terça-feira, 10 de julho de 2012

Ela tem os teus olhos #4


«Quando vemos televisão, passamos pela experiência de imagens cerebrais. Ao contrário do que acontece no caso da privação sensorial, essas imagens não nos pertencem. São da autoria de terceiros. Visto todas as outras nossas capacidades se encontrarem reprimidas e o resto do mundo obscurecido, é provável que essas imagens consigam exercer grande influência. Estarei eu a falar de lavagem ao cérebro, hipnose, controlo à distância ou algo semelhante? O que é certo é não há dúvida de que alguém comunica com a nossa mente e deseja levar-nos a fazer alguma coisa.
Primeiro, fique connosco.
Segundo, viva as nossas imagens. 
Terceiro, compre alguma coisa.   
Quarto, esperamos por si amanhã.»

Jerry Mander, "Quatro Argumentos Para Acabar com a Televisão", Antígona, 1999

segunda-feira, 9 de julho de 2012

reflexo condicionado


©Malick, Terrence;1973

domingo, 8 de julho de 2012

a poesia não me interessa #34


Apeteceu-lhe a felicidade,
apeteceu-lhe a verdade,
apeteceu-lhe a eternidade,
vejam só!


Mal discerniu o sonho da realidade,
mal se apercebeu que ele é ele,
mal lhe nasceu a mão da barbatana,
talhou o fuzil e o foguete.
Tão frágil, que afogar-se-ia numa poça de água.
tão pouco engraçado, que nem o nada o faria rir,
é só com os olhos que vê,
é só com os ouvidos que ouve,
é com o intelecto que reprova o intelecto,
o recorda da sua fala é o mundo condicional,
numa palavra : quase ninguém,
mas almeja a liberdade, a omnisciência
e a existência fora da carne néscia,
vejam só!


Porque afinal parece existir,
efectivamente aconteceu
sob uma das estrelas provincianas,
ao seu jeito vivaz e bem activo.
Para um vil bastardo de cristal -
bastante se admira.
Para uma infância difícil, condicionada pelo rebanho -
vejam só!


Então que continue, nem que seja por um instante,
nem que seja pelo clarão de uma pequena galáxia!
Que por fim se saiba mais ou menos
o que será, uma vez que é.
E ele é tenaz.
Tenaz, diga-se, e muito.
De argola no nariz, de toga ou casaco de malha.
Tem piada, seja como for.
Pobre coitado.
Enfim - o Homem.


Wislawa Szymborska


Czeslaw Milosz - Wislawa Szymborska, "Alguns gostam de poesia", Cavalo de Ferro, 2004

sábado, 7 de julho de 2012

Retrato de Família #20


Jorge Luis B. Karamazov (1899-1986) 

«Nunca vivi em um mundo visual. Por exemplo, eu sei que tenho, me garantiu minha mãe que não me engana, duas gravatas. Em outras épocas tive mais, mas nunca soube quantas. Não sei qual a cor da roupa que uso.»

sexta-feira, 6 de julho de 2012

espécie de oração particular #19


«Ermo semeador da liberdade,
Saí sozinho, antes da estrela;
Com a mão límpida e sem pecado,
Nos sulcos da terra escravizados
Lancei o grão vivificante –
Pena perdida: perdi meu tempo,
Meus bons desígnios e meus cuidados…»






Aleksandr Púchkin, “O Cavaleiro de Bronze e outros poemas”, Assírio & Alvim, 1999

quinta-feira, 5 de julho de 2012

o Mal-estar da Civilização #29


«Diz aos teus amigos e conhecidos que, se não voltares, é porque o teu sangue parou e se imobilizou ao ver estas cenas atrozes e bárbaras, ao ver como pereceram as crianças inocentes e sem protecção do meu povo só e abandonado.
Diz-lhe que, se o teu coração se transformar em [pedra], o teu cérebro em frio mecanismo de pensamento e o teu olho em simples máquina de fotográfica, também não voltarás ao seu encontro.»
Z. Gradowski 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

terça-feira, 3 de julho de 2012

Inaugurar sentimentos, o amor por vir #1



«Perdi o meu ódio, quando? Não há duvida que lhe sinto a falta, a esse ódio cheio e suculento. Há um nome, eu sei, que podia despertá-lo, mas prefiro por enquanto deixá-lo esquecido. Pudesse eu apagar esse nome, não apenas da minha memória, mas também da de todos os homens que sobreviverem! Pudesse eu reduzi-lo a cinzas nas nossas cabeças, e a minha vida não teria sido em vão: Aquiles.»


Christa Wolf, "Cassandra: narrativa", Cotovia, 1989

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Paz à sua bala #3


Ketchum, 2 de Julho de 1961

domingo, 1 de julho de 2012

dedicatória #17*


* dedicada a "la furia roja".

sábado, 30 de junho de 2012

Orelhas de Elefante #28

Clark, "Iradelphic", Warp Records, 2012

Fennesz, "AUN - The Beginning and the End of All Things" [OST], 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Dicionário das causalidades #13


N
       
Naturezas

«Qualquer perspectiva de despertar ou voltar à vida faz com que todos os tempos e lugares sejam indiferentes para um homem morto. O local em que isso pode ocorrer é sempre o mesmo e indescritivelmente agradável a todos os nossos sentidos. Na maioria das vezes, só permitimos que circunstâncias marginais e transitórias estabeleçam nossas oportunidades. Elas são, de fato, a causa de nossa distracção. Pertíssimo de todas as coisas está aquela força que lhes modela o ser. Junto de nós as maiores leis estão continuamente sendo executadas. Junto de nós não está o operário que contratamos e com quem gostamos tanto de falar, mas o operário cuja obra somos nós.»

Henry David Thoreau, "Walden ou a Vida Nos Bosques", Antígona, 1999

quarta-feira, 27 de junho de 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

Não respire... (ou leituras em apneia) #6


«Sabes que decidi manter-me de cabeça descoberta, embora tal atitude constitua uma falta grave de desobediência e revele que, daqui para o futuro, eu me deva manter numa perspectiva sagrada?»

Maria Gabriela Llansol, "Na Casa de Julho e Agosto", Relógio D'Água, 2003

Pode respirar.  

segunda-feira, 25 de junho de 2012

espécie de oração particular #18


«Aprende
A não esperar por ti pois não te encontrarás 

No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida 
E os oceanos depois devagar te rodearam


A isso chamaste Orpheu Eurydice - 
Incessante intensa a lira vibrava ao lado 
Do desfilar real dos teus dias 
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontro do fracasso —.
Quem se lembra do fino escorrer da areia 
                                                    [na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira rio
Em Junho»


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Musa", Editorial Caminho, 1994

sábado, 23 de junho de 2012

diário dos mesmos pesares #17


«A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.»


José Saramago, "Ensaio sobre a Cegueira", Editorial Caminho, 1995

sexta-feira, 22 de junho de 2012

ninguém é filho das ervas #5



«Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação»
Walter Benjamin

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Teoria da Conspiração #35 (ou a ladeira do nosso contentamento)



«No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhosas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de acções sem elo em que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.»


Albert Camus, "O Mito de Sísifo", Livros do Brasil, 2005