sexta-feira, 19 de abril de 2013

espécie de oração particular #27


Não quero morrer neste mundo belo,
Mas viver no coração dos homens,
E encontrar sepultura no bosque florido,
Salpicado de sol.
O jogo dos fracassos da vida como ondas
Com as suas lágrimas e sorrisos,
Unindo-se e separando-se!
Encandeando
Alegrias e tristezas do homem,
Quero construir sobre esta terra
A minha casa eterna.
Farei florescer novas flores e canções
Para que as reúnas, amanhecer e escuridão.
Colhe-as a sorrir...
E quando murcharem
Espalha-as.

Rabindranath Tagore, "Poesia", Assírio & Alvim, 2004

quinta-feira, 18 de abril de 2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

Teoria da Conspiração #44 (ou a Exigência dos Enredos Contemporâneos)


«O contacto íntimo com a palavra tornara-o exigente. O lugar-comum, esse oceano navegável dos outros, era interdito. Já que não podia ser original, porque o início é ainda um mito, seria lúcido. E esta palavra que o Poder continuamente repetia no seu íntimo - o Poder tomava para Milos a face das contestação metafísica - era um mata-borrão onde sentimentos, gestos, tudo era absorvido.»

Rui Nunes, "Os Deuses da Antevéspera", Parceria A. M. Pereira LDA., 1977   

domingo, 14 de abril de 2013

a temperatura do corpo #25


«Por vezes o Sr. Cogito recorda, não sem comoção, a sua marcha adolescente rumo à perfeição, esse juvenil per aspera ad astram. Ora sucedeu-lhe um dia, ao correr para as aulas, uma pedrinha entrar-lhe para o sapato. Meteu-se maliciosamente entre a pele e a peúga. O bom-senso ordenava-lhe que se livrasse do intruso, mas o princípio de amor fati – pelo contrário – a suportá-lo. Optou pela segunda, resolução heróica. A princípio não parecia grave, apenas um incómodo e nada mais, no entanto, depois de algum tempo, no campo de consciência apareceu o calcanhar, e isto no momento em que o jovem Cogito tentava laboriosamente alcançar o pensamento do professor que desenvolvia o tema da ideia em Platão. O calcanhar crescia, inchava, pulsava, de rosa pálido tornava-se púrpura como o sol poente e afastava da sua mente não só a ideia de Platão mas qualquer outra ideia. À noite, antes de se entregar ao sono, sacudiu da peúga o corpo estranho. Era um pequeno grão de areia, frio e amarelo. O calcanhar, por sua vez, estava inchado, quente e negro de dor.»

Zbigniew Herbert, "ÍTACA, Cadernos de ideias textos & imagens", Coisas de Ler, nº3 de 2011

sábado, 13 de abril de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #11


«Apaixonado pela sua beleza, transformou-se num touro de resplandecente brancura e cornos semelhantes a duas luas na fase de quarto crescente. Aproximou-se assim da jovem, indo deitar-se a seus pés. Primeiro, Europa assustou-se, mas, pouco depois, tomando coragem, acariciou o animal, sentando-se no seu dorso. Logo o touro se levanta, correndo em direcção ao mar.»

Pierre Grimal, "Dicionário da Mitologia Grega e Romana", Difel, 2009

sexta-feira, 12 de abril de 2013

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Até hoje foi sempre futuro #6


«O tempo está fora dos eixos: ó sorte malvada, ter nascido para o endireitar.»

William Shakespeare, "Hamlet", Editorial Presença, 2001

terça-feira, 9 de abril de 2013

Momento Pergaminho #14


«"Colhe um fruto da figueira!" - "Aqui, venerável!" - "Divide-o" - "Dividi-o, venerável." - "O que vês nele?" - "Estes grãos diminutos, venerável!" - "Divide um deles, meu amigo!" - "Dividi-o, venerável." - "O que vês nele?" - "Nada, venerável!" ... "Acredita em mim, meu amigo: o que essa coisa diminuta é, é o próprio eu deste universo. Isto é a verdade. Isso é o próprio eu (individual). Isso és tu, Shetaketu."»

Chandogya-Upanishad, 6. 12. 1-3 a

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Perguntas Abandonadas #28


«Então, dizem eles, o destino é eficaz até ao baptismo; depois já não dizem os astrólogos a verdade. Não só o banho nos liberta, mas também a gnose: Quem éramos? Em que é que nos convertemos? Para onde fomos atirados? Para onde nos apressamos? Do que é que estamos libertados? O que é o nascimento? O que é o renascimento?»

Tito Flávio Clemente (150-215)

domingo, 7 de abril de 2013

o poeta sabe menos que o poema #2


Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita

Daniel Faria, "Poesia", Quasi Edições, 2003 

sábado, 6 de abril de 2013

ninguém é filho das ervas #17


«Procuramos por todo o lado o Incondicionado e não encontramos senão coisas.»
Novalis

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #16


«Ao todo, foram cinco anos, cinco anos de extrema exigência tanto pessoal como política em que tive o privilégio de ser chamado a lutar na primeira linha. Cinco anos em que dei pelo meu país tudo aquilo que as minhas capacidades permitiam. Cinco anos que foram, ao mesmo tempo, uma longa aprendizagem e uma dura lição de vida.» 

Miguel Relvas, "Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares", XIX Governo Constitucional de Portugal, 2013

quarta-feira, 3 de abril de 2013

espécie de oração particular #26


«Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou;
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita,
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia;
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.»

Adélia Prado, "Bagagem", Livros Cotovia, 2002 

terça-feira, 2 de abril de 2013

A vida não é um sonho #29


«Porque é que procuras bons dias aqui, na terra, onde não os podes encontrar? O que queres? Talvez que passem anos e anos, e que não chegue ao fim desses anos? A tua aspiração é um contra-senso: queres caminhar, mas não queres chegar ao fim da caminhada!»  

Santo Agostinho, "Sermão 108: 3, 3" 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Imediatamente embora pouco a pouco #30


«Há mil maneiras de matar o tempo e todas são diferentes, mas todas se equivalem, mil maneiras de não esperar nada, mil jogos que podes inventar e abandonar imediatamente.
Tens tudo a aprender, tudo o que não se aprende: a solidão, a indiferença, a paciência, o silêncio. Tens de te desabituar a tudo: de ir ao encontro daqueles com quem durante tanto tempo te cruzaste, de tomar as tuas refeições, os teus cafés no lugar que todos os dias outros reservaram para ti, que por vezes defenderam para ti, de andar por aí na cumplicidade insípida das amizades que vão sobrevivendo, no rancor oportunista e cobarde das ligações que se vão desfazendo.»   

Georges Perec, "Um Homem que dorme", Editorial Presença, 1991