terça-feira, 10 de setembro de 2013
Perguntas Abandonadas #32
«- Sabes o que acontece quando magoamos as pessoas? - disse Ammu. - Quando magoamos as pessoas, elas passam a gostar menos de nós. É isso que as palavras descuidadas fazem. Fazem as pessoas gostarem um pouco menos de nós.»
Arundhati Roy, "O Deus das Pequenas Coisas", Edições Asa, 1999
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
a temperatura do corpo #30
«o que os humanos mais amam não é susceptível de ser reconhecido.
O que reina é sempre o que se perdeu.
O que devora o homem é sempre o amor que sentiu quando ignorava a sua natureza. Esse amor é irreconhecível porque está imbuído de um mundo cujo reinado teve lugar antes da desunião do nascimento. Laço de antes da linguagem adquirida nos lábios daquela que deixa de estar unida e que já é a mãe que desfaz o laço. Unidade que diverge no acesso à luz para o olhar e pela transformação do corpo devida ao ar que se respira. Olhos que vêm e voz que clama dilacerando-se, dividindo a alma, destruindo a ressonância antiga, obscura.»
Pascal Quignard, "Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos", Edições Cotovia, 2002
domingo, 8 de setembro de 2013
da espera
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| Inta Ruka, |
«Vejo bem que é uma dor que vem de muito longe mas que
já não sabes donde. Olho-te um momento sem muita piedade – porque havia eu de
ter muita? A piedade é uma forma de expulsarmos a amargura de nós a ameaça de
não querermos que o seja. Guardo para mim a piedade que era para ti – como posso
não ter ilusões? Ponho-te a mão na face.
– Espera lá por mim.»
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Quetzal, p. 196
« – Espera lá por mim.
E foi só o que soube dizer. Deixei ficar ainda algum
tempo a mão na tua testa. E a todo o momento esperei que me dissesses a última
frase do teu entendimento. E sorri um pouco por dentro, porque na tua face tranquila,
longe para sempre de tudo o que a agitou, era impossível que a dissesses. – Dorme – disse-te ainda.»
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Quetzal, p.264
sábado, 7 de setembro de 2013
o poeta sabe menos que o poema #7
Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
Ruy Belo, "Homem de Palavra(s)", Presença, 1997
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
diário dos mesmos pesares #31
«Olho a minha face no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. A minha carne pode ter medo; eu não.»
Jorge Luis Borge, "O Aleph", Editorial Estampa, 1988
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
das magníficas inutilidades
«Mas também é certo que a beleza de um homem é a
reprodução de um conjunto de verdades íntimas e práticas. Num rosto lê-se
aquilo de que um homem é capaz. E que significa isso comparado com a magnífica
inutilidade de um rosto de mulher?»
Albert Camus, A Morte Feliz.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
quero outra noite no fim do dia #19

«Um incandescente pulmão
espera no Norte pelo
cigarro do sol. O teu
rosto adormecido parece
uma mensagem. Mas quem
a envia? Muito caminhámos
lado a lado
no inclinado caminho dos anos.
Por fim as pedras tornaram-se
em escuridão, mas o rosto
de um homem é mais claro que
o seu pensamento, o seu nome
mais profundo que a escuridão
dos sentimentos onde
está fechado. Agora
a noite é insensível ao dia.
Agora o teu sono é todo o crepúsculo
que resta.»
Gösta Agren, "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro", Assírio & Alvim, 2001
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quero outra noite no fim do dia
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Orelhas de Elefante #38
"if you develop an ear for sounds that are musical it is like developing an ego: you begin to refuse sounds that are not musical and that way cut yourself off from a good deal of experience"
john cage
terça-feira, 30 de julho de 2013
domingo, 28 de julho de 2013
interpretose now #10
«Pela noite, o homem acende uma luz para si ainda que os seus olhos estejam fechados. Mas vivo toca a morte, dormindo. Desperto, toca no adormecido.»
Heraclito
sábado, 27 de julho de 2013
a poesia não me interessa #44
Vai chegar a manhã.
A luz treme nos arbustos.
Algas, seixos, limos
guiam pelas fragas
a água sem fundura,
o ardor levantino do anil.
Ouves correr poalhas de bruma?
Silêncios do vento que renasce?
Seguro na mão que não seguras
uma lâmina de fogo, um erro
de árvores e olhas-me.
Pouso os lábios no teu pulso
para sentir o coração.
É tão perigoso ser feliz.
Joaquim Manuel Magalhães, "Uma Luz com um Toldo Vermelho", Presença, 1990
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Até hoje foi sempre futuro #9
«Caminhávamos à beira-rio e éramos imensos. Gostava de saber agora bem o que éramos. Tínhamos a verdade toda porque não queríamos mais nada. E tínhamos a beleza porque estávamos contentes, mas não sabíamos bem de quê. Era um momento excessivo em que talvez Deus aparecesse. Era um desses instantes em que tudo oscila e é de mais e só é plausível matarmo-nos. Não havia em nós humanidade bastante, era plausível.»
Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990
quinta-feira, 25 de julho de 2013
quarta-feira, 24 de julho de 2013
espécie de oração particular #31
«"Senhor, sem ti fico louco, e ainda mais louco contigo!" - Seria esse, na melhor das hipóteses, o resultado da reaproximação entre o falhado cá de baixo e o falhado lá de cima.»
E. M. Cioran, "Silogismos da Amargura", Letra Livre, 2009
terça-feira, 23 de julho de 2013
quero outra noite no fim do dia #18
«Assim nasceu a história do País das Maravilhas:
Assim, um por um, lentamente,
Se desfiaram seus estranhos eventos –
E agora a história acabou,
E remamos para casa alegremente
Debaixo do sol que baixou.
Alice! Uma história tão pueril!
E, como uma mão gentil,
Guardemo-la onde os sonhos de infância
Se enlaçam no coração da memória,
Como a murcha grinalda do viajante
Colhida numa terra distante.»
Lewis Carroll, "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas", Relógio D'Água, 2007
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quero outra noite no fim do dia
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Ouvido no estrangeiro #3
L´enfance
Qui peut nous dire quand c’est fini
Qui peut nous dire quand ça commence
C´est rien avec de l´imprudence
C´est tout ce qui n´est pas écrit
L´enfance
Qui nous empêche de la vivre
De la revivre infiniment
De vivre à remonter le temps
De déchirer la fin du livre
L´enfance
Qui se dépose sur nos rides
Pour faire de nous de vieux enfants
Nous revoilà jeunes amants
Le cœur est plein, la tête est vide
L´enfance
Jacques Brel
domingo, 21 de julho de 2013
sábado, 20 de julho de 2013
diário dos mesmos pesares #30
« - [O que tenho?] - disse ele - Nada de especial. Tenho... um décimo
de segundo a mostrar que não está pelos ajustes... Espere... Há
momentos em que o meu corpo se ilumina... É muito curioso. De repente
fico-me visível... distingo o fundo das minhas camadas de carne, sinto
zonas de dor, anéis, pólos, coroas de dor. Está a ver estas figuras
vivas?, a geometria do meu sofrimento? Alguns destes relâmpagos parecem
realmente ideias. Fazem compreender - daqui até ali... E no entanto
deixam-me incerto. Incerto será a palavra... Quando isto está
para vir, acho qualquer coisa de confuso ou difuso em mim. No meu ser
formam-se lugares... enevoados, parecem lonjuras. Apanho na memória uma
pergunta, uma questão qualquer... E meto-me nela a fundo. Conto grãos de
areia... e, enquanto os vou vendo... - A dor crescente obriga-me a
examiná-la. Penso nela! - Só espero pelo meu grito... e, mal o oiço - o
objecto, o terrível objecto, faz-se pequeno, cada vez mais pequeno,
furta-se à minha visão interior...»
Paul Valery
Italo Calvino, "Seis Propostas para o Próximo Milénio", Editorial Teorema, 2007
sexta-feira, 19 de julho de 2013
prove que não é um robô #3
«O homem que está apaixonado encontra um búzio na margem. Quando o leva ao ouvido, não ouve o mar, nem o vento, nem os anjos, mas só a sua própria voz cantando: amo-te. Nunca ouvira nada tão belo.
Na outra margem, todos os homens dormem. Alguém caminha lentamente ao longo da praia, leva-os um a um ao ouvido, escuta. Nalguns desses búzios humanos ouve cães a ladrar, noutros tigres rugir na imensidão ou então martelos a ressoar, e noutros ainda crescer o crescer das máquinas. Mas num deles ouve ecoar o grito de um peixe. É o som que faz o homem que está apaixonado quando alguém o leva ao ouvido.
Se os planetas pudessem amar, deixariam a sua órbita e provocariam o caos. A salvação do mundo deve-se ao facto de o amor ser impossível. O homem que está apaixonado adivinha, também ele sabe, que o amor é gémeo da morte. Mas isso não o impede, a ele que é prisioneiro do seu destino, de entrar de rompante na cela do seu vizinho gritando de alegria: sou livre!
Stig Dagerman
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