domingo, 23 de fevereiro de 2014

o Osso do Meio #1




«Bem sei que até a luz do Sol pode dizer mentiras, mas não era visível que nenhum jogo de luz ou pose pudesse dar-lhe ao rosto um ar de tão delicada ingenuidade. Parecia pronta a ouvir-nos sem reservas mentais, sem suspeitas, sem pensamentos reservados. Acabei por resolver que iria eu próprio devolver-lhe o retrato e as cartas. Curiosidade? Sim, mas sentimentos de outra espécie, talvez. Todo o espólio de Kurtz me passara pelas mãos: - alma, corpo, o posto, os planos, o marfim, a carreira. Só restavam a sua memória, a sua Prometida - e de certo modo eu queria restituir aquilo ao passado - eu próprio entregar tudo quanto me restava dele ao esquecimento que era palavra última do nosso destino comum. Não estou a defender-me. Eu não tinha uma percepção clara do que realmente se passava em mim. Talvez fosse um impulso de inconsciente lealdade ou satisfação de uma destas exigências irónicas que espreitam nos actos da vida humana. Sei lá. Não posso dizê-lo. Mas fui.»

Joseph Conrad, “O Coração das Trevas”, Editorial Estampa, 2006

1 comentário:

Leon disse...

"(...) até a luz do Sol pode dizer mentiras, (...)"

Até eu posso dizer mentiras. Mas nunca tas disse. Sabes que é verdade o que sinto por ti. Por isso devolve-te a mim, e o retrato e as cartas que se lixem.