segunda-feira, 11 de março de 2013

explicando melhor #5


- Estive a ler um pouco da biografia de Horacio Quiroga... que tristeza... - murmurou nAnonima.

- «As Parcas são, em Roma, as divindades do destino, identificadas com as Meras (Moirai) gregas, de cujos atributos se foram revestindo a pouco e pouco. Na sua origem, as Parcas parecem ter sido, na religião romana, os espíritos do nascimento. Mas este traço inicial cedo se desvaneceu, perante a atração das Meras. São representadas como fiandeiras, medindo a seu bel-prazer a vida dos homens. São, como as Meras, três irmãs: um preside ao nascimento, a outra ao casamento e a terceira à morte.» - leu em voz baixa o Irmão Karamazov.

domingo, 10 de março de 2013

A vida não é um sonho #28


«A sua lua-de-mel foi um longo arrepio. Loura, angelical e tímida, o duro carácter do seu marido gelou as suas sonhadas criancices de noiva. Ela amava-o muito, no entanto, por vezes sentia um ligeiro estremecimento quando, ao passear juntos, de noite, pela rua, deitava um olhar furtivo à elevada estatura de Jordán, mudo há mais de uma hora. Por sua parte, ele amava-a profundamente, sem lho dar a conhecer.»

Horacio Quiroga, "Contos de Amor, Loucura e Morte", Cavalo de Ferro, 2003

sábado, 9 de março de 2013

a temperatura do corpo #24


«Amar é ver diferente.
Depois fica-se cego.
Mas primeiro é ver diferente.»

Gonçalo M. Tavares, "Investigações. Novalis", Difel, 2002

sexta-feira, 8 de março de 2013

dedicatória #21*


* dedicada a todas as formas de sorrir.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Dicionário das causalidades #20


U

Um

«Quando um dos nossos filósofos atingiu uma idade em que sente a sua inteligência enfraquecer, e o gelo dos anos embotar os movimentos da sua alma, reúne os seus amigos num sumptuoso banquete; depois, tendo exposto os motivos que o levaram a resolver retirar-se da natureza, e a pouca esperança que tem de poder juntar algo mais às suas belas acções, é-lhe concedida a graça, ou seja, é-lhe prescrita a morte, ou é-lhe dada uma severa ordem de viver.» 

Cyrano de Bergerac, "O Outro Mundo Ou Os Estados e Impérios Da Lua", Editorial Estampa, 1990

quarta-feira, 6 de março de 2013

Orelhas de Elefante #35


Jéssica
          Nunca me deixa alegre a suave música.
Lourenço
É que tendes espíritos atentos. Vede como procede uma manada selvagem e impetuosa, ou alegre bando de potros não domados: loucos saltos dão sem parar, mugindo e relinchando como os leva a fazer o quente sangue. Mas se o som de um clarim, acaso, escutam, ou se lhes fere as ouças qualquer música, notareis como estacam de repente, expressão de doçura a refletir-se-lhes no olhar selvagem, pela doce força, tão-somente, da música. Por isso disse o poeta que Orfeu tinha o poder de atrair com seu canto as próprias pedras, as árvores e as ondas, visto como não há nada insensível, cruel e duro a que não possa a música, com o tempo, mudar a natureza. O homem que música em si mesmo não traz, nem se comove ante a harmonia de agradável toada, é inclinado a traições, tão-só, e a roubos, e a todo estratagema, de sentidos obtusos como a noite e sentimentos tão escuros quanto o Érebo. De um homem assim desconfiai sempre. Ouvi a música.
William Shakespeare, "O Mercador de Veneza (Acto V)"

terça-feira, 5 de março de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

interpretose now #3


«Acronia não significa estarem as épocas indiferentemente umas ao lado das outras, mas sim o elas estarem umas dentro das outras, segundo o modelo do tripé, como estruturas em fuga que se rejuvenescem. Podemos abri-las como um harmónio, e então é muito grande a distância de um extremo a outro, mas também podemos metê-las umas dentro das outras como as bonecas russas, e então as paredes do tempo ficam muito perto uma das outras. As pessoas de outros séculos ouvem a nossa grafonola roufenha, e nós vemos através das paredes do tempo como elas estendem as mãos para o apetitoso banquete.» 
Elisabeth Lenk

domingo, 3 de março de 2013

diário dos mesmos pesares #25


«Portanto declaro solenemente que, até ao fim dos meus dias, nada empreenderei para repetir a minha tristeza experiência de ascensão. Fico em baixo e a partir de baixo cuspirei para toda a vossa hierarquia social. Sim. Um cuspo a cada degrau. Para a subir é preciso ter trombas de judeu, não ter medo de nada, ser um maricas feito de aço da cabeça aos pés. E isso é que eu não sou.» 

Venedikt Erofeev, "De Moscovo a Petuchki - a Lucidez de um Alcoólico Genial", Cotovia, 1995

sábado, 2 de março de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #8


«Desejo de amor já é amor»

José Tolentino Mendonça, "Estado do Bosque", Assírio & Alvim, 2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

Em nome do pai


©Kubrick, Stanley;1980

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Imediatamente embora pouco a pouco #28


«Há uma palavra, uma única, da qual não se sabe ao certo se alguma vez atravessou a barreira que separa o silêncio do som. Já que, por muito longa e irreprimivelmente que se tenha falado, a barreira entre o silêncio e o som não deixou nunca de existir, eriçando-se até levar aquele que fala à beira do paroxismo. A incontinência da fala há-de ter nesse intransponível obstáculo a sua origem. E o transbordamento do falar adquire então um caráter de fenômeno cósmico: catarata, erupção vulcânica. E a palavra em que em si mesma é unidade, conjunção milagrosa da “fysis”, do sentido que abrange e reúne os sentidos, sopro vivificante, fogo impalpável e luz da inteligência, cai desastrosa, mais infeliz que a pedra que acabará de rolar alguma vez, ao encontrar o mínimo albergue para o seu peso.
A palavra escondida, oculta sozinha no silêncio, pode surgir sustendo sem o dar a entender um longo discurso, um poema e mesmo um texto filosófico, anonimamente, orientando o sentido, transformando o encadeamento lógico em cadência; abrindo espaços de silêncios que não podem encher-se, reveladores. Já que o que há de revelador numa fala provém dessa palavra intacta que não se anuncia, nem se enuncia a si mesma, invisível à maneira de um cristal, por tanta nitidez e inexistência. Engendradora de musicalidade e de abismos de silêncio, a palavra que não é conceito porque é ela que faz conceber, a fonte do conceber que está propriamente para lá daquilo a que se chama pensar. Pois ela, esta palavra é pensamento que se sustém a si mesmo, reflexo enfim no simplesmente humano da língua de fogo que abriu àqueles sobre quem se pousou o sentido e conhecimento das línguas todas. Não se dá a ver. Abre os olhos da inteligência para que veja ou vislumbre alguma coisa. E não se apresenta a si mesma porque, se o fizesse, acabaria com a relatividade da linguagem e com o seu tempo. E talvez seja ela a que um dia chegará.»

Maria Zambrano, "Clareiras do Bosque", Relógio D`Água, 1995 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

o Mal-estar da Civilização #35


« - E relativamente ao Ivan Matveitch? Já lá vamos. Aqui estamos nós, ansiosos por trazer o capital estrangeiro para o país e, apenas isto em conta: no momento em que o capital de um estrangeiro, que foi atraído para Petersburgo, se duplicou através do Ivan Matveitch, em vez de estarmos a proteger o capitalista estrangeiro propomo-nos a abrir a barriga do seu capital original, o crocodilo. Acha consistente?
 - Na minha opinião, Ivan Matveitch, enquanto verdadeiro filho da pátria, deveria regozijar-se e ficar orgulhoso por, através dele, o valor de um crocodilo estrangeiro ter duplicado e possivelmente até triplicar. É isso que se pretende, para atrair capital. Se um homem for bem-sucedido, repare, aparecerá outro com um crocodilo, um terceiro trará dois ou três de uma vez e o capital irá crescer em volta deles e aí terá a burguesia. Isto tem de ser incentivado.»  

Fiódor Dostoiévski, "O Crocodilo", Estrofes & Versos, 2011

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

a temperatura do corpo #23


«O homem do laço preto jazia morto no asfalto onde passara anos. As pessoas acotovelavam-se à volta dele. O ramo de flores ressequidas fora pisado.
Kurt dissera, os loucos da cidade nunca morrem. Mal caem para o lado, logo brota do asfalto, no mesmo sítio onde estavam, outro igual. O homem do laço preto caíra para o lado. Do asfalto tinham brotado outros dois, um policia e um guarda.
O polícia enxotou dali os curiosos. Os olhos faiscavam-lhe, tinha a boca molhada dos gritos. tinha trazido consigo o guarda que estava habituado a puxar pessoas e a sová-las. 
O guarda colocou-se à frente das solas dos sapatos do morto e meteu as mãos nos bolsos do sobretudo. O sobretudo cheirava a novo, a sal e óleo como os tecidos impermeáveis nas lojas. Tinha, como acontecia com os tamanhos únicos para os guardas, mangas demasiado curtas. O sobretudo do guarda estava presente. E o boné novo do guarda também. Só os olhos por baixo do boné é que estavam ausentes.
Talvez o que paralisasse o guarda diante deste morto fosse o rasto de infância. Talvez tivesse uma aldeia na mente. Talvez lhe ocorresse o pai que há muito não via. Ou o avô que já morrera. Talvez uma carta com a doença da mãe. Ou um irmão que, desde que o guarda saíra de casa, tinha de apascentar carneiros com pés vermelhos.
A boca do guarda era demasiado grande para esta estação do ano. Tinha-a escancarada, uma vez que, no Inverno, não havia ameixas verdes para a encher.
Junto ao morto, que em breve voltaria, passados tantos anos, a ver a mulher debaixo da terra, o guarda não conseguia espancar ninguém.»

Herta Müller, "A Terra das Ameixas Verdes", Difel, 2009     

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Toda a humilhação leva à morte #19


«Há que enfrentar esta aversão. Pode-se defender hoje em dia o conector ou a moda consiste nos brancos. A regra parece ser o texto esfarrapado. Pelo menos na arte moderna o efeito de descontínuo substituí o efeito de ligação. Aliás, o próprio procedimento parece contraditório. Para começar, o fragmento coloca uma dupla dificuldade que não é confortável ultrapassar: a sua insistência satura a atenção, a multiplicidade adoça o efeito que a sua brevidade aguça.»

Pascal Quignard, "Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos", Deriva, 2009

sábado, 23 de fevereiro de 2013

a poesia não me interessa #42


basta que te dispas até te doeres todo,
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música

Herberto Helder, "A Faca não Corta o Fogo", Assírio & Alvim, 2008

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

ninguém é filho das ervas #15


«Um professor afecta a eternidade; nunca consegue saber onde acaba a sua influência.» 
Henry Adams 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Chamada a pagar no destinatário #16


«Come on, Vivian! Pick up the ph-ph-phone»