«E tu, canção – mensagem, vai e diz o que disseste a quem quiser ouvir-te. E se os puristas da poesia te acusarem de ser discursiva e não galante em graças de invenção e de linguagem, manda-os àquela parte. Não é tempo para tratar de poéticas agora» Jorge de Sena
«Era uma vez três seres sob o signo do humano, de uma pureza dissoluta. Não absoluta, porque o absoluto é vão.»
(M. G. Llansol, Caderno 1.15, 332 | 20.3.1984)
«Naturalmente, como a consciência estética apenas tem consciência de uma parte do que faz, o esforço para atingir a absoluta necessidade e, por essa via, a vanidade absoluta é, ele próprio, sempre vão.»
«Bem sei que até a luz do Sol pode dizer mentiras, mas não era visível que nenhum jogo de luz ou pose pudesse dar-lhe ao rosto um ar de tão delicada ingenuidade. Parecia pronta a ouvir-nos sem reservas mentais, sem suspeitas, sem pensamentos reservados. Acabei por resolver que iria eu próprio devolver-lhe o retrato e as cartas. Curiosidade? Sim, mas sentimentos de outra espécie, talvez. Todo o espólio de Kurtz me passara pelas mãos: - alma, corpo, o posto, os planos, o marfim, a carreira. Só restavam a sua memória, a sua Prometida - e de certo modo eu queria restituir aquilo ao passado - eu próprio entregar tudo quanto me restava dele ao esquecimento que era palavra última do nosso destino comum. Não estou a defender-me. Eu não tinha uma percepção clara do que realmente se passava em mim. Talvez fosse um impulso de inconsciente lealdade ou satisfação de uma destas exigências irónicas que espreitam nos actos da vida humana. Sei lá. Não posso dizê-lo. Mas fui.» Joseph Conrad, “O Coração das Trevas”, Editorial Estampa, 2006
«- Recebe muito por este trabalho? - perguntou Jaimemorto. - Fornecem-me a barca - disse o homem - e pagam-me em vergonha e em oiro. À palavra "vergonha", Jaimemorto instintivamente recuou e isso chateou-o. - Tenho uma casa - disse o homem que, reparando no gesto de Jaimemorto, sorria. - Dão-me de comer. Dão-me oiro. Muito oiro. Mas não tenho o direito de o gastar. Ninguém me quer vender nada. Tenho uma casa e muito oiro, mas sou obrigado a digerir a vergonha da aldeia inteira. Pagam-me para eu ter remorsos, em vez deles. De tudo o que de mal ou ímpio fazem. De todos os seus vícios. Dos seus crimes. Da feira dos velhos. dos animais torturados. Dos aprendizes. E do lixo. Calou-se por uns momentos.» Boris Vian, "O Arranca Corações", Editorial Estampa, 1970
«Encontrava-me de vigia no mastro de traquete e, com as espáduas apoiadas às enxárcias do sobre da proa, deixava-me embalar preguiçosamente naquela atmosfera encantada. Antes de me abandonar porém um total esquecimento de tudo, tinha observado que os vigias do mastro grande e do mastro da gata dormitavam, de tal modo que, afinal de contas, nos balouçávamos todos três sem vida no estais e a cada oscilação correspondia um cabecear do timoneiro sonolento do timão. As vagas cabeceavam indolentes e, no meio do grande entorpecimento do mar, o Leste pendia a cabeça para o Oeste e, por cima de tudo, o próprio Sol dormia. Subitamente, foi como se bolhas gigantescas me rebentassem debaixo das pálpebras. Agarrei-me às enxárcias com as mãos crispadas. Uma força qualquer invisível e amiga acabava de me salvar.» Herman Melville, "Moby Dick", Relógio D'Água, 2007
«Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis Apenas o silêncio A descoberta A estranheza de um sorriso natural e inesperado Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente Embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta de um amor subitamente imperativo» Daniel Filipe, «A invenção do amor e outros poemas», Editorial Presença, 2006
"Onde há vida, há morte. Morrer é fácil, o difícil é viver. E quanto mais difícil, maior é a vontade de viver. E quanto maior é o medo da morte, mais a gente luta para continuar viva." Mo Yan, "Peito Grande, Ancas Largas", Ulisseia, 2012
«Não é verdade que ter uma amada é uma boa desculpa para muita coisa? Para me casar sou demasiado velho e demasiado novo, demasiado inteligente e demasiado inexperiente. Mas, se tiver de ser, não digo não. Pessoas há que são muitas vezes tomadas por competentes, só porque fazem muito alarido, prova da importância que tem a superficialidade. Se mostro ser superficial, agrado às pessoas. Basta a leviandade para as conquistar. Se amarmos alguém, comportam-nos de maneira indelicada; é por isso que os amantes muitas vezes não tem sucesso. O amor não produz tanto efeito como a sua aparência.» Robert Walser, "A Rosa", Relógio D'Água, 2004
«JULIETA Dizei-me: como vieste até aqui e para quê? Os muro do jardim são altos e difíceis de escalar; e este lugar será a morte se algum dos meus parentes te descobre aqui. ROMEU Transpus este muros com as leves asas dos amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar; e o que o amor tem possibilidade de fazer ousa logo tentá-lo! Por isso mesmo, não são os teus parentes que me servirão de obstáculo. JULIETA Se eles te vêem, matar-te-ão. ROMEU Ai! Há mais perigos nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei couraçado contra a sua inimizade. JULEITA Por nada deste mundo eu quereria que te vissem aqui. ROMEU O manto da noite oculta-me aos olhos deles. Mas se tu me não amas, que importa que me encontrem? Seria melhor que o ódio deles pusesse fim à minha vida do que a morte tardasse faltando-me o teu amor. JULIETA Quem te ensinou este caminho?» William Shakespeare, “Romeu e Julieta”, Publicações Europa-América, 2003
"O fim da minha respiração é começo da tua." "Para si, se assim o deseja, não serei nada, ou apenas um sinal." "A garra do leão rasga as entranhas da videira." "O cor-de-rosa é melhor do que o negro, mas ambos se harmonizam." "Frente ao mistério. Homem de pedra compreende-me." "És o meu senhor. Não passo de um átomo que respira, ou expira, ao canto da tua boca. Quero palpar a serenidade de um dedo molhado de lágrimas." "Porquê esta balança oscilante no negrume de um buraco cheio de bolas de carvão?" "Não entorpecer as ideias com o peso dos sapatos." "Sabia tudo, tanto procurei ler o meus rios de lágrimas" André Breton, “Nadja”, Editorial Estampa, 1987