sábado, 10 de maio de 2014

Até hoje foi sempre futuro #15



«Em lugares quase ermos ou habitados,
As pessoas que se cruzam desconhecem-se.
Umas por detrás das outras, surgem
Como cópias. Não são, infelizmente, cópias
Da noite. Mas se alguma delas inovar,
Seu destaque é único. Não se rejuvenesce 
Porque o diverso é raro.» 

Maria Gabriela Llansol, "O Começo de um Livro é Precioso", Assírio e Alvim, 2003

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Recomposições de Metades #11


«respira o mal,
nos lábios, a frase da humilhação,
quer gritar,
mas o grito volta-se-lhe para dentro e começa a trabalhar a dor
esquiva.
O rancor.» 

Rui Nunes, "A Boca na Cinza",  Relógio d'Água, 2003

quinta-feira, 8 de maio de 2014

interpretose now #19




«sempre tive medo quando começo a escrever. só o sangue, o ranho, o suor, têm verdadeira dignidade de tinta. tenho medo de aperceber a nódoa de tinta permanente presa aos dedos, como se fosse um sinal indelével de doença incurável, vertiginosa. medo das feridas que alastram pelo interior do corpo, invisíveis, incuráveis como os textos. a memória destas textos é uma ferida com crosta de coral, reabre ao mais ligeiro respirar.

a tinta das palavras é semelhante a esta magra película de esperma ressequido. esgravato-o com a unha e surge um rosto, um corpo dentro doutro corpo. a dor.»

al berto

terça-feira, 6 de maio de 2014

o poeta sabe menos que o poema #18

























«Desprende-a de ti, põe-na no mundo com todo o poderio
que guarda dentro. Fá-la girar no mundo, girar
por obra do fôlego
como se fosses tu, girar com os poros à luz num equilíbrio 
perigoso
 –  flor com umbigo» 

Herberto Helder, "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim, 2001


segunda-feira, 5 de maio de 2014

O Homem é um grande faisão sobre a terra #5
























«Por um curto-circuito eléctrico incompreensível o electrocutado foi o funcionário que baixou a alavanca e não o criminoso que se encontrava sentado na cadeira. 
Como não se conseguiu resolver a avaria, nas vezes seguintes o funcionário do governo sentava-se na cadeira eléctrica e era o criminoso que ficava encarregue de baixar a alavanca mortal.»

Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Brecht", Editorial Caminho, 2004

domingo, 4 de maio de 2014

dedicatória #25*






* dedicada a todas as ligações.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Imediatamente embora pouco a pouco #39



«deve estar na longa lista mas não de verbos, pois não indicará ação, não estará no ato, mas em substantivos concretos, enumerados devagar, sílaba a sílaba, coisa dormida esperando reconhecimento, deve estar lá antes de nós, não poderia se alguma coisa que tenha acontecido por nossa causa ou que fosse inaugurada por nós» 

Nuno Ramos, "Ó", Cotovia, 2010

quinta-feira, 1 de maio de 2014

quero outro dia no final da noite #3



«Para descrever o espectáculo, a sua formação, as suas funções e as forças que tendem para a sua dissolução, é preciso distinguir artificialmente elementos inseparáveis. Ao analisar o espectáculo, fala-se em certa medida a própria linguagem do espectacular, no sentido em que se pisa o terreno metodológico desta sociedade que se exprime no espectáculo. Mas o espectáculo não é outra coisa senão o sentido da prática total de uma formação económico-social, o seu emprego do tempo. É o momento histórico que nos contém. »

Guy Debord, "A Sociedade do Espectáculo", Edições Antipáticas, 2010

quarta-feira, 30 de abril de 2014

a temperatura do corpo #37



«É difícil viver aqui, respirar, mexer os dedos ao pé da respiração, olhar junto ao movimento do corpo, ter um corpo no meio da sombra, um nome com a sua luz própria na dilatação obscura dos nomes. Contudo é preciso viver, tem de se andar, para trás ou para frente, porque há o fermento no corpo, o sangue, a irradiação dita pernas e braços, é-se bípede, quadrúpede, miriápode – vem-se dar sempre a este sítio que devorou a rosa cardeal.» 

Herberto Helder, ”Retrato em Movimento”, Editora Ulisseia, 1967

terça-feira, 29 de abril de 2014

Ela tem os teus olhos #11



«Os processos de raciocínio de nada nos podem valer. Mesmo pressupondo que reflectimos enquanto vemos televisão, isso não impede a passagem das imagens. Entram no nosso cérebro. Permanecem para sempre. Não podemos afirmar com exatidão quais as nossas imagens ou as oriundas de locas distantes. Imaginação e realidade fundem-se. Perdemos o domínio da nossa própria mente.» 

Jerry Mander, "Quatro Argumentos Para Acabar com a Televisão", Antígona, 1999

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Teoria da Conspiração #50 (ou o Ponto Vazio da Jaula)



Não existe uma rigorosa distinção entre símbolo e alegoria, na medida em que a alegoria é a própria simbologia em decomposição, morta por hipertrofia. Todavia, nessa decomposição do símbolo liberta-se um poder imenso, o frio sentido algébrico, o que permite criar com soberano arbítrio as convenções, impor que qualquer coisa possa substituir qualquer outra coisa. «A alegoria seiscentista não é convenção da expressão, mas expressão da convenção»: assim se cria também o mito da escrita, perene festim de morte, entregue à «volúpia com que o significado domina, como um tenebroso sultão, no harém das coisas». A alegoria incontrolável, agora subtraída a uma ordem viva do sentido, mera obrigação de procurar imagens e de ir elaborando sempre o seu significado através de lacerações combinatórias, provoca acima de tudo o extravasar das próprias imagens: tal como os objectos invadem obsessivamente a cena do teatro barroco, até se converterem nos verdadeiros protagonistas, também as figuras irrompem como ameaças nos livros de emblemas, comemorando a cisão progrediente entre imagem e significado. Quem é que, ao abrir Emblematum Liber de Alciato e ao ver uma mão cortada com um olho na palma, pousada em pleno céu, numa paisagem campestre, poderá pensar na prudência, como pretendia o texto do emblema? Reconhecerá, pelo contrário, a vivisecção do corpo humano, uma muda alusão ao estado de natureza como obra de alvenaria e a insconsciente instauração do fragmento como categoria dominante do estético. Com a acumulação destes materiais prepara-se a ribalta do moderno. A história de então prefigura a verdadeira história dos nossos dias: aquelas imagens, então saídas para o mundo, como feras saídas da jaula, continuam a vaguear pelo mundo. Kafka descreveu-as: «Leopardos irrompem pelo templo e esvaziam os vasos dos sacrifícios; isso repete-se sempre; no fim, pode prever-se, e torna-se uma parte da cerimónia». Alegoricamente, o escritor é aquele que assiste a essa cena.

Roberto Calasso, "Os Quarenta e Nove Degraus", Cotovia, 1998

sábado, 26 de abril de 2014

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #23



«O drama que existiu entre os dois ainda não acabou: ele continua a vir todas as noites a este café para a ver, para reabrir a velha ferida, talvez para saber quem é que a leva para casa esta noite; e ela vem todas as noites a este café se calhar de propósito para o fazer sofrer, ou talvez esperando que o hábito de sofrer se torne para ele um hábito como outro qualquer, adquirindo o sabor do nada que há anos lhe empasta a boca e a vida.»

Italo Calvino, "Se Numa Noite de Inverno um Viajante", Editorial Teorema, 2009

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Chefe, precisamos de mentiras novas #25



«Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.»

Jorge de Sena, "Poesia 2. Fidelidade, Metamorfoses, seguidas de Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena, Arte de música", Moraes Editores, 1978


quinta-feira, 24 de abril de 2014

espécie de oração particular #36




«Meu mestre e meu guia!   
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,   
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,   
Natural como um dia mostrando tudo,   
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.   
Meu coração não aprendeu nada.   
Meu coração não é nada,   
Meu coração está perdido.   
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.   
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!   
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,   
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,   
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,   
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.   
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento  
Pela indiferença de toda a vila.   
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,   
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.   
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,   
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.   
Depois, mas por que é que ensinaste a clareza da vista,   
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?   
Por que é que me chamaste para o alto dos montes  
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?   
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela  
Como quem está carregado de ouro num deserto,   
Ou canta com voz divina entre ruínas?   
Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,   
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?» 

Fernando Pessoa, "Poesias de Álvaro de Campos", Ática, 1993

terça-feira, 22 de abril de 2014

quero outra noite no fim do dia #22



«todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetecia ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressaltam-me. desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer, que mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado, nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.» 

Al Berto, “O medo”, Assírio & Alvim, 1997

segunda-feira, 21 de abril de 2014

diário dos mesmos pesares #37

«No lance do verbo jogo,
Mas, se vigio o meu lado, 
A boca sabe-me a fogo 
Do sentido inesperado.»


«Flato de voz é morte irreparável, 
Só Verbo é vida: 
Aquele que tenta o inefável 
Fala de voz proibida.»

Vitorino Nemésio, "O Verbo e a Morte", Moraes Editora, 1959