segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #5


«Concede-me, enquanto o fazes, o som de uma voz humana e diz: Vais ver que belo embrulho vou fazer de ti e como te vais sentir lindamente depois do tratamento que te espera. Lisonjeia-me, que a mordaça me fica tão bem, que me vais deixar assim amordaçada no mínimo 5-6 horas, menos do que isso nem pensar. Ata-me fortemente com um cordel os tornozelos envoltos em meias de vidro com tanta força como os pulsos, peco-te, e prende uma à outra, sem que para isso te dê permissão, as coxas até lá acima, e ainda mais alto, com o cordel. Vamos experimentar.»

Elfriede Jelinek, "A Pianista", Edições Asa, 2004

domingo, 9 de dezembro de 2012

ninguém é filho das ervas #12


«Jamais je n'ai senti, si avant, à la fois mon détachement de moi-même et ma présence au monde»
Albert Camus

sábado, 8 de dezembro de 2012

conforme a natureza


©Bertolucci, Bernardo;1970

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Imediatamente embora pouco a pouco #26


«Da excitação, a garganta ficara-lhe tão seca que bateu palmas e pediu outra bebida. "Meu Deus", continuou depois de humedecido o palato, "e a pensar que um homem poder armar tais ratoeiras a si próprio! Hoje muito feliz, amanhã miserável. Que idiota! Que grande idiota me saí! Bem", raciocinou  com outra lucidez, "uma coisa compreendo agora - a minha felicidade era real mas sem fundamento. Preciso de a reconquistar, desta vez com toda a honestidade. E agarrar-me a ela com ambas as mãos, como se fosse um jóia. Aprender a ser feliz por mim próprio, Augusto, como palhaço que sou."» 

Henry Miller, "O Sorriso aos Pés da Escada", Edições Asa, 2000

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Paz à sua bala #5


Espinho, 22 de Fevereiro de 1912

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

diário dos mesmos pesares #22


«Tudo o que é preparado, está pré-parado, imóvel ainda antes de existir. O acaso não; o acaso pré-move-se: antes de acontecer uma dessas reuniões com o acaso, este já se movimenta algures num sítio não visível. O acaso pré-move-se, não se prepara.»

Gonçalo M. Tavares, "Breves Notas sobre as Ligações (Llansol, Molder, Zambrano)", Relógio d'Água, 2009

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Retrato de Família #22


Ezra P. Karamazov (1885-1972)

«O que amas de verdade / Eis a tua herança verdadeira / O que amas de verdade / Não te será negado»

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Dicionário das causalidades #18


S

Significativos

«Citar um filme não é o mesmo que citar um livro. Enquanto que o tempo de leitura de um livro depende do leitor, o tempo de visão de um filme é estabelecido pelo realizador e as imagens são percebidas com a lentidão ou rapidez que a montagem permitir. Assim, a fotografia, que possibilita que nos detenhamos num único momento o tempo que desejarmos, contradiz a própria forma do filme, tal como uma série de fotografias que imobiliza momentos numa vida ou numa sociedade contradiz uma forma que é um processo, um fluxo temporal. O mundo fotografado mantém com o mundo real a mesma relação, essencialmente inexacta, que as fotografias mantem com o cinema. A vida não é feita de detalhes significativos subitamente iluminados e fixados para sempre. A fotografia sim.»

Susan Sontag, "Ensaios sobre Fotografia", Quetzal, 2012 

domingo, 2 de dezembro de 2012

K, o elemento estranho da tabela literária #4


«Eu era rígido e frio, eu era uma ponte, eu estava sobre uma ravina, Os meus dedos dos pés num lado, os meus dedos das mãos no outro, seguros com toda a força à terra solta. As bordas do meu casaco dançavam no vento a meu lado. Bem lá em baixo, revolteava o curso de água gelada. Nenhum turista se atrevia a vir cá acima, a ponte não vinha sequer em nenhum mapa. E assim eu ficava estendido e esperava. Uma vez lançada, nenhuma ponte, a menos que caia, deixa de ser ponte.
Certa tarde - a primeira ou a milésima, não sei - tinha as ideias em perpétua confusão e movimento... mas foi numa tarde de Verão, quando o troar da corrente se tornara mais profundo, que eu ouvi um passo humano! Na minha direcção, na minha! põe-te direita, ponte, preparem-se, vigas, para segurar o passageiro que vos foi confiado. Se os seus passos forem incertos, segurem-nos discretamente, mas se ele escorregar mostrem do que são feitos e, como um deus das montanhas, empurrem-no para terra.
Ele chegou, testou-me com a ponta de ferro do bordão e levantou-me as asas do casaco, pondo-as no sítio. Mergulhou depois a ponta do seu bordão no meu cabelo farto e deixou-se ficar por ali a olhar esgazeado em volta, por certo esquecido de mim. Foi então que - estando eu com ele em pensamentos, sobre montanhas e vales - saltou a pés juntos do meio do meu corpo. Fiquei a tremer de dor, sem perceber o que se tinha passado. Quem era ele? Uma criança? Um viajante? Um suicida? Voltei-me então para o ver. Onde é que já se viu uma ponte a voltar-se! Ainda não me tinha voltado completamente e já começava a cair, caí e, em poucos segundos, fui desfeito em pedaços pelas rochas duras que sempre me haviam olhado pacificamente, da corrente, lá em baixo.»

Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004

sábado, 1 de dezembro de 2012

ninguém é filho das ervas #11



«Estou convencida de que 
faz parte integrante da vida na terra 
sermos magoados
naquilo a que somos mais sensíveis,
no que nos é mais insuportável:
o essencial 
é como nos saímos disso.» 

Rahel Varnhagen

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

a poesia não me interessa #38


«Qualquer poema é um filme, e o único elemento que importa é o tempo, e o espaço é a metáfora do tempo, e o que se narra é a ressurreição do instante exactamente anterior à morte, a fulgurante agonia de um nervo que irrompe do poema e faz saltar a vida dentro da massa irreal do mundo.
Não existe outra metáfora que não seja o espaço; aquilo a que chamam metáforas são linhas de montagem narrativa, o decurso da alegoria, o espectáculo.
O tempo de Deus é um espaço de uma forma luminosa narrativa de tal excedência que o tempo assimila a perenidade mítica; uma sustida agonia; uma ressurreição, digamos, mortífera.
Esta seria a montagem total; a memória como tecido ininterrupto ou a permanência rigorosa do imaginário no tempo; e a ilusão do mundo, inesgotável.»

Herberto Helder, "Photomaton & Vox", Assírio & Alvim, 2006

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A vida não é um sonho #26


«Mónica, minha querida. Não sei se tu te entreténs aí na cova a divagar um pouco sobre o que aconteceu. Eu sim. É um modo de viver em duplicado, vivo a cópia mesmo já um pouco apagada do que foi. É um modo de o meu vazio estar cheio de outro vazio, mas menos, e com propriedades de enchimento.»

Vergílio Ferreira, "Em Nome da Terra", Bertrand Editora, 1990

domingo, 25 de novembro de 2012

electrocardioTrama #12 (ou a actividade silenciosa da leitura)


«_______ eu nasci em 1931, no decurso da leitura silenciosa de um poema. Só havia tecidos espalhados pelo chão da casa, as crenças ingénuas de minha mãe. Estavam igualmente presentes as páginas que os leitores haveriam de tocar (como a uma pauta de música), apenas com o instrumento da sua voz. Eu fui profundamente desejada. Profundamente mal desejada e com amor.
 - A voz está sozinha - disse a minha mãe, ainda eu estava no seu ventre, a ler-me poesia.
 - Não por muito tempo - responderam àquela que me iniciava na língua. E eu nasci na sequência de um ritmo.
Eu nasci para acompanhar a voz, fazê-la percorrer um caminho. De um lado a outro do percurso, não sei o que existe, o caminho caminha,
eu deslumbro-me quando o tempo se suspende,
e me permite parar a contemplar o espaço sem tempo.»

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Até hoje foi sempre futuro #3


«Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria -
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.

- Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, de grau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.»

Herberto Helder, "Ou O Poema Contínuo", Assírio & Alvim, 2004

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

a temperatura do corpo #21


«Imaginai um dia de cerrado nevoeiro, em que vos fatigais inutilmente na procura dum rosto conhecido, dum sinal que vos oriente, dia em que tudo foge diante de vós, como uma fantasmagoria de mau sonho.
E o informe que se vos furta, que nenhuma relação tem convosco, esfíngico corpo desfeito à aproximação das exigências do tacto.
O Sol espanca a névoa, e, de repente, mostra-vos, em airoso corpo, vigorosas linhas, o sólido mundo da nossa realidade, que a vista contorna, o ouvido escuta e o tacto palpa e empurra. Como ao sair dum pesadelo, é todo um novo mundo de tranquilidade, bem-estar e segurança, que vos sorri. Compreendeis, então, como a geometria é a ossatura do vosso mundo; como ele, sem forma, seria animal sem esqueleto, irradio fantasma fugidio, sem núcleo, sem apoio, inválido e insubsistente.» 

Leonardo Coimbra, "A Alegria, a Dor e a Graça", Grupo de Investigação de Pensamento Português CFUL, 2012