terça-feira, 9 de julho de 2013
quero outra noite no fim do dia #17
«As pessoas realmente frívolas são as que só amam uma vez na vida. O que elas chamam lealdade ou fidelidade, chamo eu letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade representa na vida emocional o mesmo que a coerência na vida do intelecto, apenas uma confissão de impotência. A fidelidade! Tenho de a analisar um destes dias. Está intimamente associada à paixão da propriedade. Há muitas coisas que atiraríamos fora se não receássemos que outros as apanhassem.»
Oscar Wilde, "O Retrato de Dorian Gray", Editorial Estampa, 1995
segunda-feira, 8 de julho de 2013
interpretose now #9
«finge-se que a cama é uma jangada e depois a morte chega. esperada e celebrada com uma vida. e depois.
a própria vida é uma jangada de cujo rumo desconfiamos. como esta avenida. e o amor. e tudo, afinal.»
Ruy Belo, "Todos os Poemas", Assírio & Alvim, 2009
domingo, 7 de julho de 2013
sábado, 6 de julho de 2013
sexta-feira, 5 de julho de 2013
a temperatura do corpo #28
«Se o amor é questão de corpo, há que conhecer intimamente esta ferramenta - por outras palavras, ler os anatomistas e não os poetas, frequentar as clínicas e não os teatros.»
Miklós Szentkuthy, “À Margem de Casanova”, Editorial Teorema, 1992
quinta-feira, 4 de julho de 2013
quarta-feira, 3 de julho de 2013
K, o elemento estranho da tabela literária #7
1913
14 de Agosto.O coito considerado como castigo da felicidade de viver em conjunto. Viver no maior ascetismo possível, mais asceticamente que um celibatário, é para mim a única possibilidade de suportar o casamento. Mas ela?
E apesar de tudo, mesmo se tivéssemos, F. e eu, direitos absolutamente iguais, esperanças e possibilidades idênticas, não me casaria. Contudo, este beco sem saída para o qual empurrei lentamente o seu destino torna-me o casamento uma obrigação que decerto inelutável, mas sem limites. É esse o efeito de não sei que lei secreta das relações humanas.
Franz Kafka, "Antologia de Páginas Íntimas", Guimarães Editores, 1997
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terça-feira, 2 de julho de 2013
Chefe, precisamos de mentiras novas #20
«Toda a gente passou horas em que andou desencontrado, como à espera do comboio na paragem do autocarro»
Sérgio Godinho, "Lá em Baixo", Campolide, 1979
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segunda-feira, 1 de julho de 2013
Chefe, precisamos de mentiras novas #19
«avanço lesto por entre a multidão insane presa de ecrãs de teelvisão alarmes soam em todo o quarteirão disparos, gritos, lançando a confusão é guerra sem quartel de empresas rivais na busca do controlo de mercados locais ou então... ou então... encena-se um directo para a teelvisão sirenes passam em grande aceleração olhando para ecrãs de teelvisão o caso surge com outra dimensão imagens com voz servindo de guião é guerra sem quartel de empresas rivais na busca do controlo de mercados locais ou então... ou então... encena-se um directo para a teelvisão»
Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro, "Em Directo (Para a Teelvisão)", Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável, 1998
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Teoria da Conspiração #46 (ou a Subtil Cadeia das Formas)
1. As palavras são sinais de fenómenos naturais.
2. Os fenómenos naturais específicos são símbolos de fenómenos espirituais específicos.
3. A Natureza é símbolo do espírito.»
Ralph Waldo Emerson, "A Natureza", Sinais de Fogo, 2001
sábado, 29 de junho de 2013
A vida não é um sonho #31
«Se não podes fazer da vida o que tu queres,
tenta ao menos isto, quanto puderes:
não a disperses em mundanas cortesias,
em vã conversa,
fúteis correrias.
Não a tornes banal
à força de exibida,
e de mostrada
muito em toda a parte
e a muita gente,
no vácuo dia-a-dia que é o deles
- até que seja em ti uma visita incómoda.»
Constantino Cavafy, "90 e Mais Quatro Poemas", Edições Asa, 2003
sexta-feira, 28 de junho de 2013
quinta-feira, 27 de junho de 2013
o poeta sabe menos que o poema #5
A ilha onde tudo fica claro.
Aqui é possível ter pé nas razões.
Caminhos que a servem só os de ir.
Vergam-se os arbustos pesados de respostas.
Aqui vai crescendo a árvore do Bom Senso
de ramos eternamente desenredados.
A fulminantemente simples árvore da Compreensão
junto à nascente do Aí Então É Isso.
Quanto mais longe no bosque, mais amplamente se abre o
Vale da Clarividência.
Se alguma dúvida há, o vento a dissipa.
Sem ser chamado o eco leva a voz
e de bom grado desvenda os enigmas do mundo.
Ao lado direito a gruta onde o sentido descansa.
À esquerda fica o lago da Profunda Convicção.
A verdade desprende-se do fundo e vem levemente flutuar à superfície.
Sobranceira ao vale a Certeza Inabalável
de cujo cume se estende a Vera Essência.
Wislawa Szymborska, "Paisagem com Grão de Areia", Relógio D`Água, 1998
quarta-feira, 26 de junho de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
segunda-feira, 24 de junho de 2013
domingo, 23 de junho de 2013
Ouvido no estrangeiro #1
«The bodily entry to the discomfort is right there. It is a door. Most people do not yet know that door. What they know are feelings and emotions, often troubling ones. But we can turn our attention to a place that is deeper than the usual bad feelings. Oddly enough, this deeper place feels better even just from getting your attention, although only vagueness may be there at first.»
Eugene Gendlin, "The evolution of psychotherapy: A meeting of the minds", Jeffrey K. Zeig (Ed.), 2000
sábado, 22 de junho de 2013
sexta-feira, 21 de junho de 2013
o Mal-estar da Civilização #38
«Não esqueçamos que o progresso é um objectivo facultativo, não um compromisso incondicional, e que o seu ritmo, por compulsivo que possa vir a tornar-se, nada tem de sagrado. Lembremos também que um progresso mais lento na conquista da doença não ameaçaria a sociedade, angustiante como é para aqueles que têm a deplorar o facto de que a sua própria doença ainda não tenha sido vencida, mas essa mesma sociedade ficaria de facto ameaçada pela erosão daqueles valores morais cuja perda, talvez causada por uma busca implacável do progresso científico, faria com que os seus mais deslumbrantes triunfos não valessem a pena. Lembremos enfim que o progresso não pode ter por meta abolir a condição da mortalidade. De um ou de outro mal, cada um de nós morrerá. A nossa condição mortal recai sobre nós com a sua crueldade mas também com a sua sabedoria - porque sem ela não haveria a promessa eternamente renovada da frescura, da imediatez e da sofreguidão da juventude; nem existiria para nenhum de nós incentivo para contarmos os nossos dias e fazer com que valham a pena. Com todo o denodo que pomos em arrebatar o que pudermos à nossa mortalidade, deveríamos suportar-lhe o fardo com paciência e dignidade»
Hans Jonas, "Ética, Medicina e Técnica", Vega, 1994
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