quinta-feira, 20 de março de 2014

a temperatura do corpo #35



«Devemos, ao falar, ter o maior cuidado com as palavras que empregamos, pois, sendo algumas delas particularmente vulneráveis às raízes, arriscamo-nos a ver apoderar-se-nos da fala uma vegetação que talvez chegue mesmo a destruir-nos. A fala quer-se árida, de uma aridez idêntica à roupa que nos cobre o corpo ou à do céu, de que me esforço, sempre que dele falo, por deixar à mostra um dos agrafos mais profundos.» 

Luís Miguel Nava, "Poesia Completa (1979-1994)", Publicações Dom Quixote, 2002

1 comentário:

Leon Lisbon disse...

...
Luís Miguel Nava [1957-1995]
um dos meus poetas preferidos.

Eis mais um exemplo
da sua escrita:
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Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.
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Outro exemplo:
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Poder-me-ão entender todos aqueles
de quem o coração for a roldana
do poço que lhes desce na memória.
Se alguma coisa vi foi com o sangue.
De alguém a quem o sangue serviu de olhos poderá
falar quem o fizer de mim.
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