terça-feira, 3 de junho de 2014

Ouvido no estrangeiro #11



«Summer dress makes you more beautiful than the rest
Loveliest girl that I know and the sweetest
Spends her life inside, she thinks she isn't blessed

Summer dress separates you from the rest
Easiest days of her life have been spent
Wonders if she is loved, if she is missed

Says a prayer as she's kissed by ocean mist
Takes herself to the sand and dreams
Says a prayer as she's kissed by ocean mist
Takes herself to the sand and dreams»

Red House Painters, "Summer Dress",  Ocean Beach, 1995

segunda-feira, 2 de junho de 2014

ninguém é filho das ervas #30




«Não há dúvida de que somos carniça, somos carcaças em potência. Se vou a um talho acho sempre surpreendente não estar ali eu em vez do animal»
Francis Bacon

domingo, 1 de junho de 2014

dedicatória #26*



* dedicada a todos os esfoladores de joelhos.

sábado, 31 de maio de 2014

Toda a humilhação leva à morte #25



«A arte tem de parar de cada vez um momento para descansar. Para esta aventura, é preciso uma geografia, uma viagem através de diferentes territórios... Temos de descansar um pouco para humanizar.»

Enzo Cucchi

sexta-feira, 30 de maio de 2014

quero outro dia no final da noite #4



«No fundo da matéria cresce uma 
vegetação obscura; na noite da matéria 
florescem flores negras. Elas já têm seu 
veludo e a fórmula do seu perfume.» 

Gaston Bachelard, “A Água e os Sonhos”, Martins Fontes, 1997

quinta-feira, 29 de maio de 2014

prove que não é um robô #11



«Não se acredita do mesmo modo na verdade e na mentira»

Blas José Zambrano (1874-1938)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Até hoje foi sempre futuro #16



Uma docilidade demasiado grande dos 
órgãos poria em perigo a existência 
terrestre. O espírito,  no seu estado 
presente, faria dela um uso destruidor. 

Novalis


terça-feira, 27 de maio de 2014

Nós herdámos as margens #1




«Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte disso o lugar era execrável.»  

Herberto Helder, "Os Passos em Volta", Assírio & Alvim, 2006

segunda-feira, 26 de maio de 2014

interpretose now #20



«Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio entre as coisas. As árvores e as ervas são silenciosas: se o vento as agita, ressoam. A água está silenciosa: movida pelo ar, ressoa. As ondas bramem: algo as oprime. A cascata precipita-se: falta-lhe o chão. O lago ferve: algo o aquece. São mudos os metais e as pedras, mas se algo os golpeia, ressoam. Assim é o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai da sua boca em forma de som deve-se a uma ruptura do seu equilíbrio. A música serve para soltar os sentimentos comprimidos no foro mais íntimo. Escolhemos os materiais que mais facilmente ressoam e com eles fabricamos instrumentos sonoros, metal e pedra, bambu e seda, cabaças e argila, pele e madeira. O céu não procede de outra maneira também ele escolhe aquilo que mais facilmente ressoa: os pássaros na Primavera, o trovão no Verão, os insectos no Outono, o vento no Inverno. Uma atrás da outra, as quatro estações perseguem-se numa caça que não tem fim. E o seu continuo transcorrer não é ele também a prova que o equilíbrio cósmico se rompeu? O mesmo sucede entre os homens.  
O mais perfeito dos sons humanos é a palavra. A poesia, por sua vez, é a forma mais perfeita da palavra. E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens aqueles que são mais sensíveis e fá-los ressoar.» 

Han Yu  
Poeta chinês do séc. VII.


domingo, 25 de maio de 2014

Chefe, precisamos de mentiras novas #27




«A ameaça hoje não é a passividade, mas a pseudo-actividade, a premência de "sermos activos", de "participarmos", de mascararmos o nada do que se move. As pessoas intervêm a todo o momento, estão sempre a "fazer alguma coisa"; os universitários participam em debates sem sentido, e assim por diante. O que é verdadeiramente difícil é darmos um passo atrás, abstermo-nos. Os que estão no poder preferem muitas vezes até mesmo uma participação crítica, um diálogo, ao silêncio: implicar-nos no "diálogo", de modo a assegurarem-se de que a nossa ameaçadora passividade foi quebrada. (...) Por vezes, não fazer nada é a coisa mais violenta que temos a fazer.» 

Slavoj Žižek, "Violência", Relógio D’Água, 2009

sábado, 24 de maio de 2014

a temperatura do corpo #38



«Passam os corpos e é isto: no momento em que aparecem, desaparecem.
Cada acção é ao mesmo tempo, monumento e fantasma.
Exibe-se e esconde-se: é como todos os corpos, aliás está a morrer no momento em que diz: vivo!
O actor tem um peso: por exemplo 80 quilos e a morte é o dia em que o mundo nos proíbe o peso, assim, de uma vez. 
O meu corpo perderá o peso, mas por enquanto existo.
Nada mais deve dizer o actor.»

Gonçalo M. Tavares, "A Colher de Samuel Beckett e outros textos", Campo das Letras, 2002

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O Homem é um grande faisão sobre a terra #6



«Os mutantes (mutants) parecem‑se com o leitor e comigo e comportam‑se como eu e o leitor nos comportamos. A natureza física dos mutantes não se distingue da nossa. Se o leitor abrisse o cérebro de um mutante, chegaria à conclusão de que ele funciona exactamente do mesmo modo que o seu cérebro ou o meu. Se o leitor picar um mutante, ele soltará um “Ai!”, exactamente como eu ou o leitor.
Ao contrário dos mortos‑vivos, os mutantes têm consciência. Há um fantasma dentro deles. Mas os acontecimentos que ocorrem no fantasma do mutante não são como é de esperar. Um mutante que seja picado, por exemplo, pode ter experiência de um acontecimento mental, como ouvir um dó central de um clarinete. Também ele soltará um “Ai!”, pois, dado que o cérebro dele funciona como o nosso e ele se comporta como nós, ser picado com um alfinete inicia processos que causam modificações que levam por fim a que ele solte um “Ai!”, tal como todos nós. Quando ele, neste caso, ouvir um dó central de um clarinete, talvez sinta uma dor horrível, mas isso não fará mais do que fazê‑lo sorrir beatificamente. Um mutante que veja um marco de correio vermelho poderá vê‑lo como se fosse amarelo; um mutante que veja narcisos poderá vê-los como se fossem azuis. Um acontecimento que ocorra na consciência de um mutante não apresenta qualquer relação com os acontecimentos que ocorrem na mente do leitor ou na minha. Ou, pelo menos, qualquer relação com os acontecimentos que ocorrem na minha mente. Pois, uma vez que considerei a possibilidade dos mutantes, dou‑me conta de que não posso estar realmente seguro acerca de si, leitor, nem de qualquer outra pessoa. Talvez todas as outras pessoas, quando comparadas comigo, sejam mutantes.» 

Simon Blackburn, "Pense", Gradiva, 2001


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Dicionário das causalidades #23



Z

Zeus

«A imagem mais aproximada das ideias de Platão encontra-se nos moldes para fragmentos do panejamento de Zeus que foram encontrados nos estúdio de Fídias, em Olímpia: igual e neutra a matéria, só varia a ondulação das pregas. No fim, permanecerá o decalque. Nós vivemos num armazém de decalques que perderam os seus moldes. Ao princípio era o molde.»  

Roberto Calasso, "As Núpcias de Cadmo e Harmonia", Cotovia, 1998

quarta-feira, 21 de maio de 2014

ninguém é filho das ervas #29



«o dobro do desejo é o amor, e o amor a dobrar é a loucura.»   

Pródico, citado por Estobeu, século V d.C.

terça-feira, 20 de maio de 2014

diário dos mesmos pesares #38



























«O escritor que alguma vez desceu ao mercado começa por olhar em volta, como num «panorama»
Um género literário específico faz as suas primeiras tentativas de orientação. É a literatura panorâmica.» 

Walter Benjamin, “A Modernidade”, Assírio & Alvim, 2007



segunda-feira, 19 de maio de 2014

A vida não é um sonho #37



Trazemos em nós sementes de todos os deuses,
o gene da morte e o gene do prazer  - 
quem os separou: as palavras e as coisas,
quem os misturou: tormentos e o lugar
em que acabam, madeira com fiozinhos de lágrimas,
sede mesquinha de horas breves.

Não pode ser luto. Longe de mais, além de mais,
intocáveis de mais a cama e as lágrimas,
nem não, nem sim,
nascimento e dor física e crença,
uma ondulação, anónima, um deslizar,
algo de supraterreno, a fazer-se sentir no sono,
agitou cama e lágrimas - 
trata de adormecer!

Gottfried Benn, "50 poemas", Relógio D'Água, 1998    

domingo, 18 de maio de 2014

Perguntas Abandonadas #41



«o atlas e o mapa-mundo, por sumptuosos que sejam, não deixam escapar lugares essenciais, constelações de pontas de cuja importância não revela da geografia real e referencial, mas da geografia pessoal e afectiva? Lugares cifrados, desconhecidos de todos, refugiados na memória, que assinalam a minha presença no mundo e cuja ausência no mapa me reduz a nada.» 

Christian Jacob

sábado, 17 de maio de 2014

Recomposições de Metades #12

«só um Deus nos pode salvar»
Martin Heidegger 




«onde está o perigo está o que salva»
Friedrich Hölderlin

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Pausa do mundo #5


«A modernidade é o transitório, o fugidio, o contingente; é metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável» 

Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ouvido no estrangeiro #10



«Que la vida te sea llevadera.
Que la culpa no ahogue la esperanza.
Que no te rindas nunca.
Que el camino que tomes sea siempre elegido
entre dos por lo menos.
Que te importe la vida tanto como tú a ella.
Que no te atrape el vicio
de prolongar las despedidas.
Que el peso de la tierra sea leve
sobre tus pobres huesos.
Que tu recuerdo ponga lágrimas en los ojos
de quien nunca te dijo que te amaba.»

Amalia Bautista, "Estoy Ausente", Editorial Pre-Textos, 2004