quarta-feira, 13 de novembro de 2013

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Não respire... (ou leituras em apneia) #10


«no quarto da Madame:
gosto desta lâmpada, da luz sem esconsos onde te vais despir, primeiro a camisola exacta, depois o colarinho porco da camisa, a cueca azul, o ensopado do sapato, a fofa chuva de Milão pelo cabelo que nunca foi lavado empastou-o sobre a testa, de sujo é encaracolado, baço, e vêem-se-te as costelas de pouco alimentado, degrau a degrau, até aos ossículos ternos das clavículas, aqui: ficas com a nudez suburbana, as pernas arqueadas, o sexo pendente sobre a virilha, os pêlos acamados num púbis inclemente, aqui; mostras na pele os dias em que te não lavaste e o nome variável de múltiplos baptismos, esta luz é deus pai, filho e espírito santo, é deus todo e tolo, é deus polono, aragem que seca pelo seu não soprar, ou por dentro das pessoas deflagra-as na minuciosa contabilidade do divino, aqui: vê-se, não se ama, quando a lembrança do amor me apoquenta, trago os engates para o quarto, fico a olhá-los, fixo as suas formas saturadas, os seus cheiros visíveis como gráficos, depois, dou-lhes dinheiro para me abandonarem não vá a sua presença destruir lembranças ternas, aqui: apaziguo de um desejo que não se apazigua, mato com método o fulgor e a vida, esta luz põe-me só, solidifica-me, do que ela ilumina nada há a dizer»       

Rui Nunes, "O Canto no Ocaso", Edições Rolim, 1984

Pode respirar.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Ouvido no estrangeiro #6


«Son mentira las formas. Sólo existe
el círculo de bocas del oxígeno.
Y la luna.»


Federico García Lorca, Luna y panorama de los insectos (Poema de amor), 1930

domingo, 10 de novembro de 2013

sábado, 9 de novembro de 2013

interpretose now #12

«Aquele a quem os deuses querem destruir, primeiro deixam-no louco.»
Eurípides


«Podes observar como a divindade fulmina com os seus raios os seres que sobressaem demais, sem permitir que se jactem da sua condição; por outro lado, os pequenos não despertam as suas iras. Podes observar também como sempre lança os seus dardos desde o céu contra os maiores edifícios e as árvores mais altas, pois a divindade tende a abater todo o que descola em demasia.»
Heródoto

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

diário dos mesmos pesares #33










«encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel


guardiã do sol posto.



o coração que me deixaste

é uma casa difícil de habitar.»


Renata Correia Botelho, "Um Circo no Nevoeiro", Averno, 2009

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

a perfeição é uma dada forma de imperfeição #5


«O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavres ecoam
Assim, no teu espirito.
                                Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
                         Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisiveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente.. contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.»

T. S. Eliot, "Quatro Quartetos", Relógio D'Água, 2004

presente do indicativo


Prendo-te o rosto, o corpo arqueado sobre o instante, o dorso reflectido sobre o embuste da luz. Reorganizo-te o corpo, a sinalética desconhecida dos medos, traço-te a história. Nomeio-te na arquitectura frágil do meu dicionário privado, pouso-te sobre a mesa de cabeceira. Que talvez tenhas por nome apenas o que em mim tem nome. Madrugada a tempo de nunca se fazer alvorada, janela fronteiriça, chave pequena e olhar clandestino sobre esta longuíssima forma de fazer silêncio com as mãos. Fabrico fés, fabrico crenças e não há ninguém que saiba urdir as palavras, às costas dos meses, melhor que Novembro. O meu nome visto de baixo.
Beatriz Hierro Lopes
  

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A revolução ficou atrás de nós #1


«Tomar consciência, e sempre de novo, de que estamos no fim da História, por forma que a maior parte das noções recebidas, a começar pelas da tradição revolucionária, devem ser reexaminadas e, tais quais, recusadas. Reconheçâmo-lo: Marx, Lénine, Bakunine, aproximaram-se e afastaram-se. Há um vazio absoluto atrás, como adiante de nós, e devemos pensar e agir sem assistência, sem outro apoio que não seja a radicalidade deste vazio. Ponhamos tudo em causa, incluindo as nossas certezas e esperanças verbais. A REVOLUÇÃO FICOU ATRÁS DE NÓS, objecto, já, de consumo e por vezes de gozo. Mas o que está diante de nós, e que será terrível, ainda não tem nome.»

Maurice Blanchot, Écrits Politiques 1953-1993, Paris, 2008 (Gallimard / Les Cahiers de la NRF), p. 204.

http://obeissancemorte.wordpress.com/2013/11/03/um-ensaio-de-antonio-bracinha-vieira-sobre-o-terror-do-capital-financeiro-a-biopolitica-e-o-futuro/

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #10


«Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça» 

Mário Cesariny, “Pena Capital”, Assírio & Alvim, 2004

domingo, 3 de novembro de 2013

Perguntas Abandonadas #34


«Pai, pai, aonde é que vais?
Oh!, não andes tão depressa.
Diz, diz, pai diz-me onde vais
Ou vou perder-me não tarda.»


William Blake, “Cantigas da Inocência e da Experiência”, Antígona, 2007

sábado, 2 de novembro de 2013

espécie de oração particular #32

 

«DEUS, IRRITADO

Estou a arrepender-me de ter feito o homem na Terra. Tornou-se mais forte do que eu, e já não sei dirigir a multidão que formou, de loucos e estúpidos. Aménão, Egino, Paimão, Oriães, libertem-me deste fardo: precipitem-me aquele globo nos abismos! Que a maldição caia sobre a cabeça dos rebeldes! E na fronte do maldito planeta esperem uma forca, signo de crime, castigo e sofrimentos.»

August Strindberg, "Inferno", Assírio & Alvim, 1988

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ninguém é filho das ervas #24


«O movimento da poesia parte do conhecimento e leva ao desconhecido. Raia a loucura se alguma vez se cumpre.»
Georges Bataille

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #22


«Ainda quero acreditar que possa haver música
no coração misterioso deste país.
Os mudos falarão e os paralíticos 
marcharão um dia ao sabor do tambor

E veremos cair da fronte do Filho do Homem
a coroa de sangue, símbolo da dor
e desta vez o Homem cantará em voz alta como
se a vida fosse bela e o espinheiro estivesse em flor.» 

Louis Aragon

maiores que a meia-noite #1


«Despojada do seu morto, aquela rapariga de cabeça baixa parece segurar Deus. Creonte vê‑a surgir inteiramente rubra, como se os seus andrajos cobertos de sangue fossem uma bandeira. A cidade impiedosa ignora os crepúsculos: o dia escurece subitamente, como uma lâmpada fundida que já não dá luz: se o rei levantasse os olhos, os revérberos de Tebas ocultar‑lhe‑iam agora as leis inscritas no céu. Os homens estão sem destino, visto que o céu está sem astros. (...) Ela avança naquela noite fuzilada pelos faróis: os seus cabelos de louca, os seus farrapos de mendiga, as suas unhas de carregadora mostram até onde deve ir a caridade de uma irmã. Em pleno dia, ela era a água pura sobre as mãos sujas, a sombra no vazio do elmo, o lenço na boca dos defuntos.

Em plena noite, ela torna‑se um clarão. A sua devoção pelos olhos vazados de Édipo brilha sobre milhões de cegos: a sua paixão pelo irmão putrefacto reanima fora do tempo miríades de mortos. Não se pode matar a luz; pode‑se apenas sufocá‑la: tapa‑se com a peneira a agonia de Antígona. Creonte lança‑a para o esgoto, para as catacumbas. Ela regressa ao país das origens, dos tesouros, dos germes. Rejeita Ismena que não passa de uma irmã carnal; afasta em Hémon a cruel possibilidade de conceber vencedores. Parte em busca da sua estrela situada nos antípodas da razão humana, e à qual apenas pode chegar depois de passar pelo túmulo. 

(...) O profundo meio‑dia falava de fúria: a profunda meia‑noite fala de desespero. O tempo deixou de existir nesta Tebas privada de astros; os que dormem estendidos na escuridão absoluta já não vêem a sua consciência. Creonte, deitado na cama de Édipo, repousa sobre a dura almofada da Razão de Estado. (...) Bruscamente, no silêncio embrutecido da cidade que fermenta o seu crime, um rumor vindo do interior da terra anuncia‑se, aumenta, impõe‑se à insónia de Creonte, torna‑se o seu pesadelo.

Creonte levanta‑se, tacteia, encontra a porta dos subterrâneos de que apenas ele conhece a existência, distingue na argila do subsolo os passos do seu filho mais velho. Uma vaga fosforescência que emana de Antígona permite‑lhe reconhecer Hémon pendurado no pescoço daquela que grandiosamente se suicidou, arrastado pela oscilação daquele pêndulo que parece medir a amplitude da morte. Atados um ao outro como que para terem um peso maior, o seu lento vai‑e-vem enterra‑os cada vez mais em direcção à sepultura, e esse peso palpitante volta a pôr em movimento a maquinaria dos astros. O barulho revelador atravessa as calçadas, os ladrilhos de mármore, as paredes de argila endurecida, enche o ar ressequido com uma pulsação de artérias. Os adivinhos encostam ao chão a orelha, auscultam como médicos o peito da terra que caíra em letargia. O tempo retoma o seu curso sob o ruído do relógio de Deus. 

O pêndulo do mundo é o coração de Antígona.»

Marguerite Yourcenar,  “Antigone ou le Choix”. In Feux. [Paris]: Gallimard, D.L. 2007. p. 55‑61.
Trad. Manuel de Freitas

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

a temperatura do corpo #32


«a estrela choveu rosa no coração da tua escuta,
o infinito rolou alvo no teu corpo, da nuca aos rins,
o mar orvalhou ruivo os teus seios de rubro cobre
e o homem sangrou negro no teu flanco sem fim.»

Arthur Rimbaud, “O Rapaz Raro - Iluminações e Poemas”, Relógio d'Agua, 1998

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #17


«Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma  triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor de ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo...» 

Antoine de Saint Exupéry, “O Principezinho”, Relógio d'Água, 1995

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Até hoje foi sempre futuro #11


«Perdemos a maior parte da nossa mocidade em actos desastrados. Era evidente que a minha amada viria a abandonar-me por completo e em breve. E eu não tinha ainda aprendido que existem duas humanidades muito diferentes, a dos ricos e a dos pobres. Foram-me precisos como a tantos outros os meus vinte anos e ainda a guerra, para aprender a manter-me de acordo com a minha categoria, a perguntar o preço das coisas e dos seres antes de lhes tocar, e sobretudo antes de me prender a eles.»

Céline, "Viagem ao Fim da Noite", Círculo de Leitores, 1989