sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

espécie de oração particular #23


«Deixem-me! Deixem-me! Deixem-me só e livre com isto, deixem-me viver para isto! Deixem-me fechado a sete chaves com o sonho que me enche de ridículo, que não existe e é a razão da minha vida. Deixem-me ir para a cova agarrado a este nada imenso que me doirou as mãos e me deixou atónito. Só no fundo da cova é que estou bem, sós a sós, fechado com ele para sempre.»

Raul Brandão, "Húmus", Campo das Letras, 2000

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Teoria da Conspiração #41 (ou o monólogo íntimo de cada coisa)


«O que se passa com o falar e escrever é propriamente uma coisa maluca; o verdadeiro diálogo é um mero jogo de palavras. Só é de admirar o ridículo erro: que as pessoas julguem falar em intenção das coisas. Exatamente o específico da linguagem, que ela se aflige apenas consigo mesma, ninguém sabe. Por isso ela é um mistério tão prodigioso e fecundo – de que quando alguém fala apenas por falar pronuncia exatamente as verdades mais esplêndidas, mais originais. Mas se quiser falar de algo determinado, a linguagem caprichosa o faz dizer o que há de mais ridículo e arrevesado. Daí nasce também o ódio que tem tanta gente séria contra a linguagem. Notam sua petulância, mas não notam que o desprezível tagarelar é o lado infinitamente sério da linguagem. Se apenas se pudesse tornar compreensível às pessoas que com a linguagem se dá o mesmo que com as fómulas matemáticas – Elas constituem um mundo por si – Jogam apenas consigo mesmas, nada exprimem a não ser sua prodigiosa natureza, e justamente por isso são tão expressivas – justamente por isso espelha-se nelas o estranho jogo de proporções das coisas. Somente por sua liberdade, são membros da natureza e somente em seus livres movimentos a alma cósmica se exterioriza e faz delas um delicado metro e compêndio das coisas.»

Novalis, "Pólen", Iluminuras, 2009

domingo, 6 de janeiro de 2013

Faz-me, ó Noite, duvidar


©Macdonald, Kevin;2003

sábado, 5 de janeiro de 2013

Perguntas Abandonadas #26


«Queres, meu irmão, ir para a solidão? Queres procurar o caminho que leva a ti mesmo? Espera ainda um pouco e ouve.
"Aquele que procura, facilmente se transvia. Toda a solidão é um pecado" - assim fala a multidão, o rebanho; e tu pertenceste ao rebanho durante muito tempo.
Ainda durante muito tempo a voz do rebanho há-de falar no fundo de ti. E quando disseres: "Eu já tenho uma consciência como a vossa", isso será para ti uma queixa e uma dor.
Porque foi ainda esta consciência comum que produziu esta dor: a última centelha dessa consciência lança ainda um reflexo sobre a tristeza.
Mas queres seguir o caminho da tristeza, o caminho para ti mesmo? Então mostra-me se tens esse direito e essa força.
Acaso és força nova e direito novo? Primeiro movimento? Roda que gira por si mesma? Podes obrigar as estrelas a gravitar à tua volta?
Ai! vemos tantas ambições pelas alturas! Tantas contorções de ambiciosos! Mostra-me que não és um gozador nem um ambicioso.
Ai! Existem tantos pensamentos grandes que apenas fazem o mesmo que um fole: inchando aumentam o vazio.
Declaras-te livre? O que quero conhecer é o teu pensamento fundamental; não quero saber qual é o jugo que sacudiste.
Pertencerás tu aos que têm o direito de se subtrair ao jugo? Há quem perca o seu último valor no dia em que se liberta da sua sujeição.»

Friedrich Nietszche, "Assim Falava Zaratustra", Guimarães Editores, 1964

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Retrato de Família #23


John B. Karamazov (1800-1859)

«Aguardo o momento da minha execução pública com grande tranquilidade de espírito e boa disposição, firmemente convicto de ser esta a melhor forma de servir o bem e a humanidade, e nada do que eu ou a minha família sacrificámos ou sofremos foi em vão.»

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Chefe, precisamos de mentiras novas #13


«Não faz mal, não faz mal, 
disse para mim, não faz mal.» 

Venedikt Erofeev

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

domingo, 23 de dezembro de 2012

Toda a humilhação leva à morte #17


«A solidão da obra – a obra de arte, a obra literária – desvenda-nos uma solidão mais essencial. Exclui o isolamento complacente do individualismo, ignora a busca da diferença; não se dissipa o fato de sustentar uma relação viril numa tarefa que cobre toda a extensão dominada do dia. Aquele que escreve a obra é apartado, aquele que a escreveu é dispensado. Aquele que é dispensado, por outro lado, ignora-o. Essa ignorância preserva-o, diverte-o, na medida em que o autoriza a perseverar.»

Maurice Blanchot, "O espaço literário", Rocco, 1987