segunda-feira, 9 de junho de 2014
quero outra noite no fim do dia #23
«Assim como na noite o dia se contém
e o sol ao fim da trajectória em lua se resolve
assim emerge o homem dessa mesma terra mãe
que o há-de receber com mãos de quem absolve
Assim de dia em dia assim de longe em longe vem,
como mar que onda a onda se dissolve
na praia do início, a dúvida que alguém
sobre si mesmo tem e todo se revolve
Assim a noite, assim o mar também
e se alguém nasce doutrem e se um filho
começa pela mãe, assim do filho a mãe
renasce, assim redondo sai o trilho
E por maior cadáver que na carne leve
a ave retransmite à ave tudo quanto vive»
Ruy Belo, "Todos os Poemas", Assírio & Alvim, 2009
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quero outra noite no fim do dia
domingo, 8 de junho de 2014
sábado, 7 de junho de 2014
A vida não é um sonho #38
«É, pois, a tragédia imitação de uma acção de carácter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], [imitação que se efectua] não por narrativa, mas mediante actores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções.»
Aristóteles, “Poética”, INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2000
sexta-feira, 6 de junho de 2014
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Perguntas Abandonadas #42
«Onde está pois o núcleo profundo e autónomo de que nenhum participa, que não foi gerado por nenhum outro e que se possa verdadeiramente chamar meu? Serei, na realidade um coágulo de dívidas, a molécula escrava de um corpo gigantesco? E a única coisa que acreditamos verdadeiramente nossa – o Eu – talvez seja como tudo o mais, um simples reflexo, uma alucinação do orgulho.»
Giovanni Papini, "Gog", Livros do Brasil, 1988
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #24
Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o anjo é terrível.
Rainer Maria Rilke, "As Elegias de Duíno", Assírio & Alvim, 2002
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terça-feira, 3 de junho de 2014
Ouvido no estrangeiro #11
«Summer dress makes you more beautiful than the rest
Loveliest girl that I know and the sweetest
Spends her life inside, she thinks she isn't blessed
Summer dress separates you from the rest
Easiest days of her life have been spent
Wonders if she is loved, if she is missed
Says a prayer as she's kissed by ocean mist
Takes herself to the sand and dreams
Says a prayer as she's kissed by ocean mist
Takes herself to the sand and dreams»
Red House Painters, "Summer Dress", Ocean Beach, 1995
segunda-feira, 2 de junho de 2014
ninguém é filho das ervas #30
«Não há dúvida de que somos carniça, somos carcaças em potência. Se vou a um talho acho sempre surpreendente não estar ali eu em vez do animal»
Francis Bacon
domingo, 1 de junho de 2014
sábado, 31 de maio de 2014
Toda a humilhação leva à morte #25
«A arte tem de parar de cada vez um momento para descansar. Para esta aventura, é preciso uma geografia, uma viagem através de diferentes territórios... Temos de descansar um pouco para humanizar.»
Enzo Cucchi
sexta-feira, 30 de maio de 2014
quero outro dia no final da noite #4
«No fundo da matéria cresce uma
vegetação obscura; na noite da matéria
florescem flores negras. Elas já têm seu
veludo e a fórmula do seu perfume.»
Gaston Bachelard, “A Água e os Sonhos”, Martins Fontes, 1997
quinta-feira, 29 de maio de 2014
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Até hoje foi sempre futuro #16
Uma docilidade demasiado grande dos
órgãos poria em perigo a existência
terrestre. O espírito, no seu estado
presente, faria dela um uso destruidor.
Novalis
terça-feira, 27 de maio de 2014
Nós herdámos as margens #1
«Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte disso o lugar era execrável.»
Herberto Helder, "Os Passos em Volta", Assírio & Alvim, 2006
segunda-feira, 26 de maio de 2014
interpretose now #20
«Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio entre as coisas. As árvores e as ervas são silenciosas: se o vento as agita, ressoam. A água está silenciosa: movida pelo ar, ressoa. As ondas bramem: algo as oprime. A cascata precipita-se: falta-lhe o chão. O lago ferve: algo o aquece. São mudos os metais e as pedras, mas se algo os golpeia, ressoam. Assim é o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai da sua boca em forma de som deve-se a uma ruptura do seu equilíbrio. A música serve para soltar os sentimentos comprimidos no foro mais íntimo. Escolhemos os materiais que mais facilmente ressoam e com eles fabricamos instrumentos sonoros, metal e pedra, bambu e seda, cabaças e argila, pele e madeira. O céu não procede de outra maneira também ele escolhe aquilo que mais facilmente ressoa: os pássaros na Primavera, o trovão no Verão, os insectos no Outono, o vento no Inverno. Uma atrás da outra, as quatro estações perseguem-se numa caça que não tem fim. E o seu continuo transcorrer não é ele também a prova que o equilíbrio cósmico se rompeu? O mesmo sucede entre os homens.
O mais perfeito dos sons humanos é a palavra. A poesia, por sua vez, é a forma mais perfeita da palavra. E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens aqueles que são mais sensíveis e fá-los ressoar.»
Han Yu
Poeta chinês do séc. VII.
O mais perfeito dos sons humanos é a palavra. A poesia, por sua vez, é a forma mais perfeita da palavra. E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens aqueles que são mais sensíveis e fá-los ressoar.»
Han Yu
Poeta chinês do séc. VII.
domingo, 25 de maio de 2014
Chefe, precisamos de mentiras novas #27
«A ameaça hoje não é a passividade, mas a pseudo-actividade, a premência de "sermos activos", de "participarmos", de mascararmos o nada do que se move. As pessoas intervêm a todo o momento, estão sempre a "fazer alguma coisa"; os universitários participam em debates sem sentido, e assim por diante. O que é verdadeiramente difícil é darmos um passo atrás, abstermo-nos. Os que estão no poder preferem muitas vezes até mesmo uma participação crítica, um diálogo, ao silêncio: implicar-nos no "diálogo", de modo a assegurarem-se de que a nossa ameaçadora passividade foi quebrada. (...) Por vezes, não fazer nada é a coisa mais violenta que temos a fazer.»
Slavoj Žižek, "Violência", Relógio D’Água, 2009
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sábado, 24 de maio de 2014
a temperatura do corpo #38
«Passam os corpos e é isto: no momento em que aparecem, desaparecem.
Cada acção é ao mesmo tempo, monumento e fantasma.
Exibe-se e esconde-se: é como todos os corpos, aliás está a morrer no momento em que diz: vivo!
O actor tem um peso: por exemplo 80 quilos e a morte é o dia em que o mundo nos proíbe o peso, assim, de uma vez.
O meu corpo perderá o peso, mas por enquanto existo.
Nada mais deve dizer o actor.»
Gonçalo M. Tavares, "A Colher de Samuel Beckett e outros textos", Campo das Letras, 2002
sexta-feira, 23 de maio de 2014
O Homem é um grande faisão sobre a terra #6
«Os
mutantes (mutants) parecem‑se com o
leitor e comigo e comportam‑se como eu e o leitor nos comportamos. A natureza
física dos mutantes não se distingue da nossa. Se o leitor abrisse o cérebro de
um mutante, chegaria à conclusão de que ele funciona exactamente do mesmo modo
que o seu cérebro ou o meu. Se o leitor picar um mutante, ele soltará um “Ai!”,
exactamente como eu ou o leitor.
Ao contrário dos mortos‑vivos, os mutantes têm
consciência. Há um fantasma dentro deles. Mas os acontecimentos que ocorrem no
fantasma do mutante não são como é de esperar. Um mutante que seja picado, por
exemplo, pode ter experiência de um acontecimento mental, como ouvir um dó
central de um clarinete. Também ele soltará um “Ai!”, pois, dado que o cérebro
dele funciona como o nosso e ele se comporta como nós, ser picado com um
alfinete inicia processos que causam modificações que levam por fim a que ele
solte um “Ai!”, tal como todos nós. Quando ele, neste caso, ouvir um dó central
de um clarinete, talvez sinta uma dor horrível, mas isso não fará mais do que
fazê‑lo sorrir beatificamente. Um mutante que veja um marco de correio vermelho
poderá vê‑lo como se fosse amarelo; um mutante que veja narcisos poderá vê-los como
se fossem azuis. Um acontecimento que ocorra na consciência de um mutante não
apresenta qualquer relação com os acontecimentos que ocorrem na mente do leitor
ou na minha. Ou, pelo menos, qualquer relação com os acontecimentos que ocorrem
na minha mente. Pois, uma vez que considerei a possibilidade dos mutantes, dou‑me
conta de que não posso estar realmente seguro acerca de si, leitor, nem de
qualquer outra pessoa. Talvez todas as outras pessoas, quando comparadas
comigo, sejam mutantes.»
Simon Blackburn, "Pense", Gradiva, 2001
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quinta-feira, 22 de maio de 2014
Dicionário das causalidades #23
Z
Zeus
«A imagem mais aproximada das ideias de Platão encontra-se nos moldes para fragmentos do panejamento de Zeus que foram encontrados nos estúdio de Fídias, em Olímpia: igual e neutra a matéria, só varia a ondulação das pregas. No fim, permanecerá o decalque. Nós vivemos num armazém de decalques que perderam os seus moldes. Ao princípio era o molde.»
Roberto Calasso, "As Núpcias de Cadmo e Harmonia", Cotovia, 1998
«A imagem mais aproximada das ideias de Platão encontra-se nos moldes para fragmentos do panejamento de Zeus que foram encontrados nos estúdio de Fídias, em Olímpia: igual e neutra a matéria, só varia a ondulação das pregas. No fim, permanecerá o decalque. Nós vivemos num armazém de decalques que perderam os seus moldes. Ao princípio era o molde.»
Roberto Calasso, "As Núpcias de Cadmo e Harmonia", Cotovia, 1998
quarta-feira, 21 de maio de 2014
ninguém é filho das ervas #29
«o dobro do desejo é o amor, e o amor a dobrar é a loucura.»
Pródico, citado por Estobeu, século V d.C.
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