domingo, 10 de junho de 2012
sábado, 9 de junho de 2012
ninguém é filho das ervas #4
«Estar à espera de se tornar planta, lembrar-se de ter sido animal, ter vindo de muito longe para esperar: tornar-se, isto é: adquirir o seu repouso.»
Maria Filomena Molder
sexta-feira, 8 de junho de 2012
diário dos mesmos pesares #16
«Cada homem é a medida do Universo.»
Teixeira de Pascoaes, "Aforismos", Assírio & Alvim, 1998
«Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Obra Poética I", Editorial Caminho, 1992
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Obra Poética I", Editorial Caminho, 1992
quinta-feira, 7 de junho de 2012
a temperatura do corpo #16
Na mesa ao lado,
um jardim de senhoras ao domingo,
associadas na ordem da má-língua
e do chá com limão,
num café de inverno, pela tarde.
um jardim de senhoras ao domingo,
associadas na ordem da má-língua
e do chá com limão,
num café de inverno, pela tarde.
Queixam-se deste tempo, bebem, fumam,
discutem seus segredos, concordam com sorrisos…
discutem seus segredos, concordam com sorrisos…
e de súbito param a olhar-te.
Despreocupada contas
― e no local a tua voz é como um sabre
que fere o inimigo ―
uma história de cama com detalhes hábeis,
uma maneira de sentir a vida
que penetra e dissolve
a luz de igreja,
a humilhação do frio nos joelhos,
os caixões fechados e as fotos do casamento.
― e no local a tua voz é como um sabre
que fere o inimigo ―
uma história de cama com detalhes hábeis,
uma maneira de sentir a vida
que penetra e dissolve
a luz de igreja,
a humilhação do frio nos joelhos,
os caixões fechados e as fotos do casamento.
Certo tipo de gente
sofre de invernia nos olhos,
conhece as geadas
que passam por baixo da porta,
uma porta de quarto,
ali onde a noite tem sempre
um cheiro a espera inútil,
e depois da espera aceitam-se as mentiras,
e a seguir o silêncio.
sofre de invernia nos olhos,
conhece as geadas
que passam por baixo da porta,
uma porta de quarto,
ali onde a noite tem sempre
um cheiro a espera inútil,
e depois da espera aceitam-se as mentiras,
e a seguir o silêncio.
Nada deixam os anos na mesa do lado,
senão um murmúrio que envelhece e uma sombra
que cruza os lábios como uma cicatriz,
um rancor na epiderme da consciência.
senão um murmúrio que envelhece e uma sombra
que cruza os lábios como uma cicatriz,
um rancor na epiderme da consciência.
A tua voz é alta e jovem
e vestida de festa, e quando se desnuda
faz com que o sol de inverno, comovido,
se detenha um instante para apoiar a fronte
nas vidraças do café.
e vestida de festa, e quando se desnuda
faz com que o sol de inverno, comovido,
se detenha um instante para apoiar a fronte
nas vidraças do café.
Luis García Montero, Espanha (n. 1958), traduzido por Nuno Dempster
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Teoria da Conspiração #34 (ou o desdobrado é antes do mais um dividido)
«Pouco ou muito, de tempos a tempos toda a pessoa sente um desejo de abandonar o seu “eu” (esse conjunto aproximativo), tentada por um outro “eu”. Máscaras, cerimónias e festas e jogos respondem a essa tentação sem a realizarem, detendo-se antes, realizando apenas uma macacada.
Sendo o problema primordial na vida o tomar a cargo o próprio ser, a personalidade de um indivíduo é constituída, não sem andar às apalpadelas, na primeira idade porque a mais cómoda no seu meio original, e é mantida, mais ou menos igual no decurso dos anos, por facilidade, como sendo a mais conveniente.
Esta formação a longo prazo tendo ganho em profundidade já não pode ser dividida apesar dos remorsos e da inapropriação, a menos que uma necessidade seja fortemente sentida, e em casos muito raros.»
Henri Michaux, "Uma via para a insubordinação", & Etc, 2008
terça-feira, 5 de junho de 2012
a poesia não me interessa #33
Música do fogo, tu não soubeste tocar.
Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto.
Henri Michaux, "Nós dois ainda", Bonecos Rebeldes, 2009
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Chefe, precisamos de mentiras novas #7
«É bem evidente a vida mesquinha e vil que muitos levam, digo-o porque a experiência me tem aguçado a visão para os que vivem na corda bamba, tentando negócios para escaparem às dívidas - esse antiquíssimo atoleiro a que os latinos chamavam de aes alienum, o cobre alheio, pois algumas das suas moedas eram cunhadas nesse metal -, ainda assim vivendo e morrendo, enterrados pelo dinheiro alheio, sempre prometendo pagar, jurando pagar amanhã e morrendo hoje insolventes; bajulando por favores, angariando fregueses de mil e um modos desde que não redundem em prisão, mentindo, adulando, votando, enredando-se em meia dúzia de palavras corteses ou expandindo-se numa atmosfera de melíflua e vaporosa generosidade a fim de persuadirem o vizinho a deixá-los engraxar-lhe os sapatos, escovarem-lhe o chapéu e casaco, limparem-lhe a carruagem ou levarem-lhe as compras da mercearia; fazendo-se de doentes com vista a economizarem algo para o dia em que estejam de facto doentes, algo a ser guardado numa velha cómoda, armazenado atrás do reboco ou, melhor ainda, na bancada de tijolos, seja onde for, seja muito ou pouco.»
Henry David Thoreau, "Walden ou a Vida Nos Bosques", Antígona, 1999
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domingo, 3 de junho de 2012
o Mal-estar da Civilização #27
«Há muitos anos que os meus pensamentos não visam outro alvo que senão eu mesmo, que só me examino e estudo a mim próprio, e se outra coisa venho a estudar, é para logo a aplicar a mim, ou, mais bem dito, em mim. E não me parece laborar em erro se, tal como se faz com outras ciências, incomparavelmente menos úteis, eu partilhar o que aprendi com esta, conquanto não esteja muito satisfeito com os progressos que nela fiz. Não há descrição tão difícil como a de si mesmo, nem, decerto, tão útil. Ademais, é preciso pentear-se, preparar-se e arranjar-se para se apresentar em público. Ora eu estou incessantemente a enfeitar-me porque incessantemente estou a descrever-me.»
Montaigne, "Ensaios", Relógio d'Água, 1998
sábado, 2 de junho de 2012
K, o elemento estranho da tabela literária #2
«Porque somos todos como troncos de árvore na neve. Estes, em aparência, estão apenas pousados, de tal forma que um pequeno empurrão seria suficiente para os fazer rolar. Mas não, é impossível, estão bem seguros ao solo. E até isso não passa de uma aparência.»
Franz Kafka, "Contos", Cavalo de Ferro, 2004
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sexta-feira, 1 de junho de 2012
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Ela tem os teus olhos #3
«Não é por acaso que a televisão pôde ser controlada por um conglomerado de comerciais. Nem é por acaso que foi usada para recriar seres humanos em novas formas, adaptadas aos ambientes artificiais e comerciais. Uma conspiração de factores tecnológicos e económicos levou inevitavelmente a essa situação, continuando a fazê-lo.»
Jerry Mander, "Quatro Argumentos Para Acabar com a Televisão", Antígona, 1999
terça-feira, 29 de maio de 2012
A vida não é um sonho #19
«- A minha ingenuidade consiste em não ter vergonha de si. Não só não me envergonho diante de si como não quero envergonhar-me, precisamente diante de si, Aliocha… Por que não lhe tenho respeito? Gosto muito de si, mas não lhe tenho respeito. Se lhe tivesse respeito, não poderia falar consigo sem ter vergonha, não é verdade?
- É verdade.
- Acredita que não tenho vergonha de si?
- Não, não acredito.
Lisa voltou a rir-se; falava depressa.
- Mandei confeitos ao seu irmão Dmítri Fiódorovitch. O Aliocha permitiu, tão depressa, que não o amasse.
- Para que me chamou, Lise?
- Quero informá-lo de um desejo que tenho. Quero que alguém me martirize: se case comigo e, depois, me martirize, me engane, me abandone. Não quero ser feliz!»
Fiódor Dostoievski, "Os Irmãos Karamázov" (Livro 11;3), Editorial Presença, 2002
segunda-feira, 28 de maio de 2012
domingo, 27 de maio de 2012
quero outra noite no fim do dia #8
«Lado a lado, com o desespero, nascia nele a esperança de que, sozinho, através desse perigoso regresso, conseguisse voltar a ser um homem desejado. Em toda essa caminhada, sentia-se um homem feliz. Se alguém lhe tivesse perguntado se o que o fazia feliz era a esperança ou a saudade, ele não saberia responder. Nas almas de muitas pessoas, a tristeza gera maior alegria do que o prazer.
As mais preciosas de todas as lágrimas que engolimos são as que choramos sobre nós próprios.»
Joseph Roth, "Fuga sem fim", Publicações Dom Quixote, 1988
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sábado, 26 de maio de 2012
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Imediatamente embora pouco a pouco #20
«Descia Mercatore umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, contra a parede, a comer lentilhas.
Arrogante, mais do que era seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava, e pelo estômago farto, disse, para Diógenes:
- Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.
E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes.
O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este, agora? Um simples homem rico?
Diógenes respondeu. À letra:
- E tu – disse o filósofo – se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei.»
Gonçalo M. Tavares, "Histórias Falsas", Campo das Letras 2005
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quinta-feira, 24 de maio de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Toda a humilhação leva à morte #14
«É difícil percorrer o fio de uma navalha; tão penoso, dizem os sábios, como o caminho da Salvação.»
Katha-Upanishad
terça-feira, 22 de maio de 2012
espécie de oração particular #16
«Há tanta coisa a querer ser a minha causa! A começar pela boa causa,
depois a causa de Deus, a causa da humanidade, da verdade, da liberdade,
do humanitarismo, da justiça; para além disso, a causa do meu povo, do
meu príncipe, da minha pátria, e finalmente até a causa do espírito e
milhares de outras. A única coisa que não está prevista é que a minha
causa seja a causa de mim mesmo! “Que vergonha, a deste egoísmo que só pensa em si!”
Por isso: nada de causas que não sejam única e exclusivamente a minha causa! Vocês dirão que a minha causa deveria, então, ao menos ser a “boa causa”. Qual bom, qual mau! Eu próprio sou a minha causa, e eu não sou nem bom nem mau. Nem uma nem outra coisa fazem para mim qualquer sentido.
O divino é a causa de Deus, o humano a causa “do homem”. A minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre, etc., mas exclusivamente o que é meu. E esta não é uma causa universal, mas sim… única, tal como eu.
Para mim, nada está acima de mim!»
Max Stirner, "O Único e a sua Propriedade", Antígona, 2004
Por isso: nada de causas que não sejam única e exclusivamente a minha causa! Vocês dirão que a minha causa deveria, então, ao menos ser a “boa causa”. Qual bom, qual mau! Eu próprio sou a minha causa, e eu não sou nem bom nem mau. Nem uma nem outra coisa fazem para mim qualquer sentido.
O divino é a causa de Deus, o humano a causa “do homem”. A minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre, etc., mas exclusivamente o que é meu. E esta não é uma causa universal, mas sim… única, tal como eu.
Para mim, nada está acima de mim!»
Max Stirner, "O Único e a sua Propriedade", Antígona, 2004
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