sábado, 17 de maio de 2014

Recomposições de Metades #12

«só um Deus nos pode salvar»
Martin Heidegger 




«onde está o perigo está o que salva»
Friedrich Hölderlin

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Pausa do mundo #5


«A modernidade é o transitório, o fugidio, o contingente; é metade da arte, sendo a outra metade o eterno e o imutável» 

Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ouvido no estrangeiro #10



«Que la vida te sea llevadera.
Que la culpa no ahogue la esperanza.
Que no te rindas nunca.
Que el camino que tomes sea siempre elegido
entre dos por lo menos.
Que te importe la vida tanto como tú a ella.
Que no te atrape el vicio
de prolongar las despedidas.
Que el peso de la tierra sea leve
sobre tus pobres huesos.
Que tu recuerdo ponga lágrimas en los ojos
de quien nunca te dijo que te amaba.»

Amalia Bautista, "Estoy Ausente", Editorial Pre-Textos, 2004

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Imediatamente embora pouco a pouco #40



«A vida em si, cada momento da vida, cada gota sua, aqui, neste instante, agora, ao Sol, era suficiente. Demasiado, até.»

Virgínia Woolf, "Mrs. Dalloway", Livros do Brasil, 1954

terça-feira, 13 de maio de 2014

o Osso do Meio #3



«Estou tentando te dizer de como cheguei ao neutro e ao inexpressivo de mim. Não sei se estou entendendo o que falo, estou sentindo - e receio muito o sentir, pois sentir é apenas um dos estilos de ser. No entanto, atravessarei o mormaço estupefacto que se incha do nada, e terei que entender o neutro com o sentir.
O neutro. Estou falando do elemento vital que liga as coisas. Oh, não receio que não compreendas, mas que eu me compreenda mal. Se eu não me compreender, morrerei daquilo de que no entanto vivo. Deixa agora eu te dizer o mais assustador:
Eu estava sendo levada pelo demoníaco.
Pois o inexpressivo é diabólico. Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco. Se a pessoa tiver coragem de largar os sentimentos, descobre a ampla vida de um silêncio extremamente ocupado, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos astros, o mesmo em si próprio - o demoníaco é antes do humano. E se a pessoa vê essa atualidade, ela se queima como se visse o Deus. A vida pré-humana divina é de uma atualidade que queima.»

Clarice Lispector, "A Paixão Segundo G.H.", Relógio D'Água, 2000

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Chefe, precisamos de mentiras novas #26




«Concepção científica do acaso: cada atitude, gesto, sonho (pessoais), são envolvidos pelo esquema mecânico imediato, este por um esquema maior (e mais longínquo) etc. De salto para salto, não há análise possível (senão parcelar e confusa). Fútil (sobretudo) debater as possibilidades, a própria existência, do grande operário que ordena (ou alimenta as ordens doutro) este esquema. E o outro às ordens de quem?
Por similitude, o carácter transforma-se num hábito, numa engrenagem. Livre arbítrio? Imaginação? Actos absorvidos em cadeias de actos, postos ao serviço de quê? Há, no entanto, certa aresta quase visível do problema: julga que progresso e acasos se confundem (nela). Como finalidade, não; apenas porque o mecanismo histórico é assim, e a sua natureza intrinsecamente moral (apesar de tanta circunstância perversa). Quanto ao resto, quem quiser perder tempo...» 

Carlos de Oliveira, "Finisterra",  Sá da Costa, 1984
  

domingo, 11 de maio de 2014

Perguntas Abandonadas #40



«51. Mas porque te ris do pobre D. Quixote por amar a Dulcineia, que não existia? Mas todo o homem só ama a mulher que não existe. E bom é isso. Porque se ela existisse, o amor deixava de existir. Mesmo que ele a ame, como supõe. Porque todo o amor só existe nos intervalos da pessoa amada existir. Fora desses intervalos não existe. Porque só existe essa pessoa real. Como a nossa casa só existe talvez quando estamos fora dela. Ou qualquer coisa assim.»

Vergílio Ferreira, "Pensar"‎, Bertrand Editora, 1992 

sábado, 10 de maio de 2014

Até hoje foi sempre futuro #15



«Em lugares quase ermos ou habitados,
As pessoas que se cruzam desconhecem-se.
Umas por detrás das outras, surgem
Como cópias. Não são, infelizmente, cópias
Da noite. Mas se alguma delas inovar,
Seu destaque é único. Não se rejuvenesce 
Porque o diverso é raro.» 

Maria Gabriela Llansol, "O Começo de um Livro é Precioso", Assírio e Alvim, 2003

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Recomposições de Metades #11


«respira o mal,
nos lábios, a frase da humilhação,
quer gritar,
mas o grito volta-se-lhe para dentro e começa a trabalhar a dor
esquiva.
O rancor.» 

Rui Nunes, "A Boca na Cinza",  Relógio d'Água, 2003

quinta-feira, 8 de maio de 2014

interpretose now #19




«sempre tive medo quando começo a escrever. só o sangue, o ranho, o suor, têm verdadeira dignidade de tinta. tenho medo de aperceber a nódoa de tinta permanente presa aos dedos, como se fosse um sinal indelével de doença incurável, vertiginosa. medo das feridas que alastram pelo interior do corpo, invisíveis, incuráveis como os textos. a memória destas textos é uma ferida com crosta de coral, reabre ao mais ligeiro respirar.

a tinta das palavras é semelhante a esta magra película de esperma ressequido. esgravato-o com a unha e surge um rosto, um corpo dentro doutro corpo. a dor.»

al berto

terça-feira, 6 de maio de 2014

o poeta sabe menos que o poema #18

























«Desprende-a de ti, põe-na no mundo com todo o poderio
que guarda dentro. Fá-la girar no mundo, girar
por obra do fôlego
como se fosses tu, girar com os poros à luz num equilíbrio 
perigoso
 –  flor com umbigo» 

Herberto Helder, "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim, 2001


segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Homem é um grande faisão sobre a terra #5
























«Por um curto-circuito eléctrico incompreensível o electrocutado foi o funcionário que baixou a alavanca e não o criminoso que se encontrava sentado na cadeira. 
Como não se conseguiu resolver a avaria, nas vezes seguintes o funcionário do governo sentava-se na cadeira eléctrica e era o criminoso que ficava encarregue de baixar a alavanca mortal.»

Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Brecht", Editorial Caminho, 2004

domingo, 4 de maio de 2014

dedicatória #25*






* dedicada a todas as ligações.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Imediatamente embora pouco a pouco #39



«deve estar na longa lista mas não de verbos, pois não indicará ação, não estará no ato, mas em substantivos concretos, enumerados devagar, sílaba a sílaba, coisa dormida esperando reconhecimento, deve estar lá antes de nós, não poderia se alguma coisa que tenha acontecido por nossa causa ou que fosse inaugurada por nós» 

Nuno Ramos, "Ó", Cotovia, 2010

quinta-feira, 1 de maio de 2014

quero outro dia no final da noite #3



«Para descrever o espectáculo, a sua formação, as suas funções e as forças que tendem para a sua dissolução, é preciso distinguir artificialmente elementos inseparáveis. Ao analisar o espectáculo, fala-se em certa medida a própria linguagem do espectacular, no sentido em que se pisa o terreno metodológico desta sociedade que se exprime no espectáculo. Mas o espectáculo não é outra coisa senão o sentido da prática total de uma formação económico-social, o seu emprego do tempo. É o momento histórico que nos contém. »

Guy Debord, "A Sociedade do Espectáculo", Edições Antipáticas, 2010

quarta-feira, 30 de abril de 2014

a temperatura do corpo #37



«É difícil viver aqui, respirar, mexer os dedos ao pé da respiração, olhar junto ao movimento do corpo, ter um corpo no meio da sombra, um nome com a sua luz própria na dilatação obscura dos nomes. Contudo é preciso viver, tem de se andar, para trás ou para frente, porque há o fermento no corpo, o sangue, a irradiação dita pernas e braços, é-se bípede, quadrúpede, miriápode – vem-se dar sempre a este sítio que devorou a rosa cardeal.» 

Herberto Helder, ”Retrato em Movimento”, Editora Ulisseia, 1967

terça-feira, 29 de abril de 2014

Ela tem os teus olhos #11



«Os processos de raciocínio de nada nos podem valer. Mesmo pressupondo que reflectimos enquanto vemos televisão, isso não impede a passagem das imagens. Entram no nosso cérebro. Permanecem para sempre. Não podemos afirmar com exatidão quais as nossas imagens ou as oriundas de locas distantes. Imaginação e realidade fundem-se. Perdemos o domínio da nossa própria mente.» 

Jerry Mander, "Quatro Argumentos Para Acabar com a Televisão", Antígona, 1999

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Teoria da Conspiração #50 (ou o Ponto Vazio da Jaula)



Não existe uma rigorosa distinção entre símbolo e alegoria, na medida em que a alegoria é a própria simbologia em decomposição, morta por hipertrofia. Todavia, nessa decomposição do símbolo liberta-se um poder imenso, o frio sentido algébrico, o que permite criar com soberano arbítrio as convenções, impor que qualquer coisa possa substituir qualquer outra coisa. «A alegoria seiscentista não é convenção da expressão, mas expressão da convenção»: assim se cria também o mito da escrita, perene festim de morte, entregue à «volúpia com que o significado domina, como um tenebroso sultão, no harém das coisas». A alegoria incontrolável, agora subtraída a uma ordem viva do sentido, mera obrigação de procurar imagens e de ir elaborando sempre o seu significado através de lacerações combinatórias, provoca acima de tudo o extravasar das próprias imagens: tal como os objectos invadem obsessivamente a cena do teatro barroco, até se converterem nos verdadeiros protagonistas, também as figuras irrompem como ameaças nos livros de emblemas, comemorando a cisão progrediente entre imagem e significado. Quem é que, ao abrir Emblematum Liber de Alciato e ao ver uma mão cortada com um olho na palma, pousada em pleno céu, numa paisagem campestre, poderá pensar na prudência, como pretendia o texto do emblema? Reconhecerá, pelo contrário, a vivisecção do corpo humano, uma muda alusão ao estado de natureza como obra de alvenaria e a insconsciente instauração do fragmento como categoria dominante do estético. Com a acumulação destes materiais prepara-se a ribalta do moderno. A história de então prefigura a verdadeira história dos nossos dias: aquelas imagens, então saídas para o mundo, como feras saídas da jaula, continuam a vaguear pelo mundo. Kafka descreveu-as: «Leopardos irrompem pelo templo e esvaziam os vasos dos sacrifícios; isso repete-se sempre; no fim, pode prever-se, e torna-se uma parte da cerimónia». Alegoricamente, o escritor é aquele que assiste a essa cena.

Roberto Calasso, "Os Quarenta e Nove Degraus", Cotovia, 1998