domingo, 9 de fevereiro de 2014
espécie de oração particular #34
"O fim da minha respiração é começo da tua."
"Para si, se assim o deseja, não serei nada, ou apenas um sinal."
"A garra do leão rasga as entranhas da videira."
"O cor-de-rosa é melhor do que o negro, mas ambos se harmonizam."
"Frente ao mistério. Homem de pedra compreende-me."
"És o meu senhor. Não passo de um átomo que respira, ou expira, ao canto da tua boca. Quero palpar a serenidade de um dedo molhado de lágrimas."
"Porquê esta balança oscilante no negrume de um buraco cheio de bolas de carvão?"
"Não entorpecer as ideias com o peso dos sapatos."
"Sabia tudo, tanto procurei ler o meus rios de lágrimas"
André Breton, “Nadja”, Editorial Estampa, 1987
sábado, 8 de fevereiro de 2014
o poeta sabe menos que o poema #14
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros, “Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros”, Planeta do Brasil, 2010
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Imediatamente embora pouco a pouco #38
«É verdade que uma censura feita na hora certa pode, sob a sua influência, assustar uma consciência particularmente receptiva, provocando um arrependimento que suscita momentaneamente a boa resolução de frequentar o templo zelosamente. Mas com a passagem do tempo ei-nos de novo os pecadores de outrora. Assim, o arrependimento impele-nos a fazer a penitência, enquanto o aborrecimento da penitência nos arrasta para o pecado. É essa a sorte deplorável daqueles que, descontentes com os seus actos, mesmo se com isso não fazem mais do que obedecer ao espírito da época, não conseguem todavia emendar-se. Não têm força para nadarem contra a corrente, tal não têm a coragem nem a liberdade de espírito para se deixarem levar, de consciência tranquila, ao sabor das ondas do tempo.»
Max Stirner, “Textos Dispersos”, Vega, 2003
Etiquetas:
Imediatamente embora pouco a pouco
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
o Mal-estar da Civilização #40
«Os homens nunca revelam os verdadeiros objectivos pelos quais actuam. Intimamente, exageram os motivos baixos, materiais: publicamente, anunciam os motivos nobres, espirituais. Mentem em ambos os casos. Os homens não conhecem os outros nem a si próprios.
A maior parte dos homens vive de instinto, hábito e imitação, animalmente - por vezes, com intermédios de felicidade inconsciente. Os poucos superiores sofrem, tentam, desesperam. Os mais elevados são os que desejam apenas as coisas inacessíveis, impossíveis (amor perfeito, arte perfeita, felicidade, eternidade, etc.).
Todos os homens tentam enganar o próximo. Todos os homens procuram superar e dominar o próximo. Todos os homens se imaginam no bem, no passado ou no futuro. Todos homens se esquecem dos verdadeiros fins e fazem dos meios os seus objectivos. Para onde quer que os homens se voltem, depara-se-lhes o impossível. Todos os homens se julgam mais que os outros.
Não basta aos homens possuir um bem, se não for maior que o do próximo. E, obtido um bem, cansam-se dele (saciedade, náusea) - ou então têm medo de o perder e padecem - ou desejam outro. Para obterem um bem imediato, não pensam no mal próximo que advirá.»
Giovanni Papini, “Relatório sobre Os Homens”, Livros do Brasil, 1986
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
domingo, 2 de fevereiro de 2014
é meia-noite no fim do céu #18
«É necessário roubar o protagonismo a Deus.
Trazer o envelope cheio de acontecimentos
e apresentá-lo a todos, ao público,
ali, no palco.
é necessário abrir o envelope como se o animal só tivesse bico,
mas fosse hábil e delicado.
Porque alguém escreveu a carta antes (talvez o escritor)
e o actor não deve ler, deve ser: ou seja: subtil como o crescimento das plantas.
E como não há tempo para ser perfeito,
nem electrodomésticos para os sentimentos,
o importante é mesmo o genuíno animal ser genuíno. E assim quem vê vai ver.»
Gonçalo M. Tavares, "A Colher de Samuel Beckett e outros textos", Campo das Letras, 2002
sábado, 1 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
alegações finais #9
«Quando a vida de um homem termina de um modo tal que a sua alma não é roubada a Deus devido aos pecados do seu corpo e que apesar de tudo consegue manter a boa vontade e o respeito dos seus companheiros, podemos afirmar que foi um trabalho útil.
Se eu tive alguém a desejar-me boa sorte entre as boas mulheres sensatas, eu serei ainda mais avaliado por ter contado esta história até ao fim. E se isto foi feito para agradar a uma em particular, ela terá de reconhecer que eu disse algumas coisas agradáveis.»
Wolfram von Eschenbach, "Parsival", Vega, 2010
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
A vida não é um sonho #35
«Quando o camponês descobriu que a sua mulher o traiu, obrigou-a a preparar a mesa para três. E durante o resto da vida comeram contemplando, diante deles, o terceiro prato vazio.»
Tonino Guerra, "Histórias para uma Noite de Calmaria", Assírio & Alvim, 2002
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
interpretose now #15
«Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.»
Corintios 13:12
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
diário dos mesmos pesares #35
«Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma mulher tinha o direito de deixar qualquer marca, por mais efémera que fosse, nessa zona do seu cérebro.»
Milan Kundera, "A Insustentável Leveza do Ser", Dom Quixote, 2013
domingo, 26 de janeiro de 2014
A revolução ficou atrás de nós #3
«A malta das praxes tem as suas hierarquias, veste-se a rigor, promove sociedades secretas com rituais mais ou menos obscuros, venera fardas e hinos, sob o olhar cúmplice e apaixonado de pais e professores orgulhosos. Têm as suas bandeiras, os seus símbolos. A academia aceita, desmistifica, moraliza eventuais atentados à dignidade humana, desinflaciona a dimensão grotesca e bruta da humilhação iniciática. Afinal, só é praxado quem quer e quem quer gosta, voluntaria-se se for preciso, está disposto a tudo para poder sentir-se parte integrante do grupo que há-de promovê-lo à condição de senhor perante futuros escravos. Assim se cresce e se faz homem e mulher quem nasça no mundo civilizado. É a tradição, palavra há muito utilizada para desculpabilizar e absolver todo o tido de atrocidades. O curioso disto está em constatar certo etnocentrismo encapuçado. As mesmas pessoas que vemos falar das praxes com orgulho ou simples desdramatização são capazes de apontar com a mais estúpida insensatez o fanatismo religioso islâmico, os rituais incivilizados da raça cigana, a violência genética dos pretos, numa prática do preconceito e do estereótipo cultural há muito enraizada na assoberbada nossa cultura.»
Henrique Fialho, "antologia do esquecimento", já não há pachorra para gelatina de morango.
sábado, 25 de janeiro de 2014
Recomposições de Metades #7
«Eu penso por intermédio de hieróglifos (meus). E para viver tenho que constantemente me interpretar e cada vez a chave do hieróglifo, estou certo que o sonho — coisa (minha) (nula), não realizado — é a chave do mesmo.»
«Eu escrevo por intermédio de palavras que ocultam outras — as verdadeiras. É que as verdadeiras não podem ser denominadas. Mesmo que eu não saiba quais são as "verdadeiras palavras", eu estou sempre aludindo a elas. Meu espetacular e contínuo fracasso prova que existe o seu contrário: o sucesso. Mesmo que a mim não seja dado o sucesso, satisfaço-me em saber de sua existência.»
Clarice Lispector, “Um Sopro de Vida (Pulsações)”, Editora Nova Fronteira, 1978
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Ouvido no estrangeiro #8
«A THING of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morrow, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o’er-darkened ways
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits. Such the sun, the moon,
Trees old and young, sprouting a shady boon
For simple sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make
’Gainst the hot season; the mid forest brake,
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur of the dooms
We have imagined for the mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountain of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven’s brink.
Nor do we merely feel these essences
For one short hour; no, even as the trees
That whisper round a temple become soon
Dear as the temple’s self, so does the moon,
The passion poesy, glories infinite,
Haunt us till they become a cheering light
Unto our souls, and bound to us so fast,
That, whether there be shine, or gloom o’ercast,
They alway must be with us, or we die.»
John Keats, "The Poetical Works of John Keats", London: Macmillan, 1884
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #20
«Visão, possessão, vazio. Errância, pobreza, ódio. Rebelde, comunidade. Ou pensamento. Escrita. Amor sem significação óbvia nem outra. As palavras vivem de serem vivas, da decisão que as possui, do arrebatamento interior, de não serem bens, propriedades, objectos que se usam e nos desgastam, mas intensidades, sopros onde os corpos se deslocam e se encontram. Amantes.»
Silvina Rodrigues Lopes, "Teoria da Des-possessão (Sobre Textos de Maria Gabriela Llansol)", Averno, 2014
Etiquetas:
Inaugurar sentimentos o amor por vir
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Subscrever:
Mensagens (Atom)





















