sábado, 11 de maio de 2013

Dicionário das causalidades #21


V

Vegetalmente

«De todo lo que he hecho, de todo lo que he perdido,
de todo lo que he ganado sobresaltadamente,
en hierro amargo, en hojas, puedo ofrecer un poco.

Un sabor asustado, un río que las plumas
de las quemantes águilas van cubriendo, un sulfúrico
retroceso de pétalos.
                              No me perdona ya la sal entera
ni el pan continuo, ni la pequeña iglesia devorada
por la lluvia marina, ni el carbón mordido
por la espuma secreta.

He buscado y hallado, pesadamente,
bajo la tierra, entre los cuerpos temibles,
como un diente de pálida madera
llegando y yendo bajo el ácido duro,
junto a los materiales
de la agonía, entre luna y cuchillos,
muriendo de nocturno.
                                  Ahora, en medio
de la velocidad desestimada, al lado
de los muros sin hilos,
en el fondo cortado por los términos,
aquí estoy con aquello que pierde estrellas,
vegetalmente, solo.»

Pablo Neruda, "Terceira Residência", Campo das Letras, 2007

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #12


Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio

Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tuido isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.

Ruy Belo, "O Problema da Habitação", Assírio & Alvim, 2013

quinta-feira, 9 de maio de 2013

esquece tudo o que te disse #33


Noli foras ire, in te ipsum redi, in interiore homine habitat veritas.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

espécie de oração particular #28


«São tempos temíveis, meu Deus. Esta noite, pela primeira vez, passei-a deitada no escuro de olhos abertos e a arder, e muitas imagens de sofrimento humano desfilavam perante mim. Vou prometer-te uma coisa, Deus, só um a ninharia: não irei sobrecarregar o dia de hoje com igual número de preocupações em relação ao futuro, mas isso custa um certo exercício. Cada dia já tem a sua conta. Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares, apesar de eu não poder garantir nada com antecedência. Mas torna-se-me cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar e, ajudando-te, ajudamo-nos a nós próprios. E é esta a única coisa que podemos preservar nestes tempos e também a única que importa: uma parte de ti em nós, Deus. E talvez possamos ajudar a pôr-te a descoberto nos corações atormentados de outros. Sim, meu Deus, quanto ás circunstâncias pareces não ter lá grande influência sobre elas, “é evidente que fazem parte indissolúvel desta vida”. Também não te chamo à responsabilidade por isso; tu é que podes mais tarde chamar-nos à responsabilidade. E, quase a cada batida do coração, torna-se-me isto mais nítido: que tu não nos podes ajudar, que nós devemos ajudar-te e que a morada em nós onde tu resides tem de ser defendida até às últimas. Existem pessoas, a sério que é verdade, que no último momento põem aspiradores a salvo e garfos e colheres de prata em vez de ti, meu Deus. E há gente u quer salvar o corpinho no qual se acolhem somente mil medos e rancores. E dizem: “A mim não me lançam eles a garra.” E esquecem-se de que ninguém fica nas garras de ninguém, estiverem nos teus braços. Recomeço a ficar um bocadinho mais calma, Deus, por causas desta conversa contigo. Hei-de ter mais conversas contigo no futuro próximo e, deste modo, impedir que me fujas. Também hás-de viver tempos de maior privação em mim, meu Deus, não serás alimentado tão fortemente pela minha confiança, mas acredita que continuarei a trabalhar e a ser-te fiel e não te expulsarei do meu território.»

Etty Hillesum, "Diário 1941-1943", Assírio & Alvim, 2008

terça-feira, 7 de maio de 2013

ninguém é filho das ervas #18


«If we make a poem of celebration, it has to include a lot of darkness for it to be real.»
Robert Hass

segunda-feira, 6 de maio de 2013

dedicatória #23**


** dedicada a todas as destemidas.

domingo, 5 de maio de 2013

dedicatória #23*


* dedicada a todas as dedicadas.

sábado, 4 de maio de 2013

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #17


«Tenho um sentido muito forte de responsabilidade perante o mundo, de não poder viver apenas para minha própria satisfação, de só o facto de estar no mundo me dar uma obrigação de fazer tudo ao meu alcance para tornar o mundo um local melhor onde se viver, por pequena que seja a escala em posso actuar» 
Henry Spira

 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

a temperatura do corpo #26


«A ausência da dor equivale à presença do mundo. A presença da dor equivale à ausência do mundo. Em virtude destas equações, a dor transforma-se em poder»
Elaine Scarry

quarta-feira, 1 de maio de 2013

diário dos mesmos pesares #27





















«[...] algumas pessoas são levadas a crer que fazer dinheiro constitui o objecto da gestão doméstica e pensam que tudo o que há a fazer na vida é aumentar o seu pecúlio sem limites [...]; alguns homens transformam qualquer qualidade ou arte num meio de fazer dinheiro: concebem isto como fim e todas as coisas têm de contribuir para a promoção desse fim»  

Aristóteles, "Política", Vega, 1998

terça-feira, 30 de abril de 2013

Paz à sua bala #6


Paris, 30 de Novembro de 1994

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Retrato de Família #25


Jean-Jacques R. Karamazov (1712-1778)

«Vejo-o a satisfazer a fome no primeiro carvalho e a saciar a sede no primeiro riacho; a encontrar cama ao pés da árvore que lhe forneceu o repasto; e com isso, todas as suas necessidades ficam satisfeitas.»   

domingo, 28 de abril de 2013

o Mal-estar da Civilização #37


«Dizem que uma injustiça é, por natureza um bem, e sofrê-Ia, um mal, mas que ser vítima de injustiça é um mal maior do que o bem que há em cometê-Ia. De maneira que, quando as pessoas praticam ou sofrem injustiças umas das outras, e provam de ambas, lhes parece vantajoso, quando não podem evitar uma coisa ou alcançar a outra, chegar a um acordo mútuo, para não cometerem injustiças nem serem vítimas delas. Daí se originou o estabelecimento de leis e convenções entre elas e a designação de legal e justo para as prescrições da lei. Tal seria a génese e essência da justiça, que se situa a meio caminho entre o maior bem — não pagar a pena das injustiças — e o maior mal — ser incapaz de se vingar de uma injustiça. Estando a justiça colocada entre estes dois extremos, deve, não preitear-se como um bem, mas honrar-se devido à impossibilidade de praticar a injustiça. Uma vez que o que pudesse cometê-ia e fosse verdadeiramente um homem nunca aceitaria a convenção de não praticar nem sofrer injustiças, pois seria loucura.»


«Efectivamente, todos os homens acreditam que lhes é muito mais vantajosa, individualmente, a injustiça do que a justiça. E pensam a verdade, como dirá o defensor desta argumentação. Uma vez que, se alguém que se assenhoreasse de tal poder não quisesse jamais cometer injustiças, nem apropriar-se dos bens alheios, pareceria aos que disso soubessem muito desgraçado e insensato. Contudo, haviam de elogiá-lo em presença uns dos outros, enganando-se reciprocamente, com receio de serem vítimas de alguma injustiça.»


Platão, "A República [Livro II]", Fundação Calouste Gulbenkian, 2001

sábado, 27 de abril de 2013

água benta?


©Tsai,Ming-liang;1997

sexta-feira, 26 de abril de 2013

quero outra noite no fim do dia #14



«Ao anoitecer, pouco antes das seis horas, enquanto ele faz as contas dos seus deveres na mesa da cozinha, a mãe chega a casa. Afasta o livro de aritmética, agarra em Åke pela mão e puxa-o para fora do sofá.
"Ouve, vai à procura do teu pai", diz ela, arrastando-o para a entrada, ficando atrás dele para lhe cortar qualquer possível fuga, "vai à procura do teu pai e vais dizer-lhe da minha parte que te dê dinheiro."
Os dias são piores do que as noites. Os jogos da noite são melhores do que os do dia. À noite, ele pode tornar-se invisível e chegar com maior velocidade, passando por cima dos telhados, aos sítios onde a sua presença é necessária. De dia, não se é invisível. De dia, tudo decorre mais devagar. De dia, os jogos não têm os mesmos atractivos. Åke sai de casa e é tudo o que há de menos invisível, o filho da porteira, segura-o pela manga. Mas Åke sabe que a mãe, postada à janela, ficará a observá-lo até que ele tenha desaparecido na esquina da rua e por isso solta-se sem dizer palavra e depois foge como se houvesse alguém a correr atrás dele. Mas assim que dobra a esquina, muda de andamento e caminha tão devagar quanto pode, contando as pedras do passeio e os escarros que vê no chão. O filho da porteira apanha-o, mas Åke não lhe responde: não lhe contará que está à procura do pai que não levou o salário para casa.»

Stig Dagerman, "Jogos da Noite", Antígona, 1992

quinta-feira, 25 de abril de 2013

diário dos mesmos pesares #26


 «Nos regimes fascistas da primeira metade do século XX, estabilizou-se absurdamente a forma obsoleta da economia, e multiplicou-se o terror de que ela necessita para se manter em pé, e agora o seu absurdo vem totalmente à luz do dia. Mas também por ele está caracterizada a vida privada. Com o poder de disposição implantou-se, uma vez mais e simultaneamente, a asfixiante ordem do privado, o particularismo dos interesses, a já há muito ultrapassada forma da família, o direito de propriedade e o seu reflexo no carácter. Mas com má consciência, com a dificilmente dissimulada consciência da inverdade. O que na burguesia sempre se considerou bom e decoroso, a independência, a persistência, a previsão e a prudência, está corrupto até ao cerne. Pois enquanto as formas burguesas da existência se conservam com obstinação, o seu pressuposto económico foi derrubado. O privado transferiu-se inteiramente para o privativo que, no fundo, desde sempre foi, e com o pertinaz apego ao interesse próprio misturou-se tal obcecação que de nenhum modo já consegue perceber que é possível ser diferente e melhor. Os burgueses perderam a sua ingenuidade; tornaram-se a tal respeito de todo insensíveis e mal intencionados. A mão protectora que ainda cuida e cultiva o seu pequeno jardim, como se este, desde há muito, não se tivesse convertido em «lote», mas que, timorata, mantém à distância o intruso desconhecido, é a que já recusa o asilo ao refugiado político. Como se tivessem objectivamente ameaçados, os detentores do poder e o seu séquito tornam-se subjectivamente de todo inumanos. A classe dobra-se assim sobre si mesma e apropria-se da vontade destruidora do curso do mundo. Os burgueses sobrevivem como fantasmas que anunciam o desastre.» 

Theodor W. Adorno, "Minima Moralia", Edições 70, 2001

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Toda a humilhação leva à morte #21


«O desnudar erótico é igual à condenação à morte, na medida em que ela inaugura um estado de comunicação, de perda de identidade e de fusão.»

Jean Baudrillard

terça-feira, 23 de abril de 2013

Por vocações de Leitura #10 (dia mundial do livro)

Auto-Conhecimento

Poesia


Infantil


Romance


Ensaio

segunda-feira, 22 de abril de 2013

interpretose now #5


«Os amantes têm mãos a menos.
No amor exibe-se o que FALTA ao CORPO.
No CORPO deve exibir-se o que FALTA (mesma ASSIM) ao AMOR.» 


Gonçalo M. Tavares, "Livro da Dança", Assírio & Alvim, 2001