terça-feira, 20 de maio de 2014

diário dos mesmos pesares #38



























«O escritor que alguma vez desceu ao mercado começa por olhar em volta, como num «panorama»
Um género literário específico faz as suas primeiras tentativas de orientação. É a literatura panorâmica.» 

Walter Benjamin, “A Modernidade”, Assírio & Alvim, 2007



segunda-feira, 19 de maio de 2014

A vida não é um sonho #37



Trazemos em nós sementes de todos os deuses,
o gene da morte e o gene do prazer  - 
quem os separou: as palavras e as coisas,
quem os misturou: tormentos e o lugar
em que acabam, madeira com fiozinhos de lágrimas,
sede mesquinha de horas breves.

Não pode ser luto. Longe de mais, além de mais,
intocáveis de mais a cama e as lágrimas,
nem não, nem sim,
nascimento e dor física e crença,
uma ondulação, anónima, um deslizar,
algo de supraterreno, a fazer-se sentir no sono,
agitou cama e lágrimas - 
trata de adormecer!

Gottfried Benn, "50 poemas", Relógio D'Água, 1998    

domingo, 18 de maio de 2014

Perguntas Abandonadas #41



«o atlas e o mapa-mundo, por sumptuosos que sejam, não deixam escapar lugares essenciais, constelações de pontas de cuja importância não revela da geografia real e referencial, mas da geografia pessoal e afectiva? Lugares cifrados, desconhecidos de todos, refugiados na memória, que assinalam a minha presença no mundo e cuja ausência no mapa me reduz a nada.» 

Christian Jacob

sábado, 17 de maio de 2014

Recomposições de Metades #12

«só um Deus nos pode salvar»
Martin Heidegger 




«onde está o perigo está o que salva»
Friedrich Hölderlin

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Pausa do mundo #5


«A modernidade é o transitório, o fugidio, o contingente; é metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável» 

Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ouvido no estrangeiro #10



«Que la vida te sea llevadera.
Que la culpa no ahogue la esperanza.
Que no te rindas nunca.
Que el camino que tomes sea siempre elegido
entre dos por lo menos.
Que te importe la vida tanto como tú a ella.
Que no te atrape el vicio
de prolongar las despedidas.
Que el peso de la tierra sea leve
sobre tus pobres huesos.
Que tu recuerdo ponga lágrimas en los ojos
de quien nunca te dijo que te amaba.»

Amalia Bautista, "Estoy Ausente", Editorial Pre-Textos, 2004

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Imediatamente embora pouco a pouco #40



«A vida em si, cada momento da vida, cada gota sua, aqui, neste instante, agora, ao Sol, era suficiente. Demasiado, até.»

Virgínia Woolf, "Mrs. Dalloway", Livros do Brasil, 1954

terça-feira, 13 de maio de 2014

o Osso do Meio #3



«Estou tentando te dizer de como cheguei ao neutro e ao inexpressivo de mim. Não sei se estou entendendo o que falo, estou sentindo - e receio muito o sentir, pois sentir é apenas um dos estilos de ser. No entanto, atravessarei o mormaço estupefacto que se incha do nada, e terei que entender o neutro com o sentir.
O neutro. Estou falando do elemento vital que liga as coisas. Oh, não receio que não compreendas, mas que eu me compreenda mal. Se eu não me compreender, morrerei daquilo de que no entanto vivo. Deixa agora eu te dizer o mais assustador:
Eu estava sendo levada pelo demoníaco.
Pois o inexpressivo é diabólico. Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco. Se a pessoa tiver coragem de largar os sentimentos, descobre a ampla vida de um silêncio extremamente ocupado, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos astros, o mesmo em si próprio - o demoníaco é antes do humano. E se a pessoa vê essa atualidade, ela se queima como se visse o Deus. A vida pré-humana divina é de uma atualidade que queima.»

Clarice Lispector, "A Paixão Segundo G.H.", Relógio D'Água, 2000

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Chefe, precisamos de mentiras novas #26




«Concepção científica do acaso: cada atitude, gesto, sonho (pessoais), são envolvidos pelo esquema mecânico imediato, este por um esquema maior (e mais longínquo) etc. De salto para salto, não há análise possível (senão parcelar e confusa). Fútil (sobretudo) debater as possibilidades, a própria existência, do grande operário que ordena (ou alimenta as ordens doutro) este esquema. E o outro às ordens de quem?
Por similitude, o carácter transforma-se num hábito, numa engrenagem. Livre arbítrio? Imaginação? Actos absorvidos em cadeias de actos, postos ao serviço de quê? Há, no entanto, certa aresta quase visível do problema: julga que progresso e acasos se confundem (nela). Como finalidade, não; apenas porque o mecanismo histórico é assim, e a sua natureza intrinsecamente moral (apesar de tanta circunstância perversa). Quanto ao resto, quem quiser perder tempo...» 

Carlos de Oliveira, "Finisterra",  Sá da Costa, 1984
  

domingo, 11 de maio de 2014

Perguntas Abandonadas #40



«51. Mas porque te ris do pobre D. Quixote por amar a Dulcineia, que não existia? Mas todo o homem só ama a mulher que não existe. E bom é isso. Porque se ela existisse, o amor deixava de existir. Mesmo que ele a ame, como supõe. Porque todo o amor só existe nos intervalos da pessoa amada existir. Fora desses intervalos não existe. Porque só existe essa pessoa real. Como a nossa casa só existe talvez quando estamos fora dela. Ou qualquer coisa assim.»

Vergílio Ferreira, "Pensar"‎, Bertrand Editora, 1992 

sábado, 10 de maio de 2014

Até hoje foi sempre futuro #15



«Em lugares quase ermos ou habitados,
As pessoas que se cruzam desconhecem-se.
Umas por detrás das outras, surgem
Como cópias. Não são, infelizmente, cópias
Da noite. Mas se alguma delas inovar,
Seu destaque é único. Não se rejuvenesce 
Porque o diverso é raro.» 

Maria Gabriela Llansol, "O Começo de um Livro é Precioso", Assírio e Alvim, 2003

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Recomposições de Metades #11


«respira o mal,
nos lábios, a frase da humilhação,
quer gritar,
mas o grito volta-se-lhe para dentro e começa a trabalhar a dor
esquiva.
O rancor.» 

Rui Nunes, "A Boca na Cinza",  Relógio d'Água, 2003

quinta-feira, 8 de maio de 2014

interpretose now #19




«sempre tive medo quando começo a escrever. só o sangue, o ranho, o suor, têm verdadeira dignidade de tinta. tenho medo de aperceber a nódoa de tinta permanente presa aos dedos, como se fosse um sinal indelével de doença incurável, vertiginosa. medo das feridas que alastram pelo interior do corpo, invisíveis, incuráveis como os textos. a memória destas textos é uma ferida com crosta de coral, reabre ao mais ligeiro respirar.

a tinta das palavras é semelhante a esta magra película de esperma ressequido. esgravato-o com a unha e surge um rosto, um corpo dentro doutro corpo. a dor.»

al berto

terça-feira, 6 de maio de 2014

o poeta sabe menos que o poema #18

























«Desprende-a de ti, põe-na no mundo com todo o poderio
que guarda dentro. Fá-la girar no mundo, girar
por obra do fôlego
como se fosses tu, girar com os poros à luz num equilíbrio 
perigoso
 –  flor com umbigo» 

Herberto Helder, "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim, 2001


segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Homem é um grande faisão sobre a terra #5
























«Por um curto-circuito eléctrico incompreensível o electrocutado foi o funcionário que baixou a alavanca e não o criminoso que se encontrava sentado na cadeira. 
Como não se conseguiu resolver a avaria, nas vezes seguintes o funcionário do governo sentava-se na cadeira eléctrica e era o criminoso que ficava encarregue de baixar a alavanca mortal.»

Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Brecht", Editorial Caminho, 2004

domingo, 4 de maio de 2014

dedicatória #25*






* dedicada a todas as ligações.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Imediatamente embora pouco a pouco #39



«deve estar na longa lista mas não de verbos, pois não indicará ação, não estará no ato, mas em substantivos concretos, enumerados devagar, sílaba a sílaba, coisa dormida esperando reconhecimento, deve estar lá antes de nós, não poderia se alguma coisa que tenha acontecido por nossa causa ou que fosse inaugurada por nós» 

Nuno Ramos, "Ó", Cotovia, 2010

quinta-feira, 1 de maio de 2014

quero outro dia no final da noite #3



«Para descrever o espectáculo, a sua formação, as suas funções e as forças que tendem para a sua dissolução, é preciso distinguir artificialmente elementos inseparáveis. Ao analisar o espectáculo, fala-se em certa medida a própria linguagem do espectacular, no sentido em que se pisa o terreno metodológico desta sociedade que se exprime no espectáculo. Mas o espectáculo não é outra coisa senão o sentido da prática total de uma formação económico-social, o seu emprego do tempo. É o momento histórico que nos contém. »

Guy Debord, "A Sociedade do Espectáculo", Edições Antipáticas, 2010