quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Chefe, precisamos de mentiras novas #22
«Ainda quero acreditar que possa haver música
no coração misterioso deste país.
Os mudos falarão e os paralíticos
marcharão um dia ao sabor do tambor
E veremos cair da fronte do Filho do Homem
a coroa de sangue, símbolo da dor
e desta vez o Homem cantará em voz alta como
se a vida fosse bela e o espinheiro estivesse em flor.»
Louis Aragon
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Chefe precisamos de mentiras novas
maiores que a meia-noite #1
«Despojada do seu morto, aquela rapariga de cabeça baixa parece segurar Deus. Creonte vê‑a surgir inteiramente rubra, como se os seus andrajos cobertos de sangue fossem uma bandeira. A cidade impiedosa ignora os crepúsculos: o dia escurece subitamente, como uma lâmpada fundida que já não dá luz: se o rei levantasse os olhos, os revérberos de Tebas ocultar‑lhe‑iam agora as leis inscritas no céu. Os homens estão sem destino, visto que o céu está sem astros. (...) Ela avança naquela noite fuzilada pelos faróis: os seus cabelos de louca, os seus farrapos de mendiga, as suas unhas de carregadora mostram até onde deve ir a caridade de uma irmã. Em pleno dia, ela era a água pura sobre as mãos sujas, a sombra no vazio do elmo, o lenço na boca dos defuntos.
Em plena noite, ela torna‑se um clarão. A sua devoção pelos olhos vazados de Édipo brilha sobre milhões de cegos: a sua paixão pelo irmão putrefacto reanima fora do tempo miríades de mortos. Não se pode matar a luz; pode‑se apenas sufocá‑la: tapa‑se com a peneira a agonia de Antígona. Creonte lança‑a para o esgoto, para as catacumbas. Ela regressa ao país das origens, dos tesouros, dos germes. Rejeita Ismena que não passa de uma irmã carnal; afasta em Hémon a cruel possibilidade de conceber vencedores. Parte em busca da sua estrela situada nos antípodas da razão humana, e à qual apenas pode chegar depois de passar pelo túmulo.
(...) O profundo meio‑dia falava de fúria: a profunda meia‑noite fala de desespero. O tempo deixou de existir nesta Tebas privada de astros; os que dormem estendidos na escuridão absoluta já não vêem a sua consciência. Creonte, deitado na cama de Édipo, repousa sobre a dura almofada da Razão de Estado. (...) Bruscamente, no silêncio embrutecido da cidade que fermenta o seu crime, um rumor vindo do interior da terra anuncia‑se, aumenta, impõe‑se à insónia de Creonte, torna‑se o seu pesadelo.
Creonte levanta‑se, tacteia, encontra a porta dos subterrâneos de que apenas ele conhece a existência, distingue na argila do subsolo os passos do seu filho mais velho. Uma vaga fosforescência que emana de Antígona permite‑lhe reconhecer Hémon pendurado no pescoço daquela que grandiosamente se suicidou, arrastado pela oscilação daquele pêndulo que parece medir a amplitude da morte. Atados um ao outro como que para terem um peso maior, o seu lento vai‑e-vem enterra‑os cada vez mais em direcção à sepultura, e esse peso palpitante volta a pôr em movimento a maquinaria dos astros. O barulho revelador atravessa as calçadas, os ladrilhos de mármore, as paredes de argila endurecida, enche o ar ressequido com uma pulsação de artérias. Os adivinhos encostam ao chão a orelha, auscultam como médicos o peito da terra que caíra em letargia. O tempo retoma o seu curso sob o ruído do relógio de Deus.
O pêndulo do mundo é o coração de Antígona.»
Marguerite Yourcenar, “Antigone ou le Choix”. In Feux. [Paris]: Gallimard, D.L. 2007. p. 55‑61.
Trad. Manuel de Freitas
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
a temperatura do corpo #32
«a estrela choveu rosa no coração da tua escuta,
o infinito rolou alvo no teu corpo, da nuca aos rins,
o mar orvalhou ruivo os teus seios de rubro cobre
e o homem sangrou negro no teu flanco sem fim.»
Arthur Rimbaud, “O Rapaz Raro - Iluminações e Poemas”, Relógio d'Agua, 1998
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #17
«Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor de ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo...»
Antoine de Saint Exupéry, “O Principezinho”, Relógio d'Água, 1995
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segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Até hoje foi sempre futuro #11
«Perdemos a maior parte da nossa mocidade em actos desastrados. Era evidente que a minha amada viria a abandonar-me por completo e em breve. E eu não tinha ainda aprendido que existem duas humanidades muito diferentes, a dos ricos e a dos pobres. Foram-me precisos como a tantos outros os meus vinte anos e ainda a guerra, para aprender a manter-me de acordo com a minha categoria, a perguntar o preço das coisas e dos seres antes de lhes tocar, e sobretudo antes de me prender a eles.»
Céline, "Viagem ao Fim da Noite", Círculo de Leitores, 1989
domingo, 27 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
Recomposições de Metades #4
«Existem amigos e inimigos. E existe, estranhos.
Amigos e inimigos colocam-se em oposição uns aos outros. Os primeiros são o que os segundos não são e vice-versa. Isso, no entanto, não é testemunho de igualdade. Como na maioria das outras oposições que ordenam simultaneamente o mundo em que vivemos e a nossa vida no mundo, esta é uma variação da oposição-chave entre interior e exterior. O exterior é negatividade para a positividade interior. O exterior é o que o interior não é.»
«Contra este confortável antagonismo, contra essa colisão conflituosa de amigos e inimigos, rebela-se o estranho. A ameaça que ele carrega é mais terrível que a ameaça que se pode temer do inimigo. O estranho ameaça a própria sociação, a própria possibilidade de sociação. Ele desmascara a oposição entre amigos e inimigos como o compleat mappa mundi como diferença que consome todas as diferenças e portanto não deixa nada fora dela. Como essa oposição é o fundamento no qual se assenta toda a vida social e todas as diferenças que a constroem e sustentam, o estranho solapa a própria vida social. E tudo isso porque o estranho não é nem amigo e nem inimigo – e porque pode ser ambos. E porque não sabemos nem temos como saber qual é o caso.»
Zygmunt Bauman, "Modernidade e Ambivalência", Relógio D'Água, 2007
Amigos e inimigos colocam-se em oposição uns aos outros. Os primeiros são o que os segundos não são e vice-versa. Isso, no entanto, não é testemunho de igualdade. Como na maioria das outras oposições que ordenam simultaneamente o mundo em que vivemos e a nossa vida no mundo, esta é uma variação da oposição-chave entre interior e exterior. O exterior é negatividade para a positividade interior. O exterior é o que o interior não é.»
«Contra este confortável antagonismo, contra essa colisão conflituosa de amigos e inimigos, rebela-se o estranho. A ameaça que ele carrega é mais terrível que a ameaça que se pode temer do inimigo. O estranho ameaça a própria sociação, a própria possibilidade de sociação. Ele desmascara a oposição entre amigos e inimigos como o compleat mappa mundi como diferença que consome todas as diferenças e portanto não deixa nada fora dela. Como essa oposição é o fundamento no qual se assenta toda a vida social e todas as diferenças que a constroem e sustentam, o estranho solapa a própria vida social. E tudo isso porque o estranho não é nem amigo e nem inimigo – e porque pode ser ambos. E porque não sabemos nem temos como saber qual é o caso.»
Zygmunt Bauman, "Modernidade e Ambivalência", Relógio D'Água, 2007
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
terça-feira, 22 de outubro de 2013
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
domingo, 20 de outubro de 2013
quero outra noite no fim do dia #20
«150 De vez em quando a angústia volta, e o alarme, e um pavor todavia calmo e obscuro. E aí, um prazer amargo e uma grande plenitude enche-me a alma. Não me agito por dentro quando esse alarme me visita, não me suspendo em intensa expectativa. Mas também não me sinto alegre. A alegria imediata, a que estala em riso como sua festa, é a que tem que ver com essa coisa um pouco idiota de se ser "feliz". A alegria profunda não ri e conhece apenas, se conhece, a profunda pacificação. Como no termo de uma viagem. Como no termo de um dia na infância, estoirados de cansaço, a verdade absoluta da vida e do universo é apenas a do adormecer.»
Vergílio Ferreira, "Pensar", Bertrand Editora, 1992
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sábado, 19 de outubro de 2013
O Homem é um grande faisão sobre a terra #2
Herbais, 14 de Dezembro de 1982
esta noite, sempre que acordava, ouvia uma frase que, finalmente, exprimia com clareza os meus sentimentos particulares: aparelhar as velas. E fazia a seguinte pergunta: se sou, por natureza, um nómada, por que planto árvores e arbustos mal chego a um lugar, e depois desejo levantá-los do jardim, para levar comigo quem tem raízes?
Maria Gabriela Llansol, "Um Falcão no Punho", Relógio D'Água, 1998
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O Homem é um grande faisão sobre a terra
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
se os mortos falassem #1
«Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida.»
António Ramos Rosa, "Resumo: a poesia em 2012", edição DOCUMENTA, 2013.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Ouvido no estrangeiro #5
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?
Charles Bukowski,"The Last Night of the Earth Poems", circa, 1992
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #16
Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador
Al Berto, "Vigílias", Assírio & Alvim, 2004
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terça-feira, 15 de outubro de 2013
diário dos mesmos pesares #32
«Meu amor - que amor? Não és tu. És, és. Não és. Na realidade não sei. Na realidade há o que existe, o que se diz um facto, o que se avalia ao quilo ou ao quilómetro. E há o que nos existe, aquilo que está por dentro ou nós por dentro disso - vou amar o teu corpo como nunca te amei. Um corpo é tão misterioso e o nosso mistério com ele. Tenho muita coisa a dizer-te, isso que espere. Porque eu amei o teu corpo de tanta maneira, não sei se contigo também aconteceu assim. Ama-se um corpo como instrumento de amar, como forma de onanismo de que o trabalho é dele. Ou como êxtase de um terror paralítico. Ou como orientação ao impossível que não está lá. Com raiva desespero de quem já não pode mais e não sabe o quê. Como avidez insuportável não de o ter tido na mão, porque o podemos ter nela, sofregamente, boca seios o volume quente harmonioso da anca e tudo esmagar-se até à fúria, ter o que aí se procura e que é o que lá está, mas não o que está atrás disso e é justamente o que se procura e se não sabe o que é nem jamais poderemos atingir.»
Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990
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