segunda-feira, 10 de setembro de 2012

estrela dissolvente


©Campion, Jane;2009

domingo, 9 de setembro de 2012

Dicionário das causalidades #15


P

Profissão


«Mal a morte se anuncia o instalador de luto, como exige a sua profissão, vem escurecer e tudo fica triste com nódoas e cinzas mágicas. Tudo fica com ar bichoso, piolhoso, de uma desolação infinita, ao ponto de parentes e amigos poderem apenas chorar o espectáculo depois de ele partir, invadidos por uma tristeza e um desespero sem nome.
Foi adoptada esta sensata medida e criada a profissão para o luto ser realmente irresistível e não terem os próximos de esforçar-se em parecer condoídos. Mas estão, estão-no ao máximo e ao ponto de se exortarem entre si os sem-coração: "Só há que passar dois dias, dizem eles; há que ter coragem, não é coisa que dure".
Com efeito, dois dias mais tarde chamam o assentador de luto e ele afasta por feitiço o horror e a desesperança que os seus deveres tinham levado a distribuir, e a família aliviada volta ao seu ar natural.»

Henri Michaux, "No País da Magia", Hiena Editora, 1987  

sábado, 8 de setembro de 2012

Até hoje foi sempre futuro #1


«No mundo nada se cria, tudo nasce e se transforma, é o que a imperatriz exprime, no seu dominio sobre o momento presente, do qual emanam passado e futuro. O que ela representa dá forma a ambos, porque o destino de hoje é ser simultaneamente ontem e amanhã. É inimiga das coisas fixas, para ela nada é, tudo está a ser, tudo está em trânsito e é transição. Não há saltos, mas sim continuidade: a filha que ocupa o trono da mãe, não o sendo, é a mesma que ela: tal como a metáfora, que também é e não o é mesmo. Assim a morte é um outro nascimento, e se deixarmos que seja a coisa a revelar a palavra (Górgias), não temos necessidade de explicar nada disso com antíteses. Como é possível ser antítese o que faz sentido? Até aparentemente o que o não faz. "Lembra-te, homem, que és pó, e em pó te hás-de tornar".»

Alberto Pimenta, "A Magia Que Tira os Pecados do Mundo", Cotovia, 1995


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A vida não é um sonho #22


«A relação que um homem tem com a sua mulher, por mais perfeita que seja, torna-se, com o tempo, tão rotineira como a que mantém com a sua cidade. Rotineira no sentido de que a atenção vai afrouxando e ele acaba por não conhecer, do objecto que lhe está próximo, mais do que certos pontos de referência. Tal como ao fim de muitos anos a morar numa cidade já não reparamos nas praças, nas avenidas, nos monumentos, excepto quando o acaso ou o dever no-los apontam (Ah, mas aqui havia árvores; oh, repara que belo edifício, etc.), também às vezes descobrimos que a nossa mulher tem seios ou olhos bonitos ou quadris tentadores. Mas são momentos esporádicos e seguramente anormais, uma vez que exigem de nós uma nova abordagem ou um novo ajuste do diafragma da nossa consciência, o que implica um esforço e, por essa mesma razão, encontra em nós resistência. É por esse motivo que a vida conjugal, quando não há filhos nem interesses comuns nem afinidades intelectuais nem, sobretudo, compatibilidades temperamentais ou sexuais, acaba por se transformar numa ficção, num companheirismo às cegas, tão fantasmagórico como o itinerário mil vezes percorrido numa cidade, em que nos limitamos a ser conduzidos pelos nossos reflexos. A mulher percebe isso e, uma vez por outra, tenta fazer-se notar através de um novo penteado, de um novo detalhe no vestuário ou de um convite para que a sigam pelo bairro não visitado e censurado do seu corpo. O homem também o percebe e impõe-se, de vez em quando, uma mudança de aparência (caso patológico do travesti). Mas os disfarces também cansam e não passam de disfarces.»

Julio Ramón Ribeyro, "Prosas Apátridas", Edições Ahab, 2011

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

a temperatura do corpo #19


   105
Há vísceras sentimentais que têm influência num homem
e essas, claro, não são as mais sensatas,
porém as piores e mais determinantes são, de longe,
as pornográficas.
Por que razão não é a vida apenas uma ordem que respira,
onde para cada momento existe uma única acção certa?
A vida individual como algo de didáctico e estúpido
onde se pedisse apenas uma repetição dos dias
que outros já tivessem praticado em perfeita segurança.

   106
Abandonando a ironia e falando seriamente:
há uma certa angústia nos homens que já se viram nus
ao lado de outros humanos.
E isto porque aí se percebe com intensidade forte (e brutal)
como um homem é coisa distinta e, portanto, inimiga
de qualquer outro. Foi a roupa que inventou a compaixão
(e provavelmente a simpatia). Nus, os homens odeiam-se,
ou quando muito excitam-se; vestidos, pelo contrário,
fingem que ser da mesma espécie é mais importante
que não ser o mesmo corpo.
Vistas as coisas, Bloom quer alcançar a Índia
e a sabedoria ao mesmo tempo.
E tão longe ainda está desses dois
destinos. 

Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia", Caminho, 2010

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

domingo, 2 de setembro de 2012

sábado, 1 de setembro de 2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

terça-feira, 28 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

domingo, 26 de agosto de 2012

sábado, 25 de agosto de 2012

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012