terça-feira, 11 de março de 2014

quero outro dia no final da noite #2



«A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
— Amanheça, por favor!»

Paulo Leminski e outros, "Caminho da Poesia", Global Editora, 2006

segunda-feira, 10 de março de 2014

proibido afixar #13



«A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que [se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.»

Hélia Correia,”A Terceira Miséria”, Relógio D'Água, 2012

domingo, 9 de março de 2014

o poeta sabe menos que o poema #15



«O mundo moderno 
A velocidade nada pode
O mundo moderno
Os lugares afastados ficam demasiado longe 
E no fim da viagem é terrível um homem
       com uma mulher...
  
"Diz-me, Blaise, estamos muito longe de Montmartre?"

Tenho pena tenho pena vem vou-te contar uma história
Vem para a minha casa
Vem para o meu peito
Vou contar-te uma história...

Vem! Vem!»

Blaise Cendrars, "Poesia em Viagem", Assírio & Alvim, 2005

sábado, 8 de março de 2014

prove que não é um robô #9



«We are everyday robots on our phones,
In the process of getting home.
Looking like standing stones,
Out there on our own.

We're everyday robots in control,
In the process of being sold.
Driving in adjacent cars,
'Til we press 'restart.'

(They didn't know where it was going on, but they knew what it was, wasn't it?)

Everyday robots just touch thumbs.
Swimin' in lingo, they become,
Stricken in a state of sleep.
One more vacant seat.

For everyday robots getting old,
When our lips are cold.
Looking like standing stones,
Out there on our own.»

Damon Albarn, "Everyday Robots", Parlophone, 2014

sexta-feira, 7 de março de 2014

Não respire... (ou leituras em apneia) #11



«Amalie está sentada no chão. Os copos de vinho estão alinhados por alturas. Os copos de aguardente brilham. As flores leitosas no bojo das taças de fruta são rígidas. As jarras de flores estão arrumadas ao longo da parede. A um canto está o jarrão.
Amalie segura na mão a caixinha com a lágrima.
Amalie ouve a voz do alfaiate martelando-lhe as fontes: "Ele nunca fez mal a ninguém." Amalie sente uma brasa queimando-lhe a testa.
Amalie sente a boca do polícia no pescoço. O bafo dele cheira a aguardente. Aperta-lhe os joelhos com as mãos. Levanta-lhe o vestido "Ce dulce esti", diz o polícia. O seu boné está junto do sapato. Os botões do casaco reluzem.
O polícia desabotoa o casaco. "Despe-te", diz ele. Debaixo do casaco azul, traz uma cruz de prata. O padre despe a sotaina preta. Afasta uma madeixa de cabelo da face de Amalie. "Limpa o baton," diz ele. O polícia beija o ombro de Amalie. A cruz de prata fica-lhe pendurada em frente da boca. O padre acaricia as coxas de Amalie. "Despe a combinação", diz ele.
Amalie vê o altar pela porta aberta. Entre as rosas está um telefone preto. A cruz de prata está pendurada entre os seios de Amalie. As mãos do polícia apertam os seios de Amalie. "Tens um belos marmelos", diz o padre. Tem a boca molhada. O cabelo de Amalie cai pela borda da cama. As sandálias brancas estão debaixo da cadeira. O polícia sussurra: "Cheiras bem." As mãos do padre são brancas. O vestido vermelho brilha aos pés da cama de ferro. Entre as rosas toca o telefone preto. "Agora não tenho tempo", diz o polícia contrafeito. As coxas do padre são pesadas. "Cruza as pernas nas minhas costas", sussurra ele. A cruz de prata magoa o ombro de Amalie. O policia tem a testa molhada. "Volta-te", diz ele. A sotaina preta está pendurada no prego comprido atrás da porta. O padre tem o nariz frio. "Meu pequeno anjo", diz ele arquejando.
Amalie sente os saltos das sandálias brancas no ventre. A brasa da testa queima-lhe os olhos. A língua de Amalie faz pressão na boca. A cruz de prata brilha na vidraça. Na macieira está suspensa uma sombra. É negra e revolta. A sombra é uma tumba.
Windisch está à porta do quarto. "Estás surda», diz ele. Estende a mala grande em direcção a Amalie. Amalie vira o rosto para a porta. Tem as faces molhadas. "Eu sei", diz Windisch, "as despedidas são difíceis." Ele é muito alto no quarto vazio. "Agora é outra vez como na guerra", diz ele. "Vai-se e não se sabe se e como e quando se volta."
Amalie volta a encher a lágrima. "Com a água do poço não fica tão molhada", diz ela. A mulher de Windisch guarda os pratos na mala. Pega na lágrima na mão. As maçãs do rosto são macias e os lábios húmidos. "Parece impossível que haja coisas destas", diz ela.
Windisch sente a voz dela na cabeça. Atira o casaco para dentro da mala. "Já estou farto dela", grita, "não quero voltar a vê-la." Deixa pender a cabeça. E em voz baixa acrescenta: "Não faz senão entristecer as pessoas."
A mulher de Windisch enfia os talheres entre os pratos. "Lá isso é verdade", diz ela. Windisch olha para o dedo que ela tirara dos pêlos cheios de visco. Observa a fotografia no seu passaporte. Abana a cabeça. "É um passo difícil", diz ele.
As peças de vidro de Amalie brilham dentro da mala. As manchas brancas nas paredes do quarto crescem. O chão está frio. A lâmpada lança longos raios de luz para dentro da mala.
Windisch mete os passaportes no bolso do casaco. "Sabe-se lá o que vai ser de nós", suspira a mulher de Windisch. Windisch olha os raios penetrantes da lâmpada. Amalie e a mulher de Windisch fecham as malas.»

Herta Müller, "O Homem é um Grande Faisão Sobre a Terra", Cotovia, 1993

Pode respirar.

quarta-feira, 5 de março de 2014

a perfeição é uma dada forma de imperfeição #8



«Enquanto assim estiveram davam-se todos à oração o mais do tempo, e a práticas espirituais. Faziam-se promessas de diferentes votos, quais neste conflitos da morte se soem fazer; pediam uns aos outros perdão, amigando-se todos os que estavam em ódio, e diferenças, que ainda em tão triste jornada não se falavam, porque tal é a fraqueza humana, que ainda à vista da morte não perde ponto em matéria de honra.»

Bernardo Gomes De Brito, "História Trágico-Marítima", Círculo De Leitores, 1994 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Retrato de Família #28



Maria Gabriela L. Karamazov (1931-2008)

«Seguindo esta linha de viver, chegarei ao fim dos meus dias; considero a velhice presente em todas as partes do meu destino, e muitas vezes confundi maturidade e mocidade, ignorando as distinções que não me forem naturais.»

sábado, 1 de março de 2014

diário dos mesmos pesares #36



«Hoje de manhã, ao acordar,
pensei:
hoje, o amor vai assaltar-te
embora não soubesse como ele é
nem o que vale.»


Jürgen Theobaldy in "A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas", selecção e tradução de João Barrento, Relógio D' Água, 2001

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Orelhas de Elefante #41


«E tu, canção – mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de ser discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora»

Jorge de Sena

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Dicionário das causalidades #22



X

Xiu

«Nenhum riso antes do meio-dia.
Severa proibição, cumprida sem grande esforço porque são terras onde se ri pouco e se acusa o riso, 
como a volubilidade, de baixar a reserva de mágicas»

Henri Michaux, "No País da Magia", Hiena Editora, 1987

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

a queda do barbeiro



 ©Benigni,Roberto;2005

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

a perfeição é uma dada forma de imperfeição #7


«Era uma vez três seres sob o signo do humano, de uma pureza dissoluta.
Não absoluta, porque o absoluto é vão.»
(M. G. Llansol, Caderno 1.15, 332 | 20.3.1984)


«Naturalmente, como a consciência estética apenas tem consciência de uma parte do que faz, o esforço para atingir a absoluta necessidade e, por essa via, a vanidade absoluta é, ele próprio, sempre vão.»
(Maurice Blanchot, Faux pas, 1943)

domingo, 23 de fevereiro de 2014

o Osso do Meio #1




«Bem sei que até a luz do Sol pode dizer mentiras, mas não era visível que nenhum jogo de luz ou pose pudesse dar-lhe ao rosto um ar de tão delicada ingenuidade. Parecia pronta a ouvir-nos sem reservas mentais, sem suspeitas, sem pensamentos reservados. Acabei por resolver que iria eu próprio devolver-lhe o retrato e as cartas. Curiosidade? Sim, mas sentimentos de outra espécie, talvez. Todo o espólio de Kurtz me passara pelas mãos: - alma, corpo, o posto, os planos, o marfim, a carreira. Só restavam a sua memória, a sua Prometida - e de certo modo eu queria restituir aquilo ao passado - eu próprio entregar tudo quanto me restava dele ao esquecimento que era palavra última do nosso destino comum. Não estou a defender-me. Eu não tinha uma percepção clara do que realmente se passava em mim. Talvez fosse um impulso de inconsciente lealdade ou satisfação de uma destas exigências irónicas que espreitam nos actos da vida humana. Sei lá. Não posso dizê-lo. Mas fui.»

Joseph Conrad, “O Coração das Trevas”, Editorial Estampa, 2006

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Teoria da Conspiração #48 (ou a Purgação da Mora Incerta)



«- Recebe muito por este trabalho? - perguntou Jaimemorto.
 - Fornecem-me a barca - disse o homem - e pagam-me em vergonha e em oiro.
À palavra "vergonha", Jaimemorto instintivamente recuou e isso chateou-o.
 - Tenho uma casa - disse o homem que, reparando no gesto de Jaimemorto, sorria. - Dão-me de comer. Dão-me oiro. Muito oiro. Mas não tenho o direito de o gastar.  Ninguém me quer vender nada. Tenho uma casa e muito oiro, mas sou obrigado a digerir a vergonha da aldeia inteira. Pagam-me para  eu ter remorsos, em vez deles. De tudo o que de mal ou ímpio fazem. De todos os seus vícios. Dos seus crimes. Da feira dos velhos. dos animais torturados. Dos aprendizes. E do lixo.
Calou-se por uns momentos.»

Boris Vian, "O Arranca Corações", Editorial Estampa, 1970

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Homem é um grande faisão sobre a terra #4



«Encontrava-me de vigia no mastro de traquete e, com as espáduas apoiadas às enxárcias do sobre da proa, deixava-me embalar preguiçosamente naquela atmosfera encantada.
Antes de me abandonar porém um total esquecimento de tudo, tinha observado que os vigias do mastro grande e do mastro da gata dormitavam, de tal modo que, afinal de contas, nos balouçávamos todos três sem vida no estais e a cada oscilação correspondia um cabecear do timoneiro sonolento do timão. As vagas cabeceavam indolentes e, no meio do grande entorpecimento do mar, o Leste pendia a cabeça para o Oeste e, por cima de tudo, o próprio Sol dormia.
Subitamente, foi como se bolhas gigantescas me rebentassem debaixo das pálpebras. Agarrei-me às enxárcias com as mãos crispadas. Uma força qualquer invisível e amiga acabava de me salvar.» 

Herman Melville, "Moby Dick", Relógio D'Água, 2007  

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

interpretose now #16



«Observai o observador observado». 
William S. Burroughs