terça-feira, 9 de abril de 2013
Momento Pergaminho #14
«"Colhe um fruto da figueira!" - "Aqui, venerável!" - "Divide-o" - "Dividi-o, venerável." - "O que vês nele?" - "Estes grãos diminutos, venerável!" - "Divide um deles, meu amigo!" - "Dividi-o, venerável." - "O que vês nele?" - "Nada, venerável!" ... "Acredita em mim, meu amigo: o que essa coisa diminuta é, é o próprio eu deste universo. Isto é a verdade. Isso é o próprio eu (individual). Isso és tu, Shetaketu."»
Chandogya-Upanishad, 6. 12. 1-3 a
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Perguntas Abandonadas #28
«Então, dizem eles, o destino é eficaz até ao baptismo; depois já não dizem os astrólogos a verdade. Não só o banho nos liberta, mas também a gnose: Quem éramos? Em que é que nos convertemos? Para onde fomos atirados? Para onde nos apressamos? Do que é que estamos libertados? O que é o nascimento? O que é o renascimento?»
Tito Flávio Clemente (150-215)
domingo, 7 de abril de 2013
o poeta sabe menos que o poema #2

Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta
Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo
Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita
Daniel Faria, "Poesia", Quasi Edições, 2003
sábado, 6 de abril de 2013
sexta-feira, 5 de abril de 2013
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Chefe, precisamos de mentiras novas #16
«Ao todo, foram cinco anos, cinco anos de extrema exigência tanto pessoal
como política em que tive o privilégio de ser chamado a lutar na
primeira linha. Cinco anos em que dei pelo meu país tudo aquilo que as
minhas capacidades permitiam. Cinco anos que foram, ao mesmo tempo, uma
longa aprendizagem e uma dura lição de vida.»
Miguel Relvas, "Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares", XIX Governo Constitucional de Portugal, 2013
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quarta-feira, 3 de abril de 2013
espécie de oração particular #26
«Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou;
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita,
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia;
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.»
Adélia Prado, "Bagagem", Livros Cotovia, 2002
terça-feira, 2 de abril de 2013
A vida não é um sonho #29
«Porque é que procuras bons dias aqui, na terra, onde não os podes encontrar? O que queres? Talvez que passem anos e anos, e que não chegue ao fim desses anos? A tua aspiração é um contra-senso: queres caminhar, mas não queres chegar ao fim da caminhada!»
Santo Agostinho, "Sermão 108: 3, 3"
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #30
«Há mil maneiras de matar o tempo e todas são diferentes, mas todas se equivalem, mil maneiras de não esperar nada, mil jogos que podes inventar e abandonar imediatamente.
Tens tudo a aprender, tudo o que não se aprende: a solidão, a indiferença, a paciência, o silêncio. Tens de te desabituar a tudo: de ir ao encontro daqueles com quem durante tanto tempo te cruzaste, de tomar as tuas refeições, os teus cafés no lugar que todos os dias outros reservaram para ti, que por vezes defenderam para ti, de andar por aí na cumplicidade insípida das amizades que vão sobrevivendo, no rancor oportunista e cobarde das ligações que se vão desfazendo.»
Georges Perec, "Um Homem que dorme", Editorial Presença, 1991
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domingo, 31 de março de 2013
sábado, 30 de março de 2013
interpretose now #4
«O que se desenha no horizonte? – Um século das horas extraordinárias, da dúvida, da fuga massiva. Mas não vale a pena lamentar-se e é indecoroso baixar a cabeça. O dever de ser feliz é mais válido do que nunca em tempos como os nossos. O verdadeiro realismo da espécie consiste em não esperar menos da inteligência do que se exige dela.»
Peter Sloterdijk, "O Estranhamento do Mundo", Relógio D’Água, 1993
sexta-feira, 29 de março de 2013
Toda a humilhação leva à morte #20
«A felicidade é uma característica da vida que exige o desaparecimento da vida para existir. Se a felicidade é uma qualidade global do homem, então é necessário esperar que a vida desse homem se cumpra com a morte.»
Roberto Calasso, "As Núpcias de Cadmo e Harmonia", Cotovia, 1998
quinta-feira, 28 de março de 2013
quarta-feira, 27 de março de 2013
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #10
«Feliz aquele que do mundo vão
Sem ódio deixa a luta,
E aperta um amigo ao coração
E com ele desfruta
O que, sem que o homem sequer saiba
Ou nisso atente,
Através do labirinto da alma
Erra à noite, silente.»
J. W. Goethe, "Poemas. Antologia", Centelha Editora, 1986
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Teoria da Conspiração #43 (ou o Absorvente Convite dos Impulsos)
«Seria contrário à natureza conservadora das pulsões se o objectivo da vida fosse um estado que nunca tivesse sido alcançado antes. Tem de ser um estado anterior inicial que o vivente deixou uma vez e ao qual aspira a regressar acima de todos os desvios da evolução. Se pudéssemos supor, como experiência sem excepção, que todo o vivente morre por motivos internos, poderíamos, então, dizer: O objectivo de toda a vida é a morte, e indo mais atrás: o inanimado foi anterior ao animado.»
Sigmund Freud, "Para Além do Princípio do Prazer", Relógio D'Água, 2009
segunda-feira, 25 de março de 2013
ninguém é filho das ervas #16
«Pertence aos últimos segredos do homem e da vida de livre mobilidade em geral que o nascimento do eu e do medo do mundo sejam um e o mesmo.»
Oswald Spengler
domingo, 24 de março de 2013
Imediatamente embora pouco a pouco #29
«Em mim é muito forte a disposição para não me sentir no meu lugar. Sempre foi para mim uma experiência especialmente agradável o não estar onde estivesse. Quando viajo, logo o gosto antecipado de partir daqui me faz feliz. Isto é, evidentemente, um trauma infantil pela falta de desejo de vir ao mundo. O mundo no qual nasci e a figura com a qual vim ao mundo deixam-me profundamente insatisfeito. Não gosto do meu aspecto e não me identifico com ele. Ainda me lembro que, quando vi pela primeira vez a minha imagem ao espelho, gemi literalmente de dor: não podia conceber que eu era esse. Esse é o desejo de sair do meu corpo, das minhas coisas, da minha casa...
Não me sinto em casa em lado nenhum, sinto-me sempre em estado de trânsito. De um homem assim costumava dizer-se: ele não está bem em nenhum lado.»
Ilya Kabakov em conversa com Boris Groys
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sábado, 23 de março de 2013
o Mal-estar da Civilização #36
«Também eu, excelente homem, tendo familiares; pois que, como diz Homero, não nasci nem dum carvalho, nem dum rochedo, mas de seres humanos.»
Platão, "Diálogos III - Apologia de Sócrates", Pub. Europa-América, 2ª Edição
sexta-feira, 22 de março de 2013
o poeta sabe menos que o poema #1
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder, "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim, 2001
quinta-feira, 21 de março de 2013
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