quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #19



«Um homem apaixonou-se por uma pedra. Não era uma pedra enorme, era apenas uma pedra grande e pesada, demasiado pesada para que o homem a levasse consigo; por isso ele ficou perto dela, em cima dela, tanto tempo quanto conseguiu. Depois chamou um guindaste, pediu que a pedra fosse içada a cerca de dois metros de altura, e, colocando-se debaixo dela, pediu ao maquinista que a deixasse cair.»

Luís Ene, “Interruficções”, enfermaria6.com, 2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Perguntas Abandonadas #36



«Que outra realidade pode esperar-me
___ se não for a realidade
que eu já conheço, elevada
ao fulgor do desconhecido?» 

Maria Gabriela Llansol, Caderno 1.50, 23 de Abril 1998

sábado, 4 de janeiro de 2014

ninguém é filho das ervas #26



«...tenciono mostrar como esse pequenino ruído interior, que não é nada, contem tudo; tenciono mostrar como, com o apoio bacilar de uma sensação única, sempre a mesma e deformada desde a origem, um cérebro isolado do mundo é capaz de criar um mundo...»
Remy de Gourmont

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

a temperatura do corpo #34



«Ser amigo de uma pessoa nobre e fazer ginástica, eis duas das mais belas coisas que existem no mundo. Dançar e encontrar alguém que prenda a minha atenção são para mim uma e a mesma coisa. Gosto tanto de pôr os braços e as pernas e os espíritos em movimento. Já só balançar as pernas é tão engraçado! Fazer ginástica também é estúpido, não leva a nada! Será que tudo aquilo de que eu gosto e prefiro não leva a nada?» 

Robert Walser, "Jakob van Gunten", Relógio d´Água, 2005

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Corpus Christi Carol #8



«na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.»

José Luís Peixoto, "A Criança em Ruínas", Quetzal, 2012

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Teoria da Conspiração #47 (ou a Imaginação Pictórica da Língua)



«Imaginemos um povo de daltónicos, o que pode bem acontecer. Não teriam os mesmos conceitos de cor que nós. Supondo que falariam, por exemplo, alemão e teriam assim as palavras alemãs para as cores, usá-las-iam diferentemente de nós e aprenderiam a usá-las também de forma diferente. Ou se tivessem uma língua estrangeira, ser-nos-ia difícil traduzir as suas palavras de cor para as nossas.»

Ludwig Wittgenstein, "Anotações sobre As Cores", Edições 70, 1988

domingo, 22 de dezembro de 2013

a poesia não me interessa #48



No abismo aberto entre dois minutos
Mesmo caindo a mão levanto.
Existo. E digo: presente.

Zelk Zoltán, "Poetas Húngaros - Antologia", Edições Moraes, 1983

sábado, 21 de dezembro de 2013

Até hoje foi sempre futuro #14



«Não há, na verdade, muito a ganhar por perguntar, mais uma vez, qual a quilometragem até à lua ou qual é a fórmula para fazer ácido clorídrico. Nós sabemos as respostas.»

George Steiner, "Martin Heidegger", Relógio D`Água, 2013