem
e vestida de festa, e quando se desnuda
faz com que o sol de inverno, comovido,
se detenha um instante para apoiar a fronte
nas vidraças do café.
e vestida de festa, e quando se desnuda
faz com que o sol de inverno, comovido,
se detenha um instante para apoiar a fronte
nas vidraças do café.
Luis García Montero, Espanha (n. 1958), traduzido por Nuno Dempster
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Teoria da Conspiração #34 (ou o desdobrado é antes do mais um dividido)
«Pouco ou muito, de tempos a tempos toda a pessoa sente um desejo de abandonar o seu “eu” (esse conjunto aproximativo), tentada por um outro “eu”. Máscaras, cerimónias e festas e jogos respondem a essa tentação sem a realizarem, detendo-se antes, realizando apenas uma macacada.
Sendo o problema primordial na vida o tomar a cargo o próprio ser, a personalidade de um indivíduo é constituída, não sem andar às apalpadelas, na primeira idade porque a mais cómoda no seu meio original, e é mantida, mais ou menos igual no decurso dos anos, por facilidade, como sendo a mais conveniente.
Esta formação a longo prazo tendo ganho em profundidade já não pode ser dividida apesar dos remorsos e da inapropriação, a menos que uma necessidade seja fortemente sentida, e em casos muito raros.»
Henri Michaux, "Uma via para a insubordinação", & Etc, 2008
terça-feira, 5 de junho de 2012
a poesia não me interessa #33
Música do fogo, tu não soubeste tocar.
Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto.
Henri Michaux, "Nós dois ainda", Bonecos Rebeldes, 2009
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Chefe, precisamos de mentiras novas #7
«É bem evidente a vida mesquinha e vil que muitos levam, digo-o porque a experiência me tem aguçado a visão para os que vivem na corda bamba, tentando negócios para escaparem às dívidas - esse antiquíssimo atoleiro a que os latinos chamavam de aes alienum, o cobre alheio, pois algumas das suas moedas eram cunhadas nesse metal -, ainda assim vivendo e morrendo, enterrados pelo dinheiro alheio, sempre prometendo pagar, jurando pagar amanhã e morrendo hoje insolventes; bajulando por favores, angariando fregueses de mil e um modos desde que não redundem em prisão, mentindo, adulando, votando, enredando-se em meia dúzia de palavras corteses ou expandindo-se numa atmosfera de melíflua e vaporosa generosidade a fim de persuadirem o vizinho a deixá-los engraxar-lhe os sapatos, escovarem-lhe o chapéu e casaco, limparem-lhe a carruagem ou levarem-lhe as compras da mercearia; fazendo-se de doentes com vista a economizarem algo para o dia em que estejam de facto doentes, algo a ser guardado numa velha cómoda, armazenado atrás do reboco ou, melhor ainda, na bancada de tijolos, seja onde for, seja muito ou pouco.»
Henry David Thoreau, "Walden ou a Vida Nos Bosques", Antígona, 1999
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domingo, 3 de junho de 2012
o Mal-estar da Civilização #27
«Há muitos anos que os meus pensamentos não visam outro alvo que senão eu mesmo, que só me examino e estudo a mim próprio, e se outra coisa venho a estudar, é para logo a aplicar a mim, ou, mais bem dito, em mim. E não me parece laborar em erro se, tal como se faz com outras ciências, incomparavelmente menos úteis, eu partilhar o que aprendi com esta, conquanto não esteja muito satisfeito com os progressos que nela fiz. Não há descrição tão difícil como a de si mesmo, nem, decerto, tão útil. Ademais, é preciso pentear-se, preparar-se e arranjar-se para se apresentar em público. Ora eu estou incessantemente a enfeitar-me porque incessantemente estou a descrever-me.»
Montaigne, "Ensaios", Relógio d'Água, 1998
sábado, 2 de junho de 2012
K, o elemento estranho da tabela literária #2
«Porque somos todos como troncos de árvore na neve. Estes, em aparência, estão apenas pousados, de tal forma que um pequeno empurrão seria suficiente para os fazer rolar. Mas não, é impossível, estão bem seguros ao solo. E até isso não passa de uma aparência.»
Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004
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sexta-feira, 1 de junho de 2012
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