«Nunca a alheia vontade, inda que grata, Cumpras por própria. Manda no que fazes, Nem de ti mesmo servo. Ninguém te dá quem és. Nada te mude. Teu íntimo destino involuntário Cumpre alto. Sê teu filho.» Fernando Pessoa, "Odes de Ricardo Reis", Ática, 1994
«Continuo a não compreender que todo aquele que seja capaz de escrever possa objectivar no seu sofrimento o sofrimento, a ponto de eu, por exemplo, na infelicidade, talvez ainda com a fronte a arder em infelicidade, me possa sentar e dizer a alguém por escrito: sou infeliz.» Franza Kafka, "Diários", Difel, 2001
«Podia apenas dizer que ele a matou e se matou a seguir, e estaria a contar a história tal e qual aconteceu, mas esta seria sem dúvida uma história muito mal contada, ainda que a verdade seja tão-somente que ele a matou, para a amar ainda mais, e se matou a seguir, para que o amor que os unia vivesse para sempre.»
«Planeou matar a namorada e suicidar-se em seguida, mas as coisas saíram-lhe ao contrário. O funeral terá lugar amanhã.» Luís Ene, "ÍTACA, Cadernos de ideias textos & imagens", Coisas de Ler, nº1 Fevereiro de 2010
Irmão, nada é eterno, nada sobrevive. Recorda isto, e alegra-te. A nossa vida não é só a carga dos anos. A nossa vereda não é só o caminho interminável. Nenhum poeta tem o dever de cantar a antiga canção. A flor murcha e morre; mas aquele que a leva não deve chorá-la sempre... Irmão, recorda isto, e alegra-te. Chegará um silêncio absoluto, e, então, a música será perfeita. A vida inclinar-se-á ao poente para afogar-se em sombras doiradas. O amor há-de ser chamado do seu jogo para beber o sofrimento e subir ao céu das lágrimas ... Irmão, recorda isto, e alegra-te. Apanhemos, no ar, as nossas flores, não no-las arrebate o vento que passa. Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos roubando beijos que murchariam se os esquecêssemos. É ânsia a nossa vida e força o nosso desejo, porque o tempo toca a finados. Irmão, recorda isto, e alegra-te. Não podemos, num momento, abraçar as coisas, parti-las e atirá-las ao chão. Passam rápidas as horas, com os sonhos debaixo do manto. A vida, infindável para o trabalho e para o fastio, dá-nos apenas um dia para o amor. Irmão, recorda isto, e alegra-te. Sabe-nos bem a beleza porque a sua dança volúvel é o ritmo das nossas vidas. Gostamos da sabedoria porque não temos sempre de a acabar. No eterno tudo está feito e concluído, mas as flores da ilusão terrena são eternamente frescas, por causa da morte. Irmão, recorda isto, e alegra-te. Rabindranath Tagore, "O Coração da Primavera", Editorial A. O., 1981
«No asco aos animais, a sensação dominante é o medo de, pelo contacto, ser reconhecido por eles. Aquilo que ao homem profundamente repugna é a consciência obscura de que em si há algo vivo que é tão pouco diferente ao animal asqueroso, que a pessoa poderia vir a ser reconhecida por ele. Todo o asco é primordialmente um asco ao contacto. E o próprio autodomínio só ultrapassa este sentimento com movimentos repentinos e excessivos: aquilo que provoca o asco é vigorosamente enlaçado, devorado, enquanto a zona de delicado contacto epidérmico permanece tabu. Só assim se pode explicar o paradoxo do imperativo moral que exige do homem, a um só tempo, a superação e o mais subtil desenvolvimento do sentimento de repulsa. Ele não pode negar o parentesco animal com a criatura, a cuja alusão responde com a repulsa: tem de tornar-se senhor dela.» Walter Benjamin, "Rua de Sentido Único e Infância em Berlim por Volta de 1900", Relógio D'Água, 1992
«A história é simples. Conta-se em poucas palavras. Mas é tão poética na sua aparência externa que mais parece ficção que realidade. O jovem a que me refiro sabia que ia morrer dentro de meia dúzia de dias. Apesar disso, quando falei com ele, mostrou-se alegre. "Agradeço ao destino o ter-me ferido tão duramente", disse-me ele textualmente, "porque a minha vida anterior, a minha vida burguesa, era demasiado cómoda, e as minhas ambições espirituais, mesquinhas". Nos últimos dias, concentrava-se cada vez mais em si próprio: "Essa árvore", disse-me ele apontado através da janela do barracão, "é o único amigo que tenho no meio da minha solidão". Havia realmente fora da barraca um castanheiro em flor, que nós podíamos ver da tarimba. "Às vezes, falo com ela", acrescentou. Confesso que não sabia como interpretar as suas palavras. Estaria ele a delirar ou com alucinações? Movido pela curiosidade, perguntei-lhe se a árvore também falava com ele. "Sim." "E que é que lhe diz?" E ele responde-me: "Diz-me assim: "Estou aqui - estou aqui; eu sou a vida"...» Viktor Frankl, "Um psicólogo no campo de concentração", Nova Vega, 2008
«Uma ocasião, uma senhora sua conhecida falou-lhe da cura pelos ícones. Ivan Iliitch surpreendeu-se a ouvi-la com toda a atenção e a equacionar a veracidade do facto, o que o assustou. "Será que o meu intelecto já enfraqueceu até este ponto? - questionou-se. - Não leves isto a sério, é um disparate, não entres em cismas, tens que escolher um médico e seguir rigorosamente o que ele te prescrever. E é isso que farei. Acabou-se. Não vou pensar em mais nada, e até ao Verão farei o tratamento com todo o rigor. Depois logo se vê. Acabaram-se as hesitações...!"» Lev Tolstoi, "A Morte de Ivan Iliitch", Relógio D'Água, 2007
«Todo o saber humano (se, na opinião de Sócrates, houver quem saiba) se reduz hoje ao acerto de uma sábia eleição. Pouco ou nada se inventa, e no que mais importa se há de ter por suspeitosa qualquer novidade.»
«Escolhem sempre o pior; pagam-se do menos acertado, gostam do menos plausível, com nota dos judiciosos e desprezo dos demais. Tudo lhes sai de modo infeliz, e não só não conseguem aplauso, como nem sequer agrado.» Baltasar Gracián, "O Discreto", frenesi, 2005
«Meia vida dos homens consiste em provas de fuga de si mesmos. "Gostava de ser aquilo que não sou" é a nossa ideia secreta, mas fixa. Transmutação dos metais e transmutação dos valores são quimeras dos alquimistas e sofistas, porém a transmutação dos destinos é a vontade de todos. Fugir de nós mesmos, tornar-nos outros, evadir-nos. Ninguém se trocaria por um dos seus semelhantes, mas todos se trocariam pelo seu sonho. Porque o homem quer conquistar, mas sem deixar de se possuir. Deseja a continuidade do seu eu e, juntamente a sua metamorfose - pretensão contraditória que constitui um dos episódios do eterno automatismo. O homem ama-se e desama-se. Diante dos outros, mostra-se quase sempre satisfeito consigo - com medo de ser ultrapassado ou emulado -, mas quando está só com o seu eu, experimenta um tédio, uma repulsa, uma repugnância, que em regra se transformam em desejo de transformação. Nem todos são capazes de se contemplar sem adulação até às últimas raízes e reconhecer, ainda que no sigilo da alma, a sua miséria, mas quase todos têm a sua sensação e, com frequência, a certeza - o tédio de si pode notar-se mesmo sem as formas de juízo. E os outros instintos - soberba, gula do mais e do novo - ajudam a desejar a mudança. Existe com frequência em nós o narcisismo, mas o espelho é sempre colocado no passado e no futuro - no presente, nunca.»
Giovanni Papini, "Relatório Sobre os Homens", Livros do Brasil, 1986
«A vida é tão cruel que um minuto antes de matar uma criança um homem feliz ainda é feliz; que um minutos antes de gritar de horror, uma mulher pode fechar os olhos e sonhar com o mar; que durante o último minuto de vida de uma criança os pais dessa criança podem estar numa cozinha à espera que o filho lhes traga açúcar, enquanto falam dos dentes brancos dele e de um passeio de barco; e a própria criança, pelo seu lado, pode fechar um portão e começar a atravessar a estrada, trazendo na mão direita alguns torrões de açúcar embrulhados em papel branco e, durante esse último minuto, só ver um longo rio cintilante, grandes peixes e um barco grande com os seus remos silenciosos.» Stig Dagerman, "Jogos da Noite", Antígona, 1992