«Ao executares pela primeira vez o trabalho de que falo, só encontras escuridão e como que uma nuvem de desconhecimento. [...] Por conseguinte, dispõe-te a permanecer na escuridão o mais que puderes, clamando sempre por Aquele que amas. É que, se alguma vez O houveres de sentir ou ver, na medida do possível neste mundo, tal só deverá acontecer nesta nuvem e nesta escuridão.»
«Mas se chegares a esta nuvem do não-saber, para aí ficares a trabalhar como te digo, que hás-de fazer? Assim como tal nuvem se encontra em cima, entre ti e o teu Deus, assim deves colocar em baixo uma nuvem de esquecimento, entre ti e todos os seres criados. [...] Numa palavra, todas as coisas se devem ocultar sob a nuvem do esquecimento.»
Místico anónimo inglês, 1390
sábado, 10 de novembro de 2012
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
A vida não é um sonho #25
«Uma mulher muito magra mede a sua cintura com uma fita métrica amarela.
Depois debruça-se sobre a mesa e escreve algo num papel.
Julgamos que é um número, mas agora, quando vemos de perto o papel, vemos que não é um número. A mulher não apontou a medida da cintura mas sim uma palavra.
É uma palavra, mas não conseguimos perceber qual.
Agora sim, finalmente, conseguimos ler. São afinal, três palavras: magra de mais.
A mulher pega de novo na fita métrica e mede, de novo, com rigor, a sua cinta.
Debruça-se outra vez e agora vemos o que ela escreve.
De novo escreve: magra de mais.»
Gonçalo M. Tavares, "Short Movies", Editorial Caminho, 2011
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
diário dos mesmos pesares #21
«Olho para as ciganas do meu bairro, este bairro do mundo de Jonet, e imponho-me uma estóica reaprendizagem de ser pobre. Isto de reaprender a ser pobre tem muito que se lhe diga, porque só reaprende a ser pobre quem já o foi e deixou de ser.»
hmbf, "http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/", Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Dicionário das causalidades #17
R
Responder
«Quem esbarra, ao escrever, numa verdade que o acto de escrever não poderia respeitar, talvez seja irresponsável, mas, por maioria de razão, deve responder por essa irresponsabilidade; deve responder por ela sem a pôr em causa, sem a trair, ela é algo de secreto até por si próprio: a inocência que o preserva não lhe pertence: pertence ao lugar que ocupa e que ocupa falivelmente, com o qual não coincide.
Não basta distinguir na vida do artista várias partes irredutíveis. Também não é o seu comportamento que importa, a maneira como se protege com os seus problemas ou como, pelo contrário, os cobre com a sua existência. Cada um responde como pode e como quer. A resposta de um não convém a nenhum outro, é sem utilidade, responde ao que necessariamente ignoramos e, nesse sentido, é indecifrável, nunca exemplar: a arte oferece-nos enigmas mas, felizmente, nenhum herói.»
Maurice Blanchot, "O Livro por Vir", Relógio D'Água, 1984
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
quero outra noite no fim do dia #12
Robert Walser, "Histórias de Amor", Relógio d'Água, 2008
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sexta-feira, 2 de novembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
espécie de oração particular #21
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Obra Poética III", Editorial Caminho, 1991
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Chefe, precisamos de mentiras novas #11
«Devemos distinguir entre aquilo que sabemos e aquilo de que estamos convencidos. Entre o que se sabe e o que é assimilado pela convicção existe a mesma diferença que entre a criança adoptada e a verdadeira. A convicção é um acto espiritual que se concretiza na obscuridade - uma insinuação secreta e um consenso muito fundo, não se encontra subordinado à vontade.»
Ernst Jünger, "O Coração Aventuroso", Cotovia, 1991
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terça-feira, 30 de outubro de 2012
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Teoria da Conspiração #39 (ou a reconstrução da natureza ontológica)
«Quanto mais a minha casa for a minha casa, mais poderei abrir a porta aos vizinhos, ou, só o que sabe e tem garantia do saber, se abre sem temor do saber do outro, porque não corre o risco de sufocar, porque está prevenido contra as hipóteses do pior colonialismo, o colonialismo mental.
O que ambiciona ser ele próprio, e não outro, terá a todo o momento de confluir no impróprio (ou não próprio) e a todo o momento desse impróprio efluir. A total individualidade do ser continuará insularizada, mesmo que participe na mais pura socialidade, enquanto a individualidade pensante for a que a si mesma se pensa, e aos outros em si, jamais renunciando ao princípio de autenticidade: ser existencialmente o retrato de ser mentalmente, na parte de ser que couber a cada um.»
Pinharanda Gomes, "Pensamento e Movimento", Lello & Irmão, 1974
domingo, 28 de outubro de 2012
sábado, 27 de outubro de 2012
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Ela tem os teus olhos #5
«O confinamento em si, o acto de transplantar um animal do seu habitat natural para um mundo reorganizado, no qual as suas habituais técnicas de sobrevivência e satisfação já não funcionam, gera diversos resultados inevitáveis:
1) A sobrevivência do animal passa a depender de quem controla o sistema. O animal usará a sua inteligência para aprender quaisquer novos truques necessários à adaptação a esse sistema. Se isso o obrigar a artimanhas e mudanças para se manter vivo, assim agirá.
2) O animal concentrar-se-á (viciar-se-á) em quaisquer experiência disponíveis no novo sistema.
3) O animal reduzirá, consequentemente, as expectativas físicas e mentais, de forma a adaptar-se ao que lhe é concedido.
Os animais encarcerados cujo comportamento não se adapta a este modelo enlouquecem, revoltam-se ou morrem.»
Jerry Mander, "Quatro Argumentos Para Acabar com a Televisão", Antígona, 1999
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Inaugurar sentimentos, o amor por vir #3
Tobias Schneebaum, "Onde Os Espíritos Vivem", Antígona, 1991
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012
diário dos mesmos pesares #20
«Surpreende-me e irrita-me - pois pertenço a essa espécie - o humilde contentamento dos humanos. Falam a todo o momento de grandezas - the diggest in the world - e a seguir descobre-se que lhes parece imensa qualquer modesta pequenez. Falta, em absoluto, a todos o senso do gigantesco. Falam como Sansões e agem como o Pequeno Polegar.»
Giovanni Papini, "Gog", Livros do Brasil, 1988
terça-feira, 23 de outubro de 2012
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Imediatamente embora pouco a pouco #24
«Renovar as sensações, quer dizer, procurar a pura impressão actual, colocar a alma em face do mundo, com o possível mínimo de memória e utilitário interesse, é um dever de todo o que quer conhecer os inícios da Beleza, e até do que pretende ser leal para com a Realidade.
(...) Sim. Não é mau desmontar, de vez em quando, os nossos mecanismos de conhecer e sentir.
Quem sabe à custa de quantos inconscientes desprezos da sensibilidade eles foram construídos!»
Leonardo Coimbra, "A Alegria, a Dor e a Graça", Grupo de Investigação de Pensamento Português CFUL, 2012
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