sexta-feira, 26 de abril de 2013

quero outra noite no fim do dia #14



«Ao anoitecer, pouco antes das seis horas, enquanto ele faz as contas dos seus deveres na mesa da cozinha, a mãe chega a casa. Afasta o livro de aritmética, agarra em Åke pela mão e puxa-o para fora do sofá.
"Ouve, vai à procura do teu pai", diz ela, arrastando-o para a entrada, ficando atrás dele para lhe cortar qualquer possível fuga, "vai à procura do teu pai e vais dizer-lhe da minha parte que te dê dinheiro."
Os dias são piores do que as noites. Os jogos da noite são melhores do que os do dia. À noite, ele pode tornar-se invisível e chegar com maior velocidade, passando por cima dos telhados, aos sítios onde a sua presença é necessária. De dia, não se é invisível. De dia, tudo decorre mais devagar. De dia, os jogos não têm os mesmos atractivos. Åke sai de casa e é tudo o que há de menos invisível, o filho da porteira, segura-o pela manga. Mas Åke sabe que a mãe, postada à janela, ficará a observá-lo até que ele tenha desaparecido na esquina da rua e por isso solta-se sem dizer palavra e depois foge como se houvesse alguém a correr atrás dele. Mas assim que dobra a esquina, muda de andamento e caminha tão devagar quanto pode, contando as pedras do passeio e os escarros que vê no chão. O filho da porteira apanha-o, mas Åke não lhe responde: não lhe contará que está à procura do pai que não levou o salário para casa.»

Stig Dagerman, "Jogos da Noite", Antígona, 1992