segunda-feira, 30 de setembro de 2013

a poesia não me interessa #47


«Deste lado da vida
são sete horas (vestidas
de preto, vermelho e medo)
da manhã de outro dia.
Mas a janela fechada dá
para a noite ancorada
de leve sobre as esperanças
azedas da cidade.

Conto um rio preso num poço,
dois comboios afogados na pressa,
meia dúzia de faróis
acesos em prédios
cuja felicidade parece sempre
proporcional à distância.

O vinil negro continua a rodar,
atiça os seus pássaros enferrujados
contra a lua atada
a uma das chaminés.
E a luz que nunca chega
traz as últimas notícias da guerrilha,
expõe o plástico roto nas armas
dos nossos heróis de ontem.

Abandono as saudades
pelos telhados, com
as patas embaciadas, os olhos
magros. Saio.
Recomeço a fazer horas para novos sonhos.» 

Inês Dias, "Um Raio Ardente e Paredes Frias", Averno 057, 2013

domingo, 29 de setembro de 2013

sábado, 28 de setembro de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #21


«Chega o momento em que a vida de cada homem é uma derrota assumida. É uma verdade que todos sabemos.»
  
Marguerite Yourcenar

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

caligrafia horizontal


©Greenaway,Peter;1996

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Ouvido no estrangeiro #4


«Only themselves understand themselves and the like of themselves,
As souls only understand souls.» 

Walt Whitman

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Toda a humilhação leva à morte #23


«Eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas coleantes páginas fora, realmente existe ou é apenas um conceito estético e falso que fiz de mim próprio. Sim, é assim. Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma estátua de matéria alheia a meu ser. Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio. Quem sou por detrás desta irrealidade? Não sei. Devo ser alguém. E se não busco viver, agir, sentir é — crede-me bem — para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser e não sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. Por isso me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas — onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em afastada beleza.»

Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego", Relógio D'Água, 2008

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

domingo, 22 de setembro de 2013

K, o elemento estranho da tabela literária #8


«O meu avô costumava dizer: "A vida é espantosamente curta. Olhando para trás, a vida parece-me tão escorçada que não consigo perceber como um jovem pode decidir cavalgar até à aldeia mais próxima sem ter medo - já para não falar dos acidentes - de que mesmo a duração de uma vida normal e feliz seja demasiado curta em relação ao tempo necessário a tal viagem."»

Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004

sábado, 21 de setembro de 2013

a poesia não me interessa #46


Tem o tempo todo.
Perdeu-o, nos dias de desejo, para o trabalho
e para outros assuntos,
e agora que o tem por inteiro caminha muito lento
e quando olha em redor procura olhos
que se lembrem dos seus antigos momentos de pressa.
Tem tempo. Caminha lentamente.
Antes a ambição fazia-o levantar-se,
agora, quase se podia jurar, ser o cachimbo que o mantém em pé, a
garrado ao ar como a nada.
Passa perto e olha para mim; acena a cabeça.
Servem-lhe os dias, pelo menos, para ser educado.
É velho. Atravessa, muito lento, o tempo e a terra,
e vai dizendo adeus às pessoas,
como se exercesse o privilégio de se despedir dos amigos
no seu próprio funeral.

Gonçalo M. Tavares, 1, Relógio D'Água, 2004

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Retrato de Família #26


Thomas B. Karamazov (1931-1989)

«Estamos sempre a tentar fugir de nós próprios mas falhamos sempre a tentativa, estamos continuamente a bater com a cabeça porque não queremos ver que não é possível fugirmos de nós próprios, a não ser através da morte.»

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A vida não é um sonho #32


«Imagine-se um indivíduo por natureza e infortúnio propenso a um sombrio desalento, haverá tarefa mais apta a aumentar-lhe aquele, que o manuseio constante dessas cartas perdidas, preparando-as para as chamas? É que elas são queimadas, anualmente, às carradas. Por vezes, de entre as folhas dobradas, o pálido funcionário retira uma anel - o dedo ao qual se destinava talvez que apodreça já no túmulo; uma nota de banco enviada rapidamente, por caridade - aquele a quem ela iria socorrer, já não come nem tem fome; perdão para os que morreram sem a ter, a boa nova para quantos morreram opressos por fatais calamidades. Recados de vida, estas cartas correm para a morte.»

Herman Melville, "Bartleby", Assírio & Alvim, 1988

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

a poesia não me interessa #45


Entre as sombras daqueles galos e cães
dos quintais e currais de Sanaüja,
há um buraco de tempo perdido e chuva suja
que vê os meninos ir contra a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha
em noites de braseiro a escolher lentilhas
vejo os que me amavam.
Tão pobres que no fim daquela guerra
tiveram de vender a miserável
porção de vinha e o casarão gélido.
Ser velho é a guerra já ter acabado.
Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.

Joan Margarit, "Casa da Misericórdia", OVNI, 2009

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

o poeta sabe menos que o poema #8


De Escuridão em Escuridão

Abriste os olhos – vejo a minha escuridão viver.
Vejo-a até ao fundo:
também aí é minha e vive.  

Poderá isso transpor? E transpondo acordar?
De quem é a luz que se atrela aos meus passos
para encontrar um barqueiro?  

Paul Celan, Sete Rosa Mais Tarde, Cotovia, 1993

domingo, 15 de setembro de 2013

sempre sozinho


©Jarrold,Julian;2008

sábado, 14 de setembro de 2013

quem não conhece estas manhãs, dúvida.


«Quem não conhece estas manhãs, dúvida:
somos todos o passado clandestino dos felizes, quando o rio era um brilho entre salgueiros, um desvio incerto da infância.»

Rui Nunes, "Uma Viagem no Outono", Relógio d'Água, Junho de 2013.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Recomposições de Metades #3


«Agora as coisas mudaram muito.»

«Quando se deixa uma terra por outra, se vivemos com entendimento e força de alma, deixamos o nosso espectro um pouco por toda a parte. É como morrer de maneira incorrupta, mas com igual arranque de saudade.
O caminho que faço todos os dias percorri-o hoje com distracção novelesca; e o que eram encontros muitas vezes sem agrado - pobres ou jardineiros, ou gente de ambíguos afazeres e tristezas - tornou-se de repente, já no espírito da distância, figuras reparadas, profundas, merecidas.»

Agustina Bessa Luís, "Conversações com Dmitri e outras fantasias", Na Regra do Jogo, 1979

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Até hoje foi sempre futuro #10


«"Ah, se fosse novo outra vez!" Nunca ouves ninguém dizer: "Gostava de ter sessenta e cinco anos."
Sorriu.
"Sabes o que isso reflecte? Vidas insatisfeitas. Vidas incompletas. Vidas que não encontraram sentido nenhum. Porque se encontrares sentido na vida, não desejas voltar atrás. Queres ir para a frente. Queres ver mais, fazer mais. Estás mortinho para chegar aos sessenta e cinco.
"Ouve, tens que saber uma coisa. Todos os jovens têm que saber uma coisa. Se estiveres sempre a batalhar contra o envelhecimento, vais ser sempre infeliz, porque isso vai acontecer de qualquer maneira."
"E, Mitch?"
Baixou a voz.»


Mitch Albom, "Às Terças com Morrie", Sinais de Fogo, 2006