sábado, 11 de janeiro de 2014

prove que não é um robô #7



«O exterior e o interior formam uma dialética de esquartejamento, e a geometria evidente dessa dialética nos cega tão logo a introduzimos em âmbitos metafóricos. Ela tem a nitidez crucial do ‘sim’ e do ‘não’, que tudo decide. Fazemos dela, sem o percebermos, uma base de imagem que comandam todos os pensamentos do positivo e do negativo. Os lógicos traçam círculos que se superpõem ou se excluem, e logo todas as suas regras se tornam claras. O filósofo, com o interior e o exterior, pensa o ser e o não-ser (o caso da ”minha” poética, especificamente). A metafísica mais profunda está assim enraizada numa geometria implícita, numa geometria que – queiram ou não – especializa o pensamento; se o metafísico não desenhasse, seria capaz de pensar? O aberto e o fechado são metáforas que se liga a tudo, até aos sistemas» 

Gaston Bachelard, "A Poética do Espaço", Martins Fontes, 1996 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Imediatamente embora pouco a pouco #37



«No momento em que se pode fazer cinema, já não se pode fazer o cinema que nos deu vontade de o fazer»

Jean-Luc Godard, "Nouvelle Vague", Cinemateca Portuguesa, 1999

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #19



«Um homem apaixonou-se por uma pedra. Não era uma pedra enorme, era apenas uma pedra grande e pesada, demasiado pesada para que o homem a levasse consigo; por isso ele ficou perto dela, em cima dela, tanto tempo quanto conseguiu. Depois chamou um guindaste, pediu que a pedra fosse içada a cerca de dois metros de altura, e, colocando-se debaixo dela, pediu ao maquinista que a deixasse cair.»

Luís Ene, “Interruficções”, enfermaria6.com, 2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Perguntas Abandonadas #36



«Que outra realidade pode esperar-me
___ se não for a realidade
que eu já conheço, elevada
ao fulgor do desconhecido?» 

Maria Gabriela Llansol, Caderno 1.50, 23 de Abril 1998

sábado, 4 de janeiro de 2014

ninguém é filho das ervas #26



«...tenciono mostrar como esse pequenino ruído interior, que não é nada, contem tudo; tenciono mostrar como, com o apoio bacilar de uma sensação única, sempre a mesma e deformada desde a origem, um cérebro isolado do mundo é capaz de criar um mundo...»
Remy de Gourmont

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

a temperatura do corpo #34



«Ser amigo de uma pessoa nobre e fazer ginástica, eis duas das mais belas coisas que existem no mundo. Dançar e encontrar alguém que prenda a minha atenção são para mim uma e a mesma coisa. Gosto tanto de pôr os braços e as pernas e os espíritos em movimento. Já só balançar as pernas é tão engraçado! Fazer ginástica também é estúpido, não leva a nada! Será que tudo aquilo de que eu gosto e prefiro não leva a nada?» 

Robert Walser, "Jakob van Gunten", Relógio d´Água, 2005

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Corpus Christi Carol #8



«na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.»

José Luís Peixoto, "A Criança em Ruínas", Quetzal, 2012

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Teoria da Conspiração #47 (ou a Imaginação Pictórica da Língua)



«Imaginemos um povo de daltónicos, o que pode bem acontecer. Não teriam os mesmos conceitos de cor que nós. Supondo que falariam, por exemplo, alemão e teriam assim as palavras alemãs para as cores, usá-las-iam diferentemente de nós e aprenderiam a usá-las também de forma diferente. Ou se tivessem uma língua estrangeira, ser-nos-ia difícil traduzir as suas palavras de cor para as nossas.»

Ludwig Wittgenstein, "Anotações sobre As Cores", Edições 70, 1988