segunda-feira, 9 de abril de 2012

adormecer na praia

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©Hudson, Hugh;1981

domingo, 8 de abril de 2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

o Mal-estar da Civilização #26



«O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.
Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.

No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.
Todos aguardavam.
A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.
O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.
Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado. Mas não conseguiram.
Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.»


Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Brecht", Caminho, 2004

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Paz à sua bala #1


São Miguel de Seide, 1 de Junho de 1890

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Imediatamente embora pouco a pouco #16


«Que a morte venha ter connosco ou que vamos nós ao seu encontro, não tem a mínima importância. Há quem diga: "A coisa mais bela é morrer de morte natural!" Convence-te de que esta frase é um absurdo enunciado de um espírito o mais inepto possível. Ninguém morre senão de morte natural! Em outra coisa ainda deverás meditar: ninguém morre senão no seu próprio dia. Do teu tempo, nunca perderás um segundo, pois todo o tempo que sobra já não te pertence!»

Séneca, "Cartas a Lucílio", Fundação Calouste Gulbenkian, 2004

terça-feira, 3 de abril de 2012

Dicionário das causalidades #10


        
J
        
Julgar-se
       
«Nós temos em toda a vida, especialmente na esfera da comunicação espiritual, o hábito errado de emprestarmos às outras pessoas muito daquilo que nos é próprio, como se tivesse de ser mesmo assim. Mas como elas, além disso, nos mostram também o que têm de si próprias, daí resultam, dado que nós procuramos criar uma unidade com as duas partes, autênticos monstros, semelhantes àqueles que, numa casa com muitos cantos, a luz de uma lanterna produz com uma parte de sombras e uma parte de objectos reais. Não há nenhuma operação mais útil mas, ao mesmo tempo, mais difícil que deduzir da imagem do outro aquilo que inconscientemente lhe foi emprestado. No entanto, só assim fazemos dos outros verdadeiras pessoas - ou, dito de uma forma mais breve: o homem julga compreender os homens quando acrescenta a uma suposta e ilimitada analogia com o seu próprio eu ainda alguma coisa que é contrária a esse eu. É a experiência que leva cada um a poder lidar com pessoas que tem de imaginar, na sua essência, diferentes de si mesmo.»

Hugo Hofmannsthal, "Livro Dos Amigos", Assírio & Alvim, 2002

domingo, 1 de abril de 2012

Momento Pergaminho #9

 


«Se um ser sofre, não pode haver justificação moral para recusar ter em conta esse sofrimento. Independentemente da natureza do ser, o princípio da igualdade exige que ao seu sofrimento seja dada tanta consideração como ao sofrimento semelhante - na medida em que é possível estabelecer uma comparação aproximada - de um outro ser qualquer. Se um ser não é capaz de sentir sofrimento, ou de experimentar alegria, não há nada a ter em conta. Assim, o limite da senciência (utilizando este termo como uma forma conveniente, se não estritamente correta, de designar a capacidade de sofrer e/ou, experimentar alegria) é a única fronteira defensável de preocupação relativamente aos interesses dos outros. O estabelecimento deste limite através do recurso a qualquer outra característica, como a inteligência ou a racionalidade, constituiria uma marcação arbitrária. Por que não escolher qualquer outra característica, como a cor da pele?»

Peter Singer, "Libertação Animal", Via Optima, 2008

sábado, 31 de março de 2012

Teoria da Conspiração #31 (ou Como num Sono Acordado)



«O acordar privilegiado não tem que suceder forçosamente quando se dorme. Dado que sono e vigília não são duas partes da vida, que ela, a vida, não tem partes, mas lugares e rostos. E assim, do sono e de certos estados de vigília, pode-se acordar deste privilegiado modo que é o acordar sem imagem.
Acordar sem imagem sobretudo de si próprio, sem imagens algumas da realidade, é o privilégio deste instante que pode passar de maneira inapreensível, deixando, sem dúvida, a pegada; uma pegada inextinguível, mas que não se sabe decifrar, pois não houve conhecimento. E nem sequer um simples registo desse ter acordado para este nosso aqui, para este espaço-tempo onde a imagem nos assalta. O ter respirado somente numa solidão privilegiada nas margens da fonte da vida. Um instante de experiência preciosa da preexistência do amor: do amor que nos diz respeito e nos olha, que olha para nós.» 


Maria Zambrano, "Clareiras do Bosque", Relógio D'Água, 1995

sexta-feira, 30 de março de 2012

Perguntas Abandonadas #18


«- que necessidade é esta nossa de nos remetermos ao silêncio e de fecharmos a boca, enquanto as mais diversas e estranhas coisas caem sobre nós e se acumulam, reclamando luz, ar, liberdade, a palavra?»


Friedrich Nietzsche (1844-1900)

quinta-feira, 29 de março de 2012

A vida não é um sonho #16



 «- Tu e a mãe vão-se divorciar? - tinha ele perguntado. Era sábado de manhã e não havia muitos carros.
 - Se pudermos evitar, não - disse eu. - Não queremos. Por isso é que vamos para fora e não queremos ver ninguém durante o Verão. Por isso é que alugámos a nossa casa durante o Verão e arranjámos uma em Eureka. Também é por isso que te vais embora, acho eu. Pelos menos, é uma das razões. Para não falar no facto de vires de lá com os bolsos cheios de dinheiro. Nós não queremos divorciar-nos. Queremos estar sozinhos durante o Verão e tentar resolver as coisas.
 - Ainda gostas da mãe? - disse ele. - Ela disse-me que sim.
 - Claro que gosto - disse eu. - Já devias saber isso. Só que tivemos a nossa quota parte de problemas e grandes responsabilidades, como toda a gente, e agora precisamos de um tempo a sós para resolver as coisas. Mas não te preocupes connosco. Vai para lá e passa um bom Verão, trabalha muito e poupa dinheiro. Considera isso também uma férias. Vai à pesca o mais que puderes. Há por lá bons sítios para pescar.»


Raymond Carver, "Telefona Se Precisares de Mim", Editorial Teorema, 2001

quarta-feira, 28 de março de 2012

electrocardioTrama #10 (ou a actividade implícita do espírito)



«A história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes da sua carreira ou da carreira das suas obras, mas a História do Espírito como produtor ou consumidor de literatura. Essa história poderia ser levada até o fim sem mencionar um só escritor.»

terça-feira, 27 de março de 2012

quero outra noite no fim do dia #7



«Grande sorte é topar com homens de seu génio e de seu engenho; arte é sabê-los buscar; conservá-los, maior. Fruição é o conversável momento, e a felicidade a discreta comunicação, especialmente quando o génio é singular, ou por excelente ou por extravagante; que é infinita latitude, até entre dois términos de sua bondade ou sua malícia, a sublimidade ou a vulgaridade, o cordo ou o caprichoso: uns comuns, outros singulares.»


Baltasar Gracián, "O Discreto", frenesi, 2005

segunda-feira, 26 de março de 2012

domingo, 25 de março de 2012

o Mal-estar da Civilização #25



 «- A libertação das algemas e o voltar-se das sombras para as figurinhas e para a luz e ascensão da caverna para o Sol, uma vez lá chegados, a incapacidade que ainda têm de olhar para os animais e plantas e para luz do Sol, mas, por outro lado, o poder contemplar reflexos divinos na água e sombras, de coisas reais, e não, como anteriormente, sombras de imagens lançadas por uma luz que é, ela mesmo, apenas uma imagem, comparada com o Sol - são esses os efeitos produzidos por todo este estudo das ciências que analisamos; elevam a parte mais nobre da alma à contemplação da visão do mais excelente seres, tal como há pouco a parte mais clarividente do corpo se elevava à contemplação do objecto mais brilhante na região do corpóreo e do visível.»


Platão, "A República", Fundação Calouste Gulbenkian, 2001

sexta-feira, 23 de março de 2012

alegações finais #7



«Quando, por fim, as chamas o alcançaram, desatou a rir às gargalhadas como nunca tinha rido na sua vida.»


 Elias Canetti, "Auto de Fé", Livros do Brasil, 1983

quinta-feira, 22 de março de 2012

é meia-noite no fim do céu #9


«No inarticulado mundo animal
Apenas esta criatura
Compreendeu o bem e o mal e viu
O homem completo,
Aquele a quem
Talvez a vida deu alegremente
Esse objecto de um amor livre»

Rabindranath Tagore, "Poesia", Assírio & Alvim, 2004