domingo, 9 de junho de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #13


(há homens que falam com deus em segredo: são os insensatos. Têm na voz o horizonte de outra voz, soletram as palavras que deus soletra na sua eternidade.

há homens que transportam um voz para dizimar o rosto para que falam.

há vozes que escurecem os contornos de um rosto.) 

Extracto do Diário de Abel 


Rui Nunes, "A Boca na Cinza",  Relógio d'Água, 2003

sábado, 8 de junho de 2013

Momento Pergaminho #15


«Sentado ou deitado, feche os olhos e respire várias vezes, profundamente. Em cada respiração sinta o seu corpo atingir um profundo relaxamento. Descontraia a sua mente e deixe o seu pensamento correr. Procure não se reter em nenhum dos seus pensamentos. Sinta que se relaxa e encontra a calma dentro de si.
Este estado profundo é uma fonte de nutrição e de cura para si. Saiba que pode encontrar aí tudo o que precisa de saber para se curar. Se tem um problema de saúde ou uma pergunta a fazer à sua intuição acerca do seu corpo, aproveite a ocasião para o fazer.»

Shakti Gawain, "Vivendo na Luz", Pergaminho, 1999  

sexta-feira, 7 de junho de 2013

ninguém é filho das ervas #19


«A contradição é só aparente: as nossas posições não convergem porque temos pontos de vista paralelos.»

Dimíter Ánguelov

quinta-feira, 6 de junho de 2013

quero outra noite no fim do dia #16




«"As tuas flechas não chegaram ao alvo," observou  o Mestre, "porque espiritualmente tu não alcanças bastante longe. Deves proceder como se o alvo se encontrasse infinitamente afastado. Para nós, mestres arqueiros, é facto assente que um bom arqueiro consegue atirar mais longe com um arco medianamente forte do que um arqueiro não-espiritual como o mais forte arco possível. É que não depende do arco, mas sim da presença de espírito, da vitalidade e da consciência com que se dispara. De modo a libertares toda a força desta consciência espiritual, deves executar a cerimónia de modo diferente: mais como um bom bailarino dança. Se assim o fizeres, os teus movimentos originar-se-ão no centro, no apoio da respiração correcta. Em vez de desenrolares a cerimónia como algo aprendido de cor, será então como se estivesses a criar de acordo com a inspiração do momento, de tal modo que a dança e o bailarino serão uma e a mesma coisa. Executando a cerimónia como uma dança religiosa, a tua consciência espiritual desenvolverá toda a sua força."»      

Eugen Herrigel, "Zen e a arte do tiro com arco", Via Optima, 1987

quarta-feira, 5 de junho de 2013

prove que não é um robô #1






sou dentro de mim o que quer fugir
embora vá recusando a cada bafo
o panorama dos astronautas


tiro notas
dos calendários gigantes
das marés do sol e da lua
do rasto agrícola das nossas mãos
sobre a mesa


de madrugada
remo como exilado inca
em direcção à luz


se ainda me for fácil mentir direi
é afinal a única substância do poema
este cigarro entre estrofes

Miguel-Manso, "Contra a Manhã Burra", Mariposa Azual, 2009

terça-feira, 4 de junho de 2013

o poeta sabe menos que o poema #4


nem todos os homens que
saem de minha casa saem de minha cama
nem todos aqueles que
saem da minha cama saem de dentro de mim
nem todos os que
saem de dentro de mim chegaram sequer a lá entrar
não, nada é tão líquido assim 

Bénédicte Houart, "Vida: Variações", Cotovia, 2008

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Toda a humilhação leva à morte #22


    «Por felicidade, contudo, o que é o ser? - Não há senão maneiras de ser, sucessivas. Há tantas quanto objectos. 
Tantas quantos os batimentos de pálpebras.
      Tanto quanto, tornando-se nosso regime, um objecto nos concerne, também o nosso olhar o cerca, o discerne. 
Trata-se, graças aos deuses, de uma "discrição" recíproca; e o artista acerta logo no alvo.
      Sim, só o artista, então, sabe como fazer.
      Deixa do olhar, atira ao alvo.
      O objecto, é certo, acusa o golpe.
      A verdade afasta-se em voo, indemne.
      A metamorfose aconteceu.» 
    
Francis Ponge, "Alguns poemas", Edições Cotovia, 1996

domingo, 2 de junho de 2013

Chamada a pagar no destinatário #18


«Shock me, make me feel better. Shock me, put on your black leather. Shock me, we can come together» 

sábado, 1 de junho de 2013

dedicatória #24*


* dedicada a todos os agentes especiais.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

interpretose now #7


«Vem o terror como tudo o que é primário do sono e do sonhar. Do sono originário que esparge terror e esperança com tanta frequência indecifráveis e possessivos. Somente libertador este sono que arranca das origens, porque dá a  ver e a sentir o que na calma da vigília e até nessas raras calmas que a história consente, e que formam parte do seu poder de sedução, se dão. O terror ataca o que, adormecido, o respira, surpreendendo-o para em seguida o possuir, detendo a sua respiração, petrificando-o. Ou imobilizando-o pelo menos. E também levando-o para outro reino, esse de onde seja só a vida, continuar a estar vivo ou, pelo contrário, oferecendo-lhe o outro reino onde a determinação não tenha lugar, onde o terror que vem da origem seja evitado, portanto. E o pensamento, assim ele é aguardado, possa ser como um desconhecido que chama à porta sem chamar e que fala sem pronunciar uma palavra.»

Maria Zambrano, "Clareiras do Bosque", Relógio D'Água, 1995    

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Não respire... (ou leituras em apneia) #8



«A causa depois do efeito. A minha tese é esta, minha querida – nós trazemos na alma uma bomba e o problema está em alguém fazer lume para a rebentar. Nós escolhemos ser santos ou heróis ou traidores ou cobardes e assim. O problema está em vir a haver ou não uma oportunidade para isso se manifestar. Nós fizemos uma escolha na eternidade. Mas quantos sabem o que escolheram? Alguns têm a sorte ou a desgraça de alguém fazer lume para rebentarem o que são, ver-se o que estava por baixo do que estava por cima. Mas outros vão para a cova na ignorância. Às vezes fazem ensaios porque a pressão interior é muito forte. Ou passam a vida à espera de um sinal, um indício elucidativo. Ou passam-na sem saberem que trazem a bomba na alma que às vezes ainda rebenta, mesmo já no cemitério. Ou quem diz bomba diz por exemplo uma flor para pormos num sorriso. Ou um penso para pormos num lanho. Mas não sabem. Agora pergunto – se escolheram a maldição e alguém faz lume, quem é culpado de ela rebentar? Como é que um tipo é culpado de trazer uma bomba na alma se foi outro que a fez explodir? E como é que é culpado o tipo que fez o lume, se a bomba não era dele?» 

Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990

Pode respirar. 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

espécie de oração particular #29


Ó pudesse como os outros, criaturas destemidas, carpir o meu Destino,
           Aproveitando a minha ocasião de lamentar. A pedra fica contente
Com um ódio formal e cai e cai; as plantas indignam-se
           Com a sua dimensão única e duvidam apenas
Se a luz ou a escuridão declinam no pior sentido, e os exilados
           Mais subtis que tenham todos os caminhos satisfazem-se
Em provar que nenhum conduz a um objectivo: porque deve o Homem aprender também
           Que basta dar testemunho, porque até protestar é errado?

W.H. Auden, "O Massacre dos Inocentes", Assírio & Alvim, 1994 

terça-feira, 28 de maio de 2013

Imediatamente embora pouco a pouco #32


«- Bartleby - disse eu entrando no escritório de rosto calmo mas severo. - Estou seriamente desgostoso. Estou penalizado, Bartleby. Pensava melhor coisa de si. Imaginava-o com modos de cavalheiro, e que em qualquer dilema delicado lhe bastaria uma leve sugestão - em resumo, uma assumpção. Mas parece-me que estou enganado. Por que motivo - acrescentei, sobressaltando-me ao de leve - nem sequer tocou ainda naquele dinheiro - e apontava para onde este estava, exactamente onde eu o deixara na tarde anterior.
Nada respondeu.
- Vai ou não deixar-me? - perguntei-lhe então num acesso de súbita fúria, avançando para ele.
- Preferiria de não o deixar - retorquiu, acentuando delicadamente o não

Herman Melville, "Bartleby", Assírio & Alvim, 1988

segunda-feira, 27 de maio de 2013

a temperatura do corpo #26


«Não és já o corpo, e quando te penso não cresces, e sempre disse que seria incapaz de desejar quem não imagino. Muitas vezes te falo de estarmos próximos, outras, do hábito, e até deste modo de te não amar que me habituei.»

Rui Nunes, "Sauromaquia", Relógio D'Água, 1986

domingo, 26 de maio de 2013

diário dos mesmos pesares #28


«Todos os homens vivem rodeados de linhas de baleias. Todos nascem com cordas em volta do pescoço; é apenas quando se encontram perante uma morte súbita e rápida que os mortais percebem os perigos silenciosos, subtis e sempre presentes da vida. E se vós sois filósofos, embora sentados numa baleeira, não sentireis no vosso coração mais terror do que se vos encontrásseis sentados diante do fogo da lareira, com um atiçador e não com um arpão ao alcance da mão.» 

Herman Melville, "Moby Dick", Relógio D'Água, 2007  

sábado, 25 de maio de 2013

Teoria da Conspiração #45 (ou o Promontório Oculto dos Razoáveis)



«As paixões humanas não se detêm senão perante uma força moral que respeitem. Se toda a autoridade desse gênero faltar, reinará a lei do mais forte e, latente ou agudo, o estado de guerra será necessariamente crónico...» 

Emile Durkheim

sexta-feira, 24 de maio de 2013

o poeta sabe menos que o poema #3


Compreendo que se adorem as mulheres,
se lhes beije e acaricie a beleza

- pessoal - em outro corpo como o seu.
Pois é seu corpo incrível maravilha
cuja demonstração aturde o ar.

Um corpo de mulher é uma paisagem
que seduz olhar, suspende o ânimo
e dá ânsias de percorrer a quem contempla.

Ondulações suaves. Firmes cumes
em túrgidas colinas levantados.
Azulados arroios quase ocultos
sob a polida pele onde decorrem.

Caminhos e azinhagas atraentes.
Tímidos brejos. E outros cimos ainda
a alcançar, com curvas de delícia
e grutas que as próprias mãos vão cativar.

É grato percorrer seu doce corpo.
Sentir o seu tépido clima. E com os lábios
saborear as sensações que dele emanam.

É lógico que se amem as mulheres.
Estranho é o contrário. Até o vê-las
fazer amor é agradável.

É um céu seu corpo. O céu humano.
Fora eu mulher e lésbica seria.

J. M. Fonollosa, "Cidade do Homem: New York", Antígona, 1993

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Por vocações de Leitura #11 (o Super-Homem)

Karl Marx

Max Stirner

Albert Cossery

Slavoj Žižek

Friedrich Nietzsche

William Faulkner

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #13


«- É doloroso dar vida ao espírito bravio, e não lembrar...
- Acho que ter um tronco e equilibrá-lo é preferível a ter memória.
- Também é verdade que, com algum treino, o dentro e o fora se tornam reversíveis, quase sem dor.
- Nascer e renascer. Dar botões e ramos. Deixar cair as folhas e torná-las matéria nossa... 
- É a tua travessura de árvore. A tua pujança não recorda. Mas eu não sou árvore.
- Por que hei-de fazer como tu?
- Haverá uma outra maneira efectiva de procurar? Se viver fosse recordar, uma semente sonhante seria o seu perfeito equivalente. Olha, seríamos cristais...
- Quando desci ao espírito bravio...
- Sim, recorda, se tens necessidade de recordar...
- Fiquei admirada com a sua ousadia.
- Como assim?
- Vibrava indefectível com qualquer frequência de luz.
- É assim que ele sente.
- Voltei a sentir, de novo, o desejo de um tálamo aberto e imaculado.
- E ele?»  

 Maria Gabriela Llansol, "Parasceve", Relógio D'Água, 2007

terça-feira, 21 de maio de 2013

A vida não é um sonho #30


«Nunca chegamos aquele Algo que está em falta. Aquilo que esperamos e esperamos nunca chega. 
Aquilo que todos esperam nunca aparece. É este o pecado maior»

Robert Walser