quarta-feira, 9 de maio de 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

Não respire... (ou leituras em apneia) #5



«Um dia, quando voltávamos do trabalho, vimos três forcas montadas no local da chamada, três corvos pretos. Chamada. Os SS à nossa volta, as metralhadoras assestadas - a cerimónia tradicional. Três condenados acorrentados - e, no meio deles, o pequeno pipel, o anjo de olhos tristes. 
Os SS pareciam estar mais preocupados, mais inquietos do que era costume. Enforcar uma criança diante de milhares de espectadores não era coisa de pouca monta. O chefe do campo leu o veredicto. Todos os olhos se tinham fixado na criança. Estava lívido, quase calmo, mordendo os lábios. A sombra da forca cobria-o por completo. 
O Lagerkapo, desta vez, recusou ser o carrasco. Três SS substituíram-no. 
Os três condenados subiram ao mesmo tempo para cima das cadeiras. Os três pescoços foram introduzidos ao mesmo tempo nos nós corredios. 
- Viva a liberdade! - gritaram os dois adultos. 
O pequeno, esse mantinha-se, calado. 
- Onde está o Bom Deus, onde está Ele? - perguntou alguém atrás de mim. 
A um sinal do chefe do campo, as três cadeiras oscilaram. 
Silêncio absoluto no campo. No horizonte, o sol punha-se. 
- Tirem os chapéus! - berrou o chefe do campo. A sua voz era rouca. Quanto a nós, nós chorávamos. 
- Tapem a cabeça! 
Depois começou o desfile. Os dois adultos já estavam mortos. As suas línguas pendiam, inchadas, azuladas. Mas a terceira corda não estava imóvel: tão leve, a criança ainda estava viva... 
Assim ficou durante mais meia hora, a lutar entre a vida e a morte, agonizando aos nossos olhos. E nós tínhamos de o encarar bem de frente. Ainda estava vivo quando passei diante dele. A sua língua ainda estava vermelha, os seus olhos ainda não estavam sem vida. 
Atrás de mim, ouvi o mesmo homem a perguntar: 
- Onde é que Deus está, então?
E eu sentia dentro de mim uma voz que lhe respondia: 
- Onde é que ele está? Ei-lo - está aqui pendurado nesta forca... 
Naquela noite, a sopa sabia a cadáver.»


Elie Wiesel, "Noite", Texto Editora, 2003


Pode respirar.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Perguntas Abandonadas #19



«Se um falar -, porquê o escrever?»


María Zambrano (1904-1991) 

sábado, 5 de maio de 2012

electrocardioTrama #11 (ou a actividade emergente do eu)

«Se é difícil que cada um escolha o seu eu, é porque, assim, o isolamento absoluto se torna idêntico à mais profunda das continuidades, porquanto a escolha do seu próprio eu exclui definitivamente a possibilidade de se tornar outro, mais ainda: de se imaginar outro.»




«Enquanto a paixão da liberdade acorda nele (e acorda na escolha porque está implicada nessa mesma escolha), ele próprio escolhe o seu eu e luta pela sua posse tanto como pela sua salvação, e é mesmo a sua salvação.»

sexta-feira, 4 de maio de 2012

a temperatura do corpo #14



«... um dia a crença partirá. A razão partirá também. E eu desaparecerei do vosso corpo. Só o homem ficará finalmente sozinho sobre a Terra. Nenhum de nós imagina o esplendor que isso é.»


Maria Gabriela Llansol, «Está de volta o medo». JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 625, 28 de Setembro de 1994

terça-feira, 1 de maio de 2012

diário dos mesmos pesares #14


Sofremos com nojo a pertença em nós
inculcada de uma geração, as suas taras
vindas de longe, modos diferentes
de se ser igual. Com uma raiva triste,
vemo-los foder, procriar, indo aos poucos
definhando, esperados que são
por pós-modernos jazigos.


Não há nada a fazer,
nenhuma palavra nos salva.
Somos sempre contemporâneos da merda.


Manuel de Freitas, "A última Porta (Antologia)", Assírio e Alvim, 2010


segunda-feira, 30 de abril de 2012

Teoria da Conspiração #32 (ou o Acabar a Corrida a Passo)


«Ainda não era o verdadeiro Homem, com dizia Klober, o Homem que quando se aproxima se aproxima para matar, mas havia já nele algo de muito significativo: qualquer aproximação a outra existência, não sendo ainda para a eliminar, era já, e desde há muito, para não amar. Posso aproximar-me com segurança, pensava Walser, naquele momento em que recordava de novo o beijo dado a Clairie, posso aproximar-me sem medo de qualquer pessoa porque sei que não a vou amar. Já estou preparado para não amar ninguém - e esta frase dita assim, para si próprio, era sentida como a sua grande arma em tempo de guerra, a grande defesa em relação à agressividade do século. Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade! E nesse momento, a caminhar em plena rua, desarmado, observando de cima os seus sapatos castanhos, velhos, sapatos irresponsáveis como troçava Klober, nesse momento Walser sentia-se tão seguro - e, ao mesmo tempo ameaçador - como se avançasse dentro de um tanque pela rua.»


Gonçalo M. Tavares, "A Máquina de Joseph Walser", Caminho, 2004

domingo, 29 de abril de 2012

dedicatória #15*


* dedicada a todos os jesuítas.

sábado, 28 de abril de 2012

Imediatamente embora pouco a pouco #18



«Há trinta e cinco anos que prenso papel velho e livros, há trinta e cinco anos que me sujo de letras, de tal modo que me pareço com as enciclopédias de que durante esse tempo todo devo ter prensado pelo menos três toneladas: sou um cântaro cheio de água viva e água morta, basta inclinar-me um pouquinho e jorram de mim ideias lindas; sou culto independentemente da minha vontade e, assim, nem sei bem quais as ideias que são minhas, e saídas da minha cabeça, e que ideias li. Foi assim que, durante estes trinta e cinco anos, me liguei a mim próprio e ao mundo à minha volta; é que, quando estou a ler, afinal não leio, apenas colho com o bico uma bela frase e chupo-a como um rebuçado, como se bebericasse um cálice de licor durante muito tempo, até que a ideia se espalhe em mim como o álcool; ela dissolve-se em mim tão lentamente que penetra não só no meu cérebro e no coração mas pulsa também nas minhas artérias até às raízes dos capilares.»


Bohumil Hrabal, "Uma solidão demasiado ruidosa", Edições Afrontamento, 1992


sexta-feira, 27 de abril de 2012

A vida não é um sonho #17



«"Durante o caminho - disse Baranowicz - estive sempre a pensar se te deveria dizer. Ao fim e ao cabo, tenho pena que regresses a casa. Se calhar, nunca mais nos vemos e tu nunca mais me escreves."
"Nunca te esquecerei", disse Tunda.
"Não prometas nada!", disse Baranowicz.
Foi assim o adeus.»


Joseph Roth, "Fuga sem fim", Publicações Dom Quixote, 1988

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Orelhas de Elefante #26


«Todos os astros são repetições de uma combinação original, ou tipo. Não é possível a formação de novos tipos. O seu número esgotou-se necessariamente desde a origem das coisas –embora as coisas nunca tenham tido uma origem. Isto significa que um número fixo de combinações originais existe em toda a eternidade, e não é mais susceptível de aumentar ou diminuir do que a matéria. É e permanecerá o mesmo até ao fim das coisas, que, tal como não podem começar, também não acabarão. Eternidade dos tipos actuais no passado como no futuro, e nem um astro que não seja um tipo repetido até ao infinito, no tempo e no espaço – é esta a realidade.»

Louis Auguste Blanqui (1805-1881)


quarta-feira, 25 de abril de 2012

liberdade


©Coppola, Sofia;1999

terça-feira, 24 de abril de 2012

a temperatura do corpo #13


«Meu corpo interior — por fazer parte da minha autoconsciência — oferece um conjunto de sensações orgânicas internas, de necessidades e de desejos reunidos ao redor de um centro interior: o que é exterior é registrado de forma fragmentária, não alcança autonomia e pertence à minha unidade interna por intermédio de um equivalente interno. Não posso reagir de modo imediato ao meu corpo exterior: o tom emotivo-volitivo daquilo que se relaciona com meu corpo está sempre vinculado às possibilidades e aos seus estados internos — dor, prazer, paixão, satisfação, etc. Posso amar meu próprio corpo, sentir por ele algo como ternura, mas isso apenas significa o desejo constante que tenho dos estados e das emoções que se realizam através do meu corpo, e esse amor nada tem em comum com o amor que tenho pela exterioridade individualizada do outro.»


Mikhail Bakhtin, "Estética da Criação Verbal", Martins Fontes, 1997

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dicionário das causalidades #11



L
       
Livro

«Você sempre me disse que esse livro foi me transformando à medida que eu o escrevia. "Depois de terminá-lo, você não era mais o mesmo." Acho que estava enganada. O que me permitiu mudar não foi escrevê-lo; foi ter produzido um texto publicável e vê-lo publicado. Publicar mudou a minha situação. Conferiu-me um lugar no mundo, conferiu realidade ao que eu pensava, uma realidade que excedia minhas intenções; que me obrigava a me redefinir e a me ultrapassar continuamente para não me tornar o prisioneiro nem da imagem que os outros faziam de mim, nem de um produto que se tornara outro em relação a mim, por sua realidade objetiva. A magia da literatura: ela me dava acesso à existência na medida em que eu tinha me descrito, escrito, na minha recusa, era essa recusa, e, por sua publicação, me impedia de perseverar nessa recusa. Era precisamente o que eu tinha esperado, e que só a publicação permitiria que eu obtivesse: ser obrigado a me engajar além do que minha própria vontade me permitia; e me fazer perguntas, perseguir fins que eu não havia definido sozinho.
Assim, o livro não se tornará operante pelo trabalho da sua elaboração. Ele vai se tornar progressivamente operante à medida que me confronte com possibilidades e relações com os outros, inicialmente imprevistas.» 

André Gorz, "Carta a D. - História de um amor", Cosac Naify, 2008