sábado, 9 de fevereiro de 2013

baile de máscaras 2013 #1


Vamos mascarar o Bernardo?


aceitam-se candidaturas.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

interpretose now #1


«No amor, dois amantes ultrapassarão a vida limitada de seus anos terrestres e a levarão até à consumação do tempo, como eternidade: como limite máximo do mundo e vida. No conhecimento, um povo rebentará nos limites dum século da sua história (e cada um dos seus homens, nos limites da sua vida própria) os limites postos ao mundo conhecido, como Terra, abraçando-a circularmente, desvendando-a e possuindo-a num enlace e súbita iluminação, total. Na sua história, mas nela carnalmente, dramaticamente, por cada vida dum desses homens e todos juntos e unidamente, então rebentando o que surge como o possível concedido à força humana.
Será essa exigência última, a um tempo existencial e cognitiva, porque sempre dum saber como vivência, o impossível sendo a dimensão da tensão que se põe no arco para o desfecho da seta, - o que informa a história pátria: como existência terrestre dum ser colectivo.
Um caminhante em passagem aqui sobre a terra, ser finito e em trânsito, mas que para ela, sobre ela, trouxe uma medida do céu, como medida sem medida - a que humanamente se chama o impossível.»

Dalila Pereira da Costa e Pinharanda Gomes, "Introdução à Saudade (Antologia Teórica e Aproximação Crítica)", Lello & Irmão, 1976

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

a poesia não me interessa #41


A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo
O leitor tornava-se no livro; e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a página,

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espírito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

Wallace Stevens, "The house was quiet and the world was calm, transport to summer", Vozes da Poesia Europeia III, traduções de David Mourão Ferreira, Colóquio Letras 165, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Momento Pergaminho #13


«O demónio da sexualidade insinua-se em nossa alma como uma serpente. Trata-se de uma alma semi-humana e chama-se pensamento-desejo.
O demónio da espiritualidade pousa em nossa alma como um pássaro branco. Trata-se de uma alma semi-humana e chama-se desejo-pensamento.
A serpente constitui uma alma telúrica, semidemoníaca, um espírito relacionado com o espírito dos mortos. Com o espírito dos mortos, a serpente penetra vários objetos terrenos. Ela também instila temor de si no coração dos homens e inflama- lhes o desejo. A serpente geralmente tem caráter feminino e busca a companhia dos mortos. Ela se associa aos mortos presos à terra que não encontraram o caminho pelo qual se passa ao estado de solidão. A serpente é uma prostituta que se consorcia com o demónio e maus espíritos; ela é um espírito tirano e atormentador, sempre tentando as pessoas a cultivar a pior espécie de companhia.
O pássaro branco representa a alma semicelestial do homem. Ele vive com a mãe, descendo ocasionalmente da morada materna. O pássaro é masculino e chama-se pensamento efetivo. Ele é casto e solitário, um mensageiro da mãe. Voa alto sobre a terra. Comanda a solidão. Traz mensagens de longe, daqueles que nos antecederam na partida, daqueles que alcançaram a perfeição. Leva nossas palavras até a mãe. A mãe intercede e adverte, mas não possui poderes contra os deuses. Ela é um veículo do sol.
A serpente desce às profundezas e, com sua astúcia, ao mesmo tempo paralisa e estimula o demónio fálico. Ela traz das profundezas os pensamentos mais ardilosos do demónio telúrico; pensamentos que rastejam por todas as passagens e tornam-se saturados de desejo. Embora não deseje sê-lo, ela nós é útil. A serpente escapa ao nosso alcance, nós a perseguimos, e assim ela nos mostra o caminho, o qual, com nossa limitada capacidade humana, não poderíamos encontrar.
Os mortos ergueram o olhar com desprezo e disseram: - Cessa de falar-nos sobre deuses, demónios e almas. Sabemos de tudo isso em essência há muito tempo!»


Carl Gustav Jung, "Sete Sermões aos Mortos", 1916

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #7


Das palavras
que aprendeste
só uma
não tem tradução.
Quando traduzes
o amor, tu sabes
que é já outro o seu nome.
Assim são as algas
quando apodrecem.

Albano Martins, "Escrito a Vermelho", Campo das Letras, 1999

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Teoria da Conspiração #42 (ou o K-pop Style PSY)


«O homem é tão propenso a dedicar-se ao que há de mais vulgar, o espírito e os sentidos tornam-se tão facilmente insensíveis à impressões do belo e do perfeito que uma pessoa deveria por todos os meios manter em si a capacidade de as sentir. Pois ninguém pode passar inteiramente sem um tal prazer e só a falta de hábito de desfrutar algo bom leva muitas pessoas a encontrar prazer no que é tolo e de mau gosto, desde que seja, simplesmente, novidade.»

Goethe, "Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister", Relógio D'Água, 1998

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

diário dos mesmos pesares #24


«Tudo o que vejo neste mundo está animado dum movimento simultâneo de vaivém: tudo simultaneamente avança e simultaneamente recua, como o fole do ferreiro, como, ao sinal verde ou vermelho, tudo na minha prensa muda para o seu contrário, e só assim o mundo consegue avançar sem tropeçar.»

Bohumil Hrabal, "Uma solidão demasiado ruidosa", Edições Afrontamento, 1992

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

a temperatura do corpo #22


«Falta de amor, de justiça e de compaixão, mas sempre falta de amor; demasiada dureza, altivez e toda a sorte de crimes - eis o que sou. Tenho a certeza de que não pratico o mal apenas por fraqueza e cobardia, ultrajando ainda assim a minha maldade. Anseio pelo dia em que a alma não mais há-de querer habitar este corpo feliz, corrompido pela melancolia, pelo dia em que haverá de abandonar esta figura ridícula de lama e podridão, mas que é apenas uma imagem fiel de um século ímpio e maldito. Meu Deus, apenas uma pequena centelha de pura alegria e seríamos salvos; amor e seríamos redimidos»

Carta de Georg Tackl a Ldwig von Ficker, datada de Salzburg de 26/6/1913


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ninguém é filho das ervas #14


2 – Versos

Os versos de Hölderlin:

“Dificilmente abandona / o seu lugar aquele que mora perto da origem.”

E o comentário de Heiddeger a estes versos:

“De modo inverso, quem facilmente abandonar o lugar comprova que não tem origem e se limita a estar presente como que por acaso.”


Gonçalo M. Tavares | "Sobre os tempos", 2013

domingo, 27 de janeiro de 2013

Até hoje foi sempre futuro #4
















«O caso é que as nossas palavras já não correspondem ao que se passa no mundo. Quando as coisas faziam parte de um todo, sentíamo-nos confiantes de que as nossas palavras podiam exprimir essas coisas. Mas, pouco a pouco, essas coisas fragmentaram-se, espalharam-se, caíram num caos. E, contudo, as palavras permaneceram as mesmas. Não se adaptaram à nova realidade»  

Paul Auster, "A Trilogia de Nova Iorque", Difusão Cultural, 1990

sábado, 26 de janeiro de 2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

K, o elemento estranho da tabela literária #5


«"Não sei", gritei eu sem ser ouvido por ninguém. "Não sei. Se ninguém vier, olha... Não fiz mal a ninguém, ninguém me fez mal a mim, mas também ninguém me vem ajudar. Um bando de gente nenhuma. Bem, não é verdade. Só que ninguém me vem ajudar - um bando de gente nenhuma, por outro lado, era óptimo. Adorava ir num passeio de gente nenhuma - e porque não? Num passeio às montanhas, como é obvio. Olha a gente nenhuma a acotovelar-se, com os braços levantados, os seus muitos pés caminham todos juntos! E vestidos a rigor, pois então! Lá seguimos alegremente, enquanto o vento vai soprando em volta e por entre as frestas que os nossos corpos desenham. As nossas gargantas exultam! Nem sei como não começamos a cantar!"»

Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Imediatamente embora pouco a pouco #27


«Teremos dias nos quais pertenceremos uma à outra; mas, gradualmente, a minha consciência vai começar a limitar-me - as cartas não respondidas, as coisas por fazer. E, aos poucos, vou tornar-me outra vez profissional, estarei no palco ou diante de uma câmara, ou em reuniões, e pensarei nela, lá em casa, a quem eu pareço sempre faltar, porque não consigo encontrar nenhuma solução para combinar a sua infância com a minha vida de mulher adulta.
Como as outras pessoas conseguem, nos livros, e eu acho que outras mulheres acabam por conseguir, em suas casas.»

 Liv Ullmann, "Mutações", Nova Nórdica, 1984

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

ri-te, Rousseau


©Zeitlin, Benh;2012

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #6


«Era uma ideia que não me saía da cabeça. Foi até esse o principal motivo porque acompanhei até aqui o príncipe, que é general ao serviço da... 
Foi por ocasião de um passeio que lhe comuniquei o meu projecto: ele, porém, aconselhou-me a que não o realizasse. Seria uma teimosia, em vez de um simples capricho, não atender às razões que me apresentou.»  

Goethe, "Werther", Guimarães Editores, 1998

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

electrocardioTrama #13 (ou a actividade misteriosa do limite)


«A experiência interior corresponde à necessidade em que me acho - e a existência humana comigo - de pôr tudo em causa (em questão), sem admissão de repouso.»