sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Perguntas Abandonadas #33
«Vivo num constante estado de mutação, embora, lá no fundo de mim, eu seja uma "menina que se recusa a morrer".
Nós, que estamos vivos, neste momento, somos apenas uma parte infinitesimal de algo que existe há uma eternidade e continuará a existir, quando não houver mais nada servindo como prova da existência da Terra.
Entretanto, precisamos sentir e acreditar que somos tudo.
Esta é nossa responsabilidade – não apenas para connosco mesmos, mas para com tudo e todos com quem partilhamos nosso tempo de existência.
O que é mutação?
Algo que acontece dentro de mim? Ou algo que experimento em outras pessoas?
Talvez seja um impulso consciente ainda mais forte e, sendo assim, para onde conduz?
Para que estou me estou a esforçar?
Para me tornar o melhor ser humano possível? Ou a melhor artista?
O que realmente desejo fazer com aquilo que alcancei?
O que farei com a mutação?
Talvez não seja tão importante saber.
Talvez não seja tão importante chegar.»
Liv Ullmann, "Mutações", Nova Nórdica, 1984
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
O Homem é um grande faisão sobre a terra #1
«Amalie lambeu o pulso. «A água da chuva é doce», disse ela. «O sal é o pranto da lágrima.»
O Homem é um grande faisão sobre a terra, Herta Müller, Cotovia, 1993.
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A Irmã,
O Homem é um grande faisão sobre a terra
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #34
«Na maioria dos casos, a condição primordial da felicidade não consiste, decerto, em resolver as contradições, mas sim em fazê-las desaparecer, da mesma forma que se fecham os espaços nas longas avenidas. Assim como as relações visíveis se deslocam perante os nossos olhos, de maneira a formar-se uma imagem aparente em que as coisas mais próximas, iminentes, parecem grandes, mas em que, mais longe, até as coisas enormes se afiguram pequenas e o todo, enfim, se arredonda e aperfeiçoa completamente, assim também as relações invisíveis se deslocam mercê da inteligência e do sentimento, de modo a formarem inconscientemente qualquer coisa no interior da qual nos sentimos à vontade.»
Robert Musil, “O Homem Sem Qualidades - Vol. II”, Livros do Brasil, 1985
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Imediatamente embora pouco a pouco
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Pausa do mundo #1
«Pregava dormindo. Desperto, não sabe nada disso. Durante o sono saber-se-á tanto, que ninguém terá mais vontade de estar desperto.»
Elias Canetti, "Massa e Poder", Companhia das Letras, 1995
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Orelhas de Elefante #39
June Tabor/Iain Ballamy/Huw Warren, "Quercus", ECM Records, 2013
Alela Diane, "About Farewell", Rusted Blue, 2013
domingo, 6 de outubro de 2013
sábado, 5 de outubro de 2013
o poeta sabe menos que o poema #9
«O Poeta empresta todos os materiais, menos as imagens»
Novalis, "Fragmentos de Novalis", Assírio & Alvim, 2000
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Ela tem os teus olhos #9
«A propagação da TV uniformizou um povo inteiro num sistema de concepções e padrões de vida que tornaram possível a expansão de enormes empreendimentos económicos. Por essa razão, toda a nossa cultura e a imagem física do ambiente, tanto quanto as nossas ideias e sentimentos, foram computorizados, linearizados, suburbanizados, rodoviarizados e embrulhados para serem vendidos.»
Jerry Mander, "Quatro Argumentos Para Acabar com a Televisão", Antígona, 1999
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
terça-feira, 1 de outubro de 2013
ninguém é filho das ervas #23
Thomas Mann
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
a poesia não me interessa #47
são sete horas (vestidas
de preto, vermelho e medo)
da manhã de outro dia.
Mas a janela fechada dá
para a noite ancorada
de leve sobre as esperanças
azedas da cidade.
Conto um rio preso num poço,
dois comboios afogados na pressa,
meia dúzia de faróis
acesos em prédios
cuja felicidade parece sempre
proporcional à distância.
O vinil negro continua a rodar,
atiça os seus pássaros enferrujados
contra a lua atada
a uma das chaminés.
E a luz que nunca chega
traz as últimas notícias da guerrilha,
expõe o plástico roto nas armas
dos nossos heróis de ontem.
Abandono as saudades
pelos telhados, com
as patas embaciadas, os olhos
magros. Saio.
Recomeço a fazer horas para novos sonhos.»
Inês Dias, "Um Raio Ardente e Paredes Frias", Averno 057, 2013
domingo, 29 de setembro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
Chefe, precisamos de mentiras novas #21
«Chega o momento em que a vida de cada homem é uma derrota assumida. É uma verdade que todos sabemos.»
Marguerite Yourcenar
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sexta-feira, 27 de setembro de 2013
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Ouvido no estrangeiro #4
«Only themselves understand themselves and the like of themselves,
As souls only understand souls.»
Walt Whitman
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Toda a humilhação leva à morte #23
«Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia a meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir é — crede-me bem — para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas — onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza.»
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego", Relógio D'Água, 2008
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
K, o elemento estranho da tabela literária #8
«O meu avô costumava dizer: "A vida é espantosamente curta. Olhando para trás, a vida parece-me tão escorçada que não consigo perceber como um jovem pode decidir cavalgar até à aldeia mais próxima sem ter medo - já para não falar dos acidentes - de que mesmo a duração de uma vida normal e feliz seja demasiado curta em relação ao tempo necessário a tal viagem."»
Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004
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