terça-feira, 30 de abril de 2013

Paz à sua bala #6


Paris, 30 de Novembro de 1994

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Retrato de Família #25


Jean-Jacques R. Karamazov (1712-1778)

«Vejo-o a satisfazer a fome no primeiro carvalho e a saciar a sede no primeiro riacho; a encontrar cama ao pés da árvore que lhe forneceu o repasto; e com isso, todas as suas necessidades ficam satisfeitas.»   

domingo, 28 de abril de 2013

o Mal-estar da Civilização #37


«Dizem que uma injustiça é, por natureza um bem, e sofrê-Ia, um mal, mas que ser vítima de injustiça é um mal maior do que o bem que há em cometê-Ia. De maneira que, quando as pessoas praticam ou sofrem injustiças umas das outras, e provam de ambas, lhes parece vantajoso, quando não podem evitar uma coisa ou alcançar a outra, chegar a um acordo mútuo, para não cometerem injustiças nem serem vítimas delas. Daí se originou o estabelecimento de leis e convenções entre elas e a designação de legal e justo para as prescrições da lei. Tal seria a génese e essência da justiça, que se situa a meio caminho entre o maior bem — não pagar a pena das injustiças — e o maior mal — ser incapaz de se vingar de uma injustiça. Estando a justiça colocada entre estes dois extremos, deve, não preitear-se como um bem, mas honrar-se devido à impossibilidade de praticar a injustiça. Uma vez que o que pudesse cometê-ia e fosse verdadeiramente um homem nunca aceitaria a convenção de não praticar nem sofrer injustiças, pois seria loucura.»


«Efectivamente, todos os homens acreditam que lhes é muito mais vantajosa, individualmente, a injustiça do que a justiça. E pensam a verdade, como dirá o defensor desta argumentação. Uma vez que, se alguém que se assenhoreasse de tal poder não quisesse jamais cometer injustiças, nem apropriar-se dos bens alheios, pareceria aos que disso soubessem muito desgraçado e insensato. Contudo, haviam de elogiá-lo em presença uns dos outros, enganando-se reciprocamente, com receio de serem vítimas de alguma injustiça.»


Platão, "A República [Livro II]", Fundação Calouste Gulbenkian, 2001

sábado, 27 de abril de 2013

água benta?


©Tsai,Ming-liang;1997

sexta-feira, 26 de abril de 2013

quero outra noite no fim do dia #14



«Ao anoitecer, pouco antes das seis horas, enquanto ele faz as contas dos seus deveres na mesa da cozinha, a mãe chega a casa. Afasta o livro de aritmética, agarra em Åke pela mão e puxa-o para fora do sofá.
"Ouve, vai à procura do teu pai", diz ela, arrastando-o para a entrada, ficando atrás dele para lhe cortar qualquer possível fuga, "vai à procura do teu pai e vais dizer-lhe da minha parte que te dê dinheiro."
Os dias são piores do que as noites. Os jogos da noite são melhores do que os do dia. À noite, ele pode tornar-se invisível e chegar com maior velocidade, passando por cima dos telhados, aos sítios onde a sua presença é necessária. De dia, não se é invisível. De dia, tudo decorre mais devagar. De dia, os jogos não têm os mesmos atractivos. Åke sai de casa e é tudo o que há de menos invisível, o filho da porteira, segura-o pela manga. Mas Åke sabe que a mãe, postada à janela, ficará a observá-lo até que ele tenha desaparecido na esquina da rua e por isso solta-se sem dizer palavra e depois foge como se houvesse alguém a correr atrás dele. Mas assim que dobra a esquina, muda de andamento e caminha tão devagar quanto pode, contando as pedras do passeio e os escarros que vê no chão. O filho da porteira apanha-o, mas Åke não lhe responde: não lhe contará que está à procura do pai que não levou o salário para casa.»

Stig Dagerman, "Jogos da Noite", Antígona, 1992

quinta-feira, 25 de abril de 2013

diário dos mesmos pesares #26


 «Nos regimes fascistas da primeira metade do século XX, estabilizou-se absurdamente a forma obsoleta da economia, e multiplicou-se o terror de que ela necessita para se manter em pé, e agora o seu absurdo vem totalmente à luz do dia. Mas também por ele está caracterizada a vida privada. Com o poder de disposição implantou-se, uma vez mais e simultaneamente, a asfixiante ordem do privado, o particularismo dos interesses, a já há muito ultrapassada forma da família, o direito de propriedade e o seu reflexo no carácter. Mas com má consciência, com a dificilmente dissimulada consciência da inverdade. O que na burguesia sempre se considerou bom e decoroso, a independência, a persistência, a previsão e a prudência, está corrupto até ao cerne. Pois enquanto as formas burguesas da existência se conservam com obstinação, o seu pressuposto económico foi derrubado. O privado transferiu-se inteiramente para o privativo que, no fundo, desde sempre foi, e com o pertinaz apego ao interesse próprio misturou-se tal obcecação que de nenhum modo já consegue perceber que é possível ser diferente e melhor. Os burgueses perderam a sua ingenuidade; tornaram-se a tal respeito de todo insensíveis e mal intencionados. A mão protectora que ainda cuida e cultiva o seu pequeno jardim, como se este, desde há muito, não se tivesse convertido em «lote», mas que, timorata, mantém à distância o intruso desconhecido, é a que já recusa o asilo ao refugiado político. Como se tivessem objectivamente ameaçados, os detentores do poder e o seu séquito tornam-se subjectivamente de todo inumanos. A classe dobra-se assim sobre si mesma e apropria-se da vontade destruidora do curso do mundo. Os burgueses sobrevivem como fantasmas que anunciam o desastre.» 

Theodor W. Adorno, "Minima Moralia", Edições 70, 2001

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Toda a humilhação leva à morte #21


«O desnudar erótico é igual à condenação à morte, na medida em que ela inaugura um estado de comunicação, de perda de identidade e de fusão.»

Jean Baudrillard

terça-feira, 23 de abril de 2013

Por vocações de Leitura #10 (dia mundial do livro)

Auto-Conhecimento

Poesia


Infantil


Romance


Ensaio

segunda-feira, 22 de abril de 2013

interpretose now #5


«Os amantes têm mãos a menos.
No amor exibe-se o que FALTA ao CORPO.
No CORPO deve exibir-se o que FALTA (mesma ASSIM) ao AMOR.» 


Gonçalo M. Tavares, "Livro da Dança", Assírio & Alvim, 2001

domingo, 21 de abril de 2013

dedicatória #22*


* dedicada a todas as pedras vivas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

espécie de oração particular #27


Não quero morrer neste mundo belo,
Mas viver no coração dos homens,
E encontrar sepultura no bosque florido,
Salpicado de sol.
O jogo dos fracassos da vida como ondas
Com as suas lágrimas e sorrisos,
Unindo-se e separando-se!
Encandeando
Alegrias e tristezas do homem,
Quero construir sobre esta terra
A minha casa eterna.
Farei florescer novas flores e canções
Para que as reúnas, amanhecer e escuridão.
Colhe-as a sorrir...
E quando murcharem
Espalha-as.

Rabindranath Tagore, "Poesia", Assírio & Alvim, 2004

quinta-feira, 18 de abril de 2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

Teoria da Conspiração #44 (ou a Exigência dos Enredos Contemporâneos)


«O contacto íntimo com a palavra tornara-o exigente. O lugar-comum, esse oceano navegável dos outros, era interdito. Já que não podia ser original, porque o início é ainda um mito, seria lúcido. E esta palavra que o Poder continuamente repetia no seu íntimo - o Poder tomava para Milos a face das contestação metafísica - era um mata-borrão onde sentimentos, gestos, tudo era absorvido.»

Rui Nunes, "Os Deuses da Antevéspera", Parceria A. M. Pereira LDA., 1977   

domingo, 14 de abril de 2013

a temperatura do corpo #25


«Por vezes o Sr. Cogito recorda, não sem comoção, a sua marcha adolescente rumo à perfeição, esse juvenil per aspera ad astram. Ora sucedeu-lhe um dia, ao correr para as aulas, uma pedrinha entrar-lhe para o sapato. Meteu-se maliciosamente entre a pele e a peúga. O bom-senso ordenava-lhe que se livrasse do intruso, mas o princípio de amor fati – pelo contrário – a suportá-lo. Optou pela segunda, resolução heróica. A princípio não parecia grave, apenas um incómodo e nada mais, no entanto, depois de algum tempo, no campo de consciência apareceu o calcanhar, e isto no momento em que o jovem Cogito tentava laboriosamente alcançar o pensamento do professor que desenvolvia o tema da ideia em Platão. O calcanhar crescia, inchava, pulsava, de rosa pálido tornava-se púrpura como o sol poente e afastava da sua mente não só a ideia de Platão mas qualquer outra ideia. À noite, antes de se entregar ao sono, sacudiu da peúga o corpo estranho. Era um pequeno grão de areia, frio e amarelo. O calcanhar, por sua vez, estava inchado, quente e negro de dor.»

Zbigniew Herbert, "ÍTACA, Cadernos de ideias textos & imagens", Coisas de Ler, nº3 de 2011

sábado, 13 de abril de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #11


«Apaixonado pela sua beleza, transformou-se num touro de resplandecente brancura e cornos semelhantes a duas luas na fase de quarto crescente. Aproximou-se assim da jovem, indo deitar-se a seus pés. Primeiro, Europa assustou-se, mas, pouco depois, tomando coragem, acariciou o animal, sentando-se no seu dorso. Logo o touro se levanta, correndo em direcção ao mar.»

Pierre Grimal, "Dicionário da Mitologia Grega e Romana", Difel, 2009

sexta-feira, 12 de abril de 2013